terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Angola. A FESTA DO POVO

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Pereira Dinis

Quando a Nova Marginal de Luanda, na Praia do Bispo, é toda decorada para receber o grande momento do Carnaval, o desfile da classe A, com a participação de 14 grupos de diferentes municípios, distritos e bairros da capital, é hora para recordar tudo quanto o Entrudo já permitiu ao povo angolano mostrar ao mundo.

Mentes mais frescas recordam que a festa tem um passado longo demais para ser resumida num simples texto de jornal. Aproveitamos o ambiente que hoje atinge o clímax na capital com o desfile principal para recordar que o União Operária Kabocomeu foi o primeiro grupo a vencer o Carnaval no pós-independência.

A festa foi retomada em 1978. Agostinho Neto apelou ao povo para retornar às tradições e propôs um motivo para os festejos: a expulsão do exército invasor sul-africano a 27 de Março do ano anterior. Surgiu assim o Carnaval da Vitória. O emblemático grupo do Sambizanga estendeu a fita métrica para mostrar como os angolanos eram enganados pelas autoridades coloniais. Diz-se que se empoleirou na política para vencer. A verdade é que os números da ferramenta se reproduziram nas contas finais e o grupo ganhou o primeiro desfile de Luanda. Tudo aconteceu no largo do Kinaxixi.

Com o passar dos tempos, mudou-se os cenários. O Carnaval desceu para a avenida 4 de Fevereiro, a antiga Marginal de Luanda, e derivou para a Praia do Bispo, onde 14 grupos, entre veteranos e estreantes se apresentam hoje no desfile central do Carnaval de 2017. Todos pretendem contagiar jurados e público para, no fim, poderem cantar vitória.


Ontem, último dia de “reflexão” dos grupos, integrantes das falanges de apoio, reunidos junto às sedes dos grupos, mostravam-se crentes na vitória. No Sambizanga, os amigos e simpatizantes dos grupos Kabocomeu, Kiela e Kazukuta afirmavam que a melhor dança, música e coreografia saíam de um dos grupos daquele distrito, mais conhecido por albergar a sede do clube Progresso Associação do Sambizanga.

Domingos Chipula, tocador de bumbo (tambor), que já se apresentou no Kabocomeu, Kiela e Kazukuta, aproveita o espírito de Carnaval para lançar algumas piadas aos grupos rivais. Afirma que tanto o município de Viana, sede do União Njinga, vencedor da edição passada, quanto a Samba, terra do União 10 de Dezembro, terceiro classificado, não têm tradicão de Carnaval. Esses grupos “ganharam por acaso”, brinca.

Rivalidade da Ilha

Adeptos dos grupos do Sambizanga reconhecem que “em Luanda, quem põe o Sambizanga em sentido é a Ilha, o União Mundo, mas quando os muxiluanda vêem o Kabocomeu e o Kazukuta ‘deslizar’ também se põem a prumo.  Alguns mais velhos recordaram antigas rixas entre os grupos, as quais remontam a tempos anteriores à independência nacional. Históricos do Kabocomeu recordam, por exemplo, que os integrantes do União Kiela zombavam pela sua conduta social. E lembram a resposta de então: “somos bêbados, mas vestimos melhor.” E a piada deriva em acusações de inveja. O agrupamento musical Os Kiezos deu nova roupagem ao tema e tornaram-no eterno.

Na Ilha do Cabo, as tradições do Carnaval sempre foram além do União Mundo, o emblemático grupo fundado em 1968, que cultiva o estilo semba e pretende levar mais de 1.500 pessoas, para destacarem a importância da diversificação da economia no país.

Os ensaios do União Mundo, iniciados em Novembro, serviram para contagiar boa parte da população local, em particular as crianças e adolescentes. Embora façam de tudo para imitar as vestes do grupo, que privilegiam o amarelo, vermelho e branco, lembrando os pescadores e as mamãs da Ilha, os petizes contentam-se com o que conseguem encontrar entre os trapos lá de casa e saem a percorrer os becos da zona com a sua batucada.

Hoje, na Nova Marginal, os foliões vão voltar a ter a oportunidade de apreciar exímios mestres do musengo (apito), pungue (corno), batuque (tambor), ngoma, da dikanza (reco-reco) e do dibalelo (caixa), que dão às letras a dimensão sublime do Carnaval.

E depois do desfile de Carnaval, vem a quarta-feira das mabangas. A festa é mais resumida, algo intimista. Os grupos costumam juntar os rendimentos angariados nos desfiles de rua para realizar uma festa para os integrantes. O recurso aos bivalves, antigamente recolhidos nas zonas baixas da Baía de Luanda, é mais uma demonstração da influência do mar e da pesca, em particular, no Carnaval de Luanda. Sem tempo para irem à faena, deixa de haver peixe para o mufete. Daí, comer-se mabangas.

Vencedores e homenageados
                                                                                            
A primeira edição do Carnaval pós-independência, em 1978, foi ganha pelo grupo União Operária Kabocomeu, que dança Kazukuta. O União Angola Independente venceu três edições seguidas: 1994, 1995 e 1996. O União Esperança venceu duas (2014 e 15), o que trouxe novo dinamismo ao Entrudo no Rangel. O grupo União Njinga Mbande, Viana, venceu na classe de adultos e infantis na ­edição passada. O União Mundo da Ilha tem dez títulos, conquistados de forma intercalada.      
 
Os desfiles de Carnaval em Luanda começaram no dia 25, com a classe infantil. Domingo foi a vez da classe B, em que participam 15 grupos, como o União Kwanza, União Twafundumuka, União Angola Independente e os estreantes Unidos do Zango e União Imbondeiro do Cazenga. Hoje, percorrem os três quilómetros da Nova Marginal os grupos da classe A. 

O primeiro grupo a ser homenageado foi o União Kabocomeu, em 2003, seguiu-se o União Feijoeiros do Ngola Kimbanda (2004), União Dizanda do Icolo e Bengo (2006), União Kiela do Sambizanga e União Kwanza (2007), União Mundo da Ilha (2009), União 10 de Dezembro (2011), União Angola Independente (2012), União Jovens do Mukuaxi (2013), União Povo da Samba (2014) e União Kazukuta do Sambizanga (2016).

Este ano, os homenageados são o grupo União Amazonas do Prenda e o investigador Roldão Ferreira. A homenagem realiza-se no sábado, na Liga Africana. O primeiro grupo a desfilar é o União Angola Independente. Têm direito a prémios os cinco primeiros classificados.

Carnaval é coisa séria

Osvaldo Gonçalves
Passa-nos longe a ideia de que o Carnaval é uma brincadeira. Talvez fosse nos primórdios, mas há muito deixou de o ser. Em Angola, por mais que se tente caricaturar, o Carnaval é mesmo tradição. Não foi algo dado, mas uma virtude conquistada. Cabem-lhe memórias, há honrarias a rebentar-lhe pelas costuras. Esta História espraia-se e vem até cada angolano na forma de bafo de onda, a maresia resultante de um bater insistente na rocha que nos foi imposta por um estar que hoje se teima imberbe, quando é milenar o nosso ser.

O Carnaval peitou o colono. Vulgarizou-o. O colono estrebuchou. Proibiu o desfile. Mas o Carnaval continuou. Muitos puseram-lhe milongo e a gente aceitou e deu projecção a esse lado místico, ainda que a veia nos dissesse que mais do que o feitiço escrito, o Carnaval é algo intríseco, está no sangue.

Vemos hoje, tiradas, supostamente humorísticas, sobre etapas do nosso Carnaval. Procura-se até vulgarizar a festa retomada, em 1978, quando Neto, o poeta, o reinventou na forma de festa da Vitória. Esquecem-se os arautos de quantos tombaram pela Pátria nesse então. Nossos filhos, nossos irmãos, nossos camaradas, nossos.

E Neto deu-lhes festa na hora da largada. Neto fez por que o país honrasse a sua memória. O poeta buscou no batuque cada som e cada tom. Deu vida à caricatura estanque e fez jorrar fogo das bocas caladas até então. E o povo dançou.

Mas o povo, o povo angolano, não dança ao som de um batuque qualquer. Usa o ventre se for preciso, palmeia e bate os pés no chão para agitar os chocalhos que transportam o porvir.  Uma biblioteca imensa faz-se transumar em cada movimento. O dançarino de Carnaval torna-se bailarino e deixa projectar a imagem da sua alma num futuro cheio de quês, sem que algum dia tenha procurado um porque, pois tinha a razão dentro de si.

Ouve-se hoje, em cada esquina, a verborreia do resgate de valores. Quais valores? O que valemos, afinal?  O que podemos querer valer diante de uma mostra do semba de raiz, de dizanda, kabetula ou kabecinha, ritmos que se querem esquecer na sala, mas ganham alma a cada aroma solto pela nossa panela a cada sábado em família?

E os grupos fazem isso. Mais do que resgatar, seguram a tradição. E oferecem-na de mão beijada ao futuro. Mudam-se as gerações, mas fica a alma. Os miúdos aprendem que Carnaval é coisa séria!...

Jornal de Angola – Foto:Mota Ambrósio / Edições Novembro

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