sexta-feira, 23 de outubro de 2015

DUAS VISÕES SOBRE ÁFRICA, DUAS FALSAS INTERPRETAÇÕES



Rui Peralta, Luanda

As análises que tentam explicar os avanços e recuos dos processos de desenvolvimento em África não têm em conta o complexo conjunto de interacções entre as condições internas específicas e a lógica da economia-mundo.

São comuns dois tipos de conjuntos de análises que podem ser assim tipificadas: 1) a “liberal”, da “economia internacional”, dos “mercados”, também vulgarmente conhecida no último decénio como “afro-capitalista”; 2) as “socialistas”, ou “não-capitalistas”, também conhecidas por “progressistas” (embora sejam potencialmente conservadoras, tradicionalistas e responsáveis por muitos dos exemplos de “regressão” verificados nos países africanos), partidários do “nacionalismo económico”. Ambos os conjuntos alargados apresentam-nos não uma visão de conjunto da sociedade africana, mas análises e visões parciais da realidade, misturando causa com consequência.

O primeiro conjunto (liberal, de mercado, da economia internacional e do afro-capitalismo) realça os fenómenos afastados do conjunto do sistema e prefere focar problemas contextuais, como a cooperação, a fragilidade do aparelho produtivo, o consumo, a propriedade intelectual, a baixa produtividade agrícola, etc. Apresentadas de forma destacada estas realidades conduzem á “solução”: a inserção na economia-mundo. Afirmam que África tem “verdadeiros empresários” (sem duvida. Pode-se afirmar que existem 4 grupos de grandes empresários africanos: uma escassa elite empresarial pré-colonial; uma elite mais numerosa de empresários provenientes do colonialismo; os empresários pós-colonialismo; finalmente as novas elites ultradinâmicas afro-capitalistas), astutos e arrojados, capazes de irromper na economia-mundo através de uma agricultura comercial e industrializada, ou por grupos que capitalizem ao máximo a exploração de recursos naturais. É certo que a corrupção, a burocracia, a fragilidade da economia, a produtividade débil são realidades inquestionáveis, são elementos fundamentais para a compreensão da realidade africana, mas não são “causas”. São “consequências”.

Por sua vez o conjunto constituído pelos antiliberais, os “socialistas”, “progressistas”, “a via não capitalista de desenvolvimento”, o “nacionalismo económico”, acentuam as realidades – não menos importantes – formadas pela deterioração dos preços das matérias-primas, dos quais depende o financiamento (em virtude da logica redutora do nacionalismo económico) das políticas de desenvolvimento. Invocam – de forma ritual – as incontáveis ingerências políticas e militares do Ocidente nos processos de desenvolvimento em África. Acontece que todos os seus argumentos não se apresentam vinculados á logica das dinâmicas internas. Escamoteiam as contradições no plano social e politico interno e optam pela via fácil da acusação gratuita. O “exterior”, o “imperialismo” é a causa de todos os males e tudo termina numa insustentável teoria da conspiração.

A estes dois conjuntos de diagnósticos e de análises, de “visões oficiais”, contrapõe-se uma Nova Cultura Politica, que reúne as objecções do mercado á burocracia e que integra as preocupações do nacionalismo independente e progressista, acrescentando as responsabilidades da colonização e as formas específicas que no contexto global as particularidades assumiram (ou seja o cruzamento das dinâmicas internas com as dinâmicas externas).

Continuar a libertação nacional para integrar o continente africano. Este é o grande objectivo. Mobilizemos, então!

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