sábado, 25 de fevereiro de 2017

Cabo Verde. DAR O NOME AOS BOIS

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António Ludgero Correia – Expresso das Ilhas, opinião

“O problema não é que eles não enxergam uma solução, mas que eles não enxergam o problema.” - Charles F. Kettering

Desde que me contaram esta, passei a ter muito cuidado ao dar o nome aos bois. Não confundir boi (quadrúpede com chifres e cascos) com boy (espécime bípede com direitos e obrigações). Mas eis a estória.

Certa manhã, um cidadão entrou no consultório de um cirurgião requerendo os serviços deste para uma cirurgia que precisava fazer.

- Quero fazer uma castração, doutor.

O médico esforçou-se até ao limite para o convencer a não tomar uma tal decisão de ânimo leve. No mínimo, que deveria envolver a ‘patroa’ no processo. Ficou combinado que deveria voltar ao médico uma semana mais tarde, acompanhado da esposa.

Findo o prazo, lá volta o cidadão ao consultório do médico, desta feita acompanhado pela esposa. Esta, inquirida pelo clínico, confirma a decisão do marido:

- Ele só faz o que quer. Quer ser castrado? Que seja feita a vontade dele.

Sem mais argumentos, o cirurgião agenda a cirurgia para a Sexta seguinte.

Porém, no dia a seguir à cirurgia, se desespera ao ver os outros senhores - que tinham também sido submetidos a intervenção cirúrgica, no mesmo dia e pelo mesmo cirurgião – jogando às cartas, alegres e fagueiros, enquanto ele estava sendo trespassado por dores terríveis. Receando que alguma coisa tivesse corrido mal com a operação, pede à enfermeira que chame o clínico. Ao ver o médico se aproximando dele, dispara logo a queixa que tinha entalada no gogó:

- Doutor, algo correu mal com a minha operação. Estou aqui morrendo com dores, enquanto os rapazes estão aí se divertindo.

- Pudera, meu caro – responde o médico. – O senhor fez uma castração, enquanto eles fizeram uma simples circuncisão.

- Mas era isso que eu queria fazer também, doutor – exclama o nosso amigo todo excitado.
- Tarde piaste, rapaz.

Veio-me esta estória à mente ao escutar o escarcéu que se está fazendo à volta do desejo do Presidente do MpD de ‘despartidarizar’ a Administração Pública.

O cidadão José Ulisses Correia e Silva quer a despartidarização da Administração Pública ou pretende que o ingresso, o acesso e as escolhas para os diferentes cargos e níveis da Administração Pública sejam feitos com base no mérito?

Despartidarizar, na versão do Presidente do MpD, quer dizer que quem chega aos altos cargos da Administração Pública, directa e indirecta, deixa a responsabilidade (o cargo) que detinha no partido. Mas isso não é despartidarizar. Até porque o cidadão é escolhido em função da sua história, do seu passado, no partido. Deixar o cargo partidário adiantaria o quê?

Por outro lado, acredito que qualquer cidadão vertical, consciente dos seus deveres e ciente das suas obrigações, daria o melhor de si para cumprir sua carta de missão, para respeitar seu estatuto de agente público. Político ou civil, não importa.

Mas, também, esperar que o Governo que entra deixe tudo como está para ver como fica, é um contrasenso.

Se os cargos-chave estavam todos ocupados com gente do partido que sustinha o Governo cessante, deixá-los todos nos cargos que detinham poderá ser considerado uma decisão no sentido da despartidarização? Despartidarização significa manter nos cargos activistas e dirigentes políticos do partido do Governo que se foi?

Mas, então, a solução seria fazer uma ‘exanguinotransfusão’ de quadros, que é como quem diz, substituir todos os agentes nomeados na vigência do Governo anterior por outros dos quadros de dirigentes, militantes, simpatizantes e amigos do novo partido do Governo? Estou em crer que não.

Como diria um amigo meu, que já se foi, nem oito nem oitenta, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Há que encontrar um ponto de equilíbrio.

Se se deseja ter uma Administração Pública para o desenvolvimento, uma máquina afinada para enfrentar e levar de vencida os constrangimentos que nos afligem, imprescindível se torna recheá-la de bons agentes, de quadros com alta maturidade profissional - gente com alta motivação, alta competência técnica e elevado sentido de dever e espírito de responsabilidade.

Daqui resulta que, ou buscamos identificar tais perfis adentro da Nação cabo-verdiana (nas ilhas e na diáspora) olhando apenas para as suas competências, potencial e disponibilidade para se engajarem no processo em curso, ou vamos importá-los (do estrangeiro, lá de onde vem quase tudo o que consumimos). Que o processo de desenvolvimento não pode parar, de cada vez que haja uma alternância no poder.

E a saída só pode ser uma: UMA OPÇÃO INTELIGENTE PELO RECRUTAMENTO E PELA SELECÇÃO, COM BASE NO MÉRITO (aqui, sim, sem djobi pa ladu). Os melhores quadros do país - aqueles com melhores pergaminhos e curriculum vitae e maior maturidade profissional (não importando suas simpatias políticas, religiosas ou outras, legítimas).

Alguém já chamou isso de MERITOCRACIA. Não gosto lá muito do termo, mas soa melhor que DESPARTIDARIZAÇÃO. Até porque falar de despartidarização em um ambiente bipolarizado e em que nos pólos estão partidos de matriz tão distanciada, uma da outra, é sofisma. Da braba.

Se quisermos dar um nome aos bois, escolhamos um que se venda, que faça os bois se mexerem. Que com esta… nem os boys alinham.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 794 de 15 de Fevereiro de 2017

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