sábado, 15 de dezembro de 2012

Mocambique: MASSACRE DE WIRIYAMU FOI O LADO BRUTAL DO COLONIALISMO

 


Massacre atesta o lado mais brutal da experiência colonial portuguesa - historiador
 
LAS – HB - Lusa
 
Maputo, 15 dez (Lusa) - O investigador português Pedro Aires Oliveira defende que o "melindre" em torno de Wiriyamu resulta de o massacre ocorrido há 40 anos no centro de Moçambique "atestar o lado mais brutal da experiência colonial" portuguesa.
 
"Obriga-nos a pôr em perspetiva alguma da retórica que celebra o caráter 'singular' do colonialismo português, alegadamente mais tolerante, e que ainda encontra eco em certos setores da sociedade portuguesa", referiu, numa declaração enviada à Lusa. Pedro Oliveira, co-autor, com Bruno Reis, da investigação "Cutting Heads or Winning Hearts: Late Colonial Portuguese Counterinsurgency and the Wiriyamu Massacre of 1972".
 
O massacre de Wiriyamu, perpetrado no dia 16 de dezembro de 1972 por tropas especiais portuguesas em três aldeias da província moçambicana de Tete, terá resultado na morte de mais de 400 civis, suspeitos de pertencerem ou ajudarem a Frelimo.
 
Mas, ainda hoje, o episódio, "dos mais terríveis da guerra colonial", continua pouco conhecido dos portugueses, apesar do grande impacto internacional que teve na época e de ser frequentemente comparado à "chacina de My Lay", que envolveu militares norte-americanos no Vietname.
 
"Em Portugal, nunca se realizou um apuramento dos factos e das responsabilidades equiparável àquele que, apesar de tudo, foi feito nos EUA, embora conduzindo a apenas uma condenação", recorda o investigador da Universidade Nova de Lisboa.
 
Para além de pôr em causa o caráter alegadamente mais benigno do colonialismo português, os acontecimentos de 16 de dezembro de 1972 terão, segundo diversas interpretações, apressado a democratização de Portugal e o fim das guerras coloniais em África.
 
Pedro Oliveira considera que Wiriyamu consolidou "uma tendência de fundo que se estava a desenhar" nas frentes de guerra: a dos militares temerem expiar por este tipo de atrocidades, "que tinham tendência para se suceder", e a denúncia internacional e de figuras ligadas à Igreja Católica.
 
"Era um desenvolvimento muito preocupante para um regime com o perfil do Estado Novo e seu historial de colaboração com a Igreja", considera o historiador.
 
"O facto de Moçambique entre finais de 73 e inícios de 74 ter sido palco de uma série de episódios que puseram a nu todas essas tensões (estado colonial/setores da Igreja, Exército/população branca, etc.), ajuda a esclarecer a vontade dos militares portugueses em porem fim à guerra - em última análise, era a sua honra que estava em causa", acrescentou Pedro Oliveira.
 
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