quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Portugal | Uma Defesa sem defesa

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A propósito do caso de Tancos (e não só), não é só o poder político mas também a estrutura superior do Exército que não ficam bem na fotografia.

AbrilAbril | editorial

As audições de ontem na Assembleia da República sobre o caso de Tancos, em particular a do general chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), revelam bem a trapalhada em que se envolveram responsáveis políticos e militares quando, deliberadamente, se expuseram mediaticamente para mostrar serviço, em vez de assumirem responsabilidades, serem determinados na resistência a pressões diversas e na defesa das instituições e do Estado.

Cada vez mais se percebe a inconveniência da conferência de imprensa do CEME, anunciando aquilo que, segundo explicou ontem, afinal não queria anunciar porque o Exército não tomou posse formal do material roubado. Só não se entende porque sabe então o Exército que apareceu «uma caixa» a mais…

Outra questão que se levanta tem a ver com a própria capacidade de gestão e de direcção do Exército ao longo dos últimos anos. Quando o CEME afirmou ontem que já se sabia que Tancos não reunia condições, há questões que merecem resposta: o Exército só deu conta disso depois do desaparecimento do material? Se estavam previstos investimentos no reforço da segurança de Tancos até ao desaparecimento do material, isso significa que se não tivesse acontecido o que aconteceu o erário público iria suportar gastos nuns paióis que, afinal, não reuniam as condições necessárias? E não há responsáveis?

O CDS-PP, por exemplo, vem agora pedir a demissão do CEME esquecendo que também tem grandes responsabilidades, a par do seu anterior parceiro de governação, na actual situação.

A Defesa e, em particular, a instituição militar andam demasiado na «boca do mundo» mediático. Lembramos: a demissão abrupta do vice-almirante Rocha Carrilho, que interpôs uma providência cautelar e posteriormente voltou a assumir reponsabilidades inerentes ao seu posto; a polémica pública que envolveu a atabalhoada nomeação para funções no Estado-Maior General das Forças Armadas, na perspectiva de uma promoção a tenente-general que não chegou a acontecer, do general recém-nomeado assessor militar do primeiro-ministro; a polémica que hoje envolve promoções a oficial-general na Marinha e que já chegou aos tribunais. Isto, sem falar na oportunidade de algumas das condecorações impostas na passada segunda-feira pelo Presidente da República e Comandante Supremo das Forças. Falamos da condecoração de um general cuja presidência do Instituto de Acção Social das Forças Armadas (IASFA) tem suscitado polémica ou da condecoração do vice-CEME, no momento em que o CEME está debaixo de fogo, nomeadamente devido ao caso de Tancos.

Por fim, voltando às audições de ontem, dá que pensar no emaranhado daquilo que é o Sistema de Segurança Interna, e não só, quando a sua secretária-geral ou o então secretário-geral do Sistema de Informações da República souberam do desaparecimento das armas em Tancos pela comunicação social. Palavras para quê!

Foto: Armando Babani / EPA
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