É
a nova "menina" da música de Cabo Verde. Élida Almeida conquista os
palcos internacionais com sucesso, dando outra luz aos ritmos cabo-verdianos
com raízes profundamente africanas.
Foi
com um sorriso simpático que a nova revelação de Cabo Verde deu uma entrevista
à DW África em Wuerzburg, no Afrika Festival, o maior evento de música africana
da Alemanha. Com humildade e simplicidade falou-nos de si, da sua música e
da sua Santiago.
DW
África: A Élida está a internacionalizar em ritmos menos conhecidos de
Cabo Verde, como o batuco, tabanka e funaná, se compararmos com a morna e a
coladera. Porque apostou nesses estilos?
Élida
Almeida (EA): Não apostei, é algo que está na minha genética, no meu
sangue. Sou da Ilha de Santiago, Cabo Verde é composto por dez ilhas, é como se
cada ilha tivesse a sua cultura, o seu estilo de música. Na Ilha de Santiago o
batuco, funaná e tabanka são estilos mais consumidos e são o que
identifica a Ilha de Santiago, então isto está no sangue.
DW
África: Que lugar ocupa a música que possui mais raízes africanas no seu
arquipélago?
EA: Santiago.
A iIha de Santiago é o lugar onde se sente uma forte presença de África, da
influência e de tudo o que foi o período da escravatura. Também foi a ilha onde
os escravos pararam por muito tempo e eu particularmente sou de montanhas onde
os escravos se foram esconder no meio de toda aquela confusão. Então, a Ilha de
Santiago é onde se sente a maior presença da música africana.
DW
África: Referia-me ao panorama musical...
EA: Tem
o seu lugar. Há pessoas que gostam da morna, há pessoas que gostam de
ouvir uma coladera e há outras que gostam de algo mais festivo, gostam de
dançar batuco, tabanka e funaná. Então, se formos a ver é muito relativo. Mas
como eu disse, faz parte da música tradicional de Cabo Verde. É claro que a
morna é o estilo que identifica melhor Cabo Verde se falarmos do país, a morna
e a Cesária [Évora], mas os outros ritmos estão no "ranking" da
música tradicional de Cabo Verde.
DW
África: Vem de uma região carenciada de Cabo Verde, e como dizem que todo
cabo-verdiano já nasce a tocar um instrumento ou a cantar, deve haver por lá
muito talento. As oportunidades e visibilidade chegam aos novos talentos de
Santiago?
EA: Chegar
não chegam, temos de correr atrás e temos de saber o que queremos. Eu, por
exemplo, não nasci no meio musical, na minha família ninguém toca e ninguém
canta, então tenho desvantagens em relação aos outros cabo-verdianos. Eu
simplesmente comecei a cantar, sem mais nem porque. Mas se quiseres [ser bem
sucedido] tens de correr atrás, tens de persistir até que um dia, quem sabe, as
coisas hão-de acontecer.
DW
África: O seu primeiro álbum é o reflexo, digamos, da sua conturbada infância?
A Élida é jovem, tem 24 anos, tem um filho, cuidou dos seus irmãos, portanto,
muita responsabilidade muito cedo...
EA: É
um retrato, mas eu não chamaria de uma conturbada infância.Como todo o
cabo-verdiano, temos uma vida difícil, Cabo Verde não tem nada. Como todo os
cabo-verdianos temos de trabalhar mais se quisermos nos diferenciar dos outros.
É um retrato da minha vida, costumo dizer que é um disco autobiográfico, que as
pessoas ao ouvirem já sabem que é a Élida Almeida, porque fala da minha vida e
de tudo ao meu redor. Tenho músicas que falam dos conselhos que a minha mãe me
dava para não me meter com homem casado, tem outra que conta como
anunciei a minha mãe que estava grávida, outra que fala do primeiro amor do meu
irmão e de como tive de lidar com a situação, visto que eu é que tomava conta
dele. Então este trabalho é um resumo da minha vida.
DW
África: Também sabemos que a Élida já fez rádio. Foi lá parar por causa da
música?
EA: Sim,
acho que uma coisa levou a outra. Foi na altura em que estava grávida, tive de
parar com os estudos. Sempre gostei de rádio, fui criada a ouvir rádio. Onde
nasci e cresci até hoje não há eletricidade, então a nossa única diversão era
ouvir rádio a pilhas. Por isso sempre me identifiquei muito com a rádio e achei
uma oportunidade bem fixe e aprendi muita coisa, estilos diferentes de música.
E isso serviu para me aproximar ainda mais da música.
DW
África: É a "menina" do momento no que se refere a música de Cabo
Verde. Como está a lidar com este novo mundo?
EA: Digo
que esta nova geração está muito bem representada, a cada dia que passa oiço
novas vozes, novos estilos e faço novas descobertas em Cabo Verde. Lido muito
bem com esta situação de passar de uma dia para o outro de uma desconhecida
para [conhecida]. Onde quer que eu vá as pessoas param-me na rua para tirar
fotos, dar conselhos. Tenho muitos fans por aí, as pessoas dizem
"olha, acho que devias fazer isto e aquilo", "acho que não
devias fazer isso...", e eu oiço tudo com a maior calma porque as pessoas
acabam por fazer parte da minha vida e acabam por ter uma certa influência, o
que pensam acabam por ter uma certa importância. Então, eu gosto muito de
conversar com as pessoas e de tirar fotos. Quando passo muito tempo fora de
Cabo Verde, e tenho a noção de que ainda ninguém me conhece fora de Cabo Verde,
estou ainda a procura de um espaço, sinto falta disso. Uma pessoa acaba por se
acostumar.
DW
África: E como é conciliar a vida artística com a sua vida familiar?
EA: Eu
preciso sair, viajar para conseguir o que quero, levar a música de Cabo Verde o
mais longe possível. É claro que sinto muita falta da minha família, do meu
filho, da minha casa, das minhas coisas, mas tem de ser. Então, é melhor
admitir logo a primeira que tem de ser, que tem de haver essa lacuna, essa
ausência e essa falta e tentar compensar. Tento sempre compensar nos momentos
em que estou em casa com o meu filho, irmãos, mãe e tudo o resto.
DW
África: A Élida é jovem, mas já bem sucedida na sua carreira. Isso é um peso
para tão pouca idade, ou a sua experiência de vida tornou a sua pouca idade em
nada?
EA: As
pessoas costumam dizer que a minha alma é mais velha do que o meu corpo. A vida
encarregou-se de me preparar muito bem para a vida! Então, acho que sou
precocemente madura, mas não é fácil e tenho essa noção de que tudo isto é mais
responsabilidade. Então, isso desafia-me mais, faz com que trabalhe mais, todos
os dias aprendo a falar línguas para me comunicar com a pessoas, o que não
sabia antes, a aprender a estar no palco, todos os dias a pesquisar, a aprender
e aprender. Isso é um certo tipo de pressão que traz coisas boas. Esforço-me
sempre para corresponder as expetativas das pessoas.
DW
África: Está a preparar o seu próximo trabalho. Quais são as novidades?
EA: Continuo
na mesma linha, continuo a ter o meu povo como minha inspiração e tudo o que
acontece ao meu redor. E este trabalho é um resumo de tudo o que tem sido
essa minha descoberta pelo mundo nesses dois anos. Viajei muito, muito,
muito, pelos quatro cantos do mundo e isso vem-se refletindo fortemente nas
minhas composições. Então, há ainda um pouco mais de fusões no meu trabalho,
entre a música de Cabo Verde, pegando fortemente na tradição, mas com
influências de coisas de fora.
DW
África: Em termos de intercâmbio ao nível interno, qual é a experiência da
Élida?
EA: Relaciono-me
muito bem com todos os artistas de Cabo Verde. Gosto mesmo de aprender com os
mais velhos, de ensinar alguma coisa aos mais novos, mesmo sendo criança,
porque eu também sou uma bebé... Mas já tenho um dueto com a Lura, numa
trabalho dela, num tema que é da minha autoria. Também tenho um trabalho com a
Ceuzany e dentro de poucos dias vou lançar um dueto com um artista muito
popular de Cabo Verde. Tem sido uma boa relação e tenho aproveitado o máximo
que posso a aprender e também a dar alguma coisa.
DW
África: E em relação aos PALOP, pensa nalguma parceria com alguns músicos?
EA: Eu
oiço muita música dos PALOP. Gosto muito dos Tabanka Djaz, da Eneida Marta, da
Guiné-Bissau, do Matias Damásio, de Angola, dos Calema de São tomé. Faço
questão de consumir tudo o que é dos PALOP, porque sei que me ajuda e têm
muita qualidade. E se um dia surgir uma parceria vai ser um privilégio
porque são pessoas que admiro muito.
Nádia
Issufo | Deutsche Welle
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