quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Há 20 anos na República Democrática do Congo – Lutar contra a barbárie III


Martinho Júnior | Luanda 

1- Nas últimas semanas foi desencadeada nos territórios diamantíferos angolanos, abrangendo sete províncias, a Operação Transparência, incidindo sobre fenómenos confluentes (imigração ilegal, tráfico ilegal e clandestino de diamantes, assim como anarquia generalizada no sector dos diamantes aluviais)) que produziu múltiplos resultados:

- Foram neutralizados muitos dispositivos de exploração ilegal e clandestina de diamantes aluviais, desde equipamentos a estruturas, até aos “comptoirs” dos “bosses”, os centros onde se fazia a compra dos diamantes do tráfico;

- Foram apreendidas elevadas quantidades de moeda forte, particularmente Dólares dos Estados Unidos e Euros, para além de avultadas quantias de moeda nacional Kwanza, assim como veículos que serviam de moeda de troca para o tráfico;

- Foram desactivados em consequência disso, mais de 260.000 estrangeiros ilegais, na esmagadora maioria dos casos provenientes da República Democrática do Congo, que ficando sem o lugar onde vendiam os diamantes, foram regressando ao seu país;

- Foram apreendidos mais de 26.000 diamantes aluviais;

- Foram neutralizados pontos de apoio do garimpo e do comércio ilegal e clandestino de diamantes, assim como os respectivos circuitos logísticos dentro do território nacional, aparentemente sem se tocar nas suas periferias dentro do território congolês circunvizinho;

- Terão sido neutralizados outros dispositivos desestabilizadores potenciais de outra índole, que estavam intimamente associados às operações ilegais e clandestinas de exploração e tráfico de diamantes aluviais, incluindo interesses de entidades angolanas parceiras, alguns deles utilizando a patente de generais, titulares ilegais de terrenos e de meios;

- Foram tomadas iniciativas que visam moralizar e mobilizar os efectivos militares, policiais e administrativos angolanos implicados no conjunto das medidas aplicadas, que incluíram até (e isso é de sublinhar) alguns oficiais que antes foram alguns dos protagonistas no combate ao tráfico de diamantes no tempo do 105/83, que sobreviveram no activo à artificiosa crise que em 1986 o poder entendeu desencadear contra a sua própria Segurança do Estado…

- Falta analisar, entre outros fenómenos e de forma apurada, as consequências e implicações sobre as comunidades autóctones sujeitas aos impactos dessa anarquia e sobre o ambiente e os cursos de água, particularmente nas bacias afluentes do Cuango e do Cassai.

As medidas tomadas no âmbito da Operação Transparência são um sinal claro que o estado angolano está finalmente na mesma disposição que animou há 35 anos, em 1983, os oficiais da Segurança do Estado no sentido de, ao neutralizar os traficantes de diamantes e moeda de então, inibir potencialidades nocivas de actuação de redes inteligentes que subvertiam os interesses do próprio estado e do povo angolano.

Ao sublinhar esse facto, muito embora com distintas motivações e objectivos, saúdo a iniciativa da Operação Transparência e os termos em que ela está a ser levada a cabo, salvaguardando a dignidade e os direitos humanos dos garimpeiros e semeando organização em relação ao futuro.


2- Em 1986, a interpretação que o poder do estado fez da actuação dos camaradas oficiais que mais combateram o tráfico ilícito de diamantes (processo 105/83) levando-os à prisão e à condenação por via do processo 76/86, subvertendo a justiça e as suas profundas convicções patrióticas, ao fragilizar o aparelho de Segurança, ao prendê-los, julgá-los e condená-los e comprar silêncios de outros quantos, ao acabar com o Tribunal Popular Revolucionário e instituir o Tribunal que para o efeito os haveria de julgar e condenar, abriu caminho à desestabilização e ao caudal de ingerências primeiro por via do choque neoliberal (na imediata sequência do Acordo de Bicesse a 31 de Maio de 1991), depois por via da terapia neoliberal praticamente até aos nossos dias, algo que a luta contra a corrupão agora inaugurada com bastante vigor, tende a finalmente pôr cobro!

Recorde-se que tem sido meu compreensivelmente fundamentado e experiente argumento (embora quantas vezes mal compreendido e pior interpretado) que as medidas que recaíram drástica e injustamente sobre os oficiais que mais tinham combatido o tráfico de diamantes de então (entre eles eu próprio), afectando todo o aparelho da Segurança do Estado, entre outros fenómenos contribuíram para permitir a Savimbi, em proveito da sua continuada subversão e sem obstáculos de maior, organizar a bárbara “guerra dos diamantes de sangue” entre 1992 e 2002, enquanto choque neoliberal em Angola, extensivo em função de suas alianças a toda a região.

Nesse aspecto ele conseguiu com Mobutu, encontrar a solução para expedientes comuns em relação à exploração e comércio de diamantes aluviais dentro de território angolano, ao mesmo tempo que a rectaguarda militar e de inteligência era transferida, com o fim da ocupação do “apartheid” na Namíbia, para dentro do então Zaíre (hoje RDC), a fim de levar a cabo a “guerra dos diamantes de sangue” que protagonizaram.

O apoio que prestei, apesar dos traumas resultantes dos antecedentes, com os camaradas José Herculano Pires e Alberto José Barros Antunes Baptista, ambos já falecidos, ao Estado-Maior Geral das FAA, entre Março de 1998 e Março de 2000, é a deliberadamente silenciada prova do meu empenho no sentido de, apesar das avassaladoras injustiças desencadeadas através do processo 76/86 que em Março de 1986 me levou à prisão e a outros camaradas, não hesitar em continuar patrioticamente a lutar, quaisquer que fossem os sacrifícios, com as mais profundas convicções do movimento de libertação em África e pelos superiores interesses do povo angolano e do estado que deveria ser o fiel depositário deles.

Notícias há hoje, no momento em que a luta contra a corrupção ganha proporções, que para silenciarem esse contributo e esforço de patriotas, alguns receberam chorudas “compensações”, também na vã tentativa de se apagarem pistas e esconder a verdade e a dignidade de que o próprio estado no seu exercício tem direito…

A forma como de há vinte e cinco anos a esta parte, foi tratada uma parte da Comunidade da Segurança deste país, é um indicador claro que essas notícias não são de desprezar e por isso levei muito a sério a surda guerra psicológica que os interesses mercenários produtores da corrupão moveram contra essa Comunidade, até à ascensão do camarada Presidente João Lourenço!...

Desfeita por seu turno a força de Savimbi até ao seu fim em 2002, com o período que lhe deu sequência em módulo de terapia neoliberal, a corrupção, a ilegalidade e a clandestinidade, apesar da aderência de Angola ao Processo Kimberley, tomou o lugar do espectro da guerra.


3- A Operação Transparência, pelas suas implicações humanas, foi desencadeada como um travão, em tempo oportuno tendo em conta a relativa instabilidade que tem assolado a República Democrática do Congo, não só em função dum adiado pleito eleitoral de consequências pouco previsíveis (que finalmente está apontado para a ponta final deste ano), como também dos factores de desestabilização no Cassai e muitos indícios de atracção e proliferação, a partir da“plataforma” congolesa, de redes islamizadas aparentemente filtradas por radicalismos que procuram ganhar influência a sul do Equador africano, particularmente para dentro de Angola, atraídas e motivadas pela exploração e comércio desenfreado, ilegal e clandestino de diamantes nas “minas de Salomão”…

Apesar dessa oportunidade, a Operação Transparência manteve características defensivas no âmbito dum paliativo garantido com relativamente curta duração, já que os tentáculos externos que movimentaram tanta ilegalidade para dentro de Angola, antes, durante e depois de Savimbi, têm larga experiência em suas recuperações operativas e fórmulas de rapidamente “refazer as fileiras”…

Julgo que isso vai acontecer, pondo à prova a reorganização das fileiras angolanas, que passarão pela reorganização dos processos de exploração artesanal de diamantes aluviais, nas áreas assim determinadas pelo estado, bem como pela reorganização dos circuitos legais de compra e comércio de diamantes.

O estado angolano deveria nesse sentido definir oficial, clara e publicamente, arcos mineiros onde todo o expediente de exploração e comércio de diamantes aluviais se define (sob o ponto de vista físico-geográfico e humano).

Julgo que esse é também um caminho para melhor organizar a sociedade e também um caminho para melhor definir as percentagens que passem a beneficiar o estado e com isso os fundos de reserva do Banco de Angola, o banco central, à semelhança do que a Venezuela tem feito com crescente êxito desde o princípio do século XXI com o Arco Mineiro do Orinoco.

As ofensivas cíclicas de luta contra a exploração e tráfico ilegal e clandestino de diamantes aluviais até hoje, de geração em geração, não impedem a garantida sobrevivência e a muito satisfatória segurança de acoito no caos de geometria varável que caracteriza a RDC, pois o subdesenvolvimento crónico agravado, com tão extenso quão caótico leito humano do outro lado da fronteira, é um caldo que nutre as iniciativas desse tipo de redes de aventureiros, fazendo-as até renascer das cinzas…

De facto e depois do início dos impactos capitalistas neoliberais, a Angola socorre apenas a tarimba histórica dum MPLA que por causa da poderosa esteira de movimento de libertação em África tem suportado, ainda que tão vulnerabilizado e fragilizado, um estado angolano devassado por agentes da artificiosa crise das portas escancaradas a que o país tem sido sujeito… e esta devassa no sector dos diamante é insofismável prova disso…

À República Democrática do Congo, na ausência dum suporte sócio-político da envergadura do MPLA, as portas escancaradas nas suas ingerências e manipulações, atingem o poder sem remissão, pelo que esse poder, sem suportes sócio-políticos próprios mobilizados ao longo dum legítimo processo histórico de libertação, nem reformas de âmbito capitalista consegue realizar, muito menos uma revolução de amplitude cultural capaz de abrir caminho a uma longa luta contra o subdesenvolvimento!

Assim sendo, Angola deve organizar suas capacidades no sector dos diamantes aluviais, a contar com o espectro humano proveniente do Congo, de forma a influir no carácter do próprio estado congolês e do seu poder, como um exemplo de paz construtiva para toda a região, até aos Grandes Lagos!


4- Em 1998 e para que houvesse a instalação dum processo inteligente na fronteira comum de mais de 2000 quilómetros, no âmbito do apoio ao Estado-Maior Geral das FAA propus a definição duma linha de consulados, a funcionar em regime de reciprocidade em torno do território angolano, todavia desconheço se algo foi feito nesse sentido e se o foi em que termos e quais os resultados.

Um acordo dessa natureza implicaria que os dois poderes de estado trabalhassem em módulo de busca de consensos, antes de mais em conjunto na tão necessária filtragem dos expedientes de fronteira e isso iria contribuir para que em Kinshasa e nas capitais provinciais congolesas, pragmática e paulatinamente fosse possível alterar o carácter do próprio poder.

É evidente que consulados desse tipo debruçar-se-iam sobretudo sobre as questões migratórias e de controlo de fluxos de toda a ordem, sendo seu êxito uma relativa incógnita contudo, conforme tem acontecido com a devassidão das fronteiras, os resultados são reveladores do que de pior se poderia esperar, pelo que a proposta continua a ser oportuna!

Por outro lado há a considerar que nem um inventário das comunidades que têm actividades comuns de ambos os lados da fronteira está suficientemente feito, muito menos filtrado por razões de segurança e bem-estar comuns.

Por outro lado ainda, na presente situação de anarquia e caos, a pressão para o aumento da marginalidade e da criminalidade constitui um potencial para a eclosão de fenómenos mais fortes de que espreitam alguns como o Movimento do Protectorado Lunda-Tchokwe, que pretende de alguma forma dividir o território angolano.

A decisão sobre o desencadear da Operação Transparência, inscrevendo-se na luta contra a corrupção, dada a extensão dos fenómenos nocivos à sociedade e à economia angolana, é de se saudar, todavia um enorme esforço e trabalho responsável está para ser levado a cabo nesse sector e isso vai pôr à prova em vastas áreas do país, o carácter do estado sob liderança do camarada Presidente João Lourenço, assim como pôr à prova os benefícios que o povo angolano e o congolês vão conseguir, quando tantos dos seus interesses têm sido, durante décadas atrás de décadas, tão subversivamente devassados!

Dar a conhecer as actividades de apoio de há 20 anos ao Estado-Maior Geral das FAA, põe fim a um despropositado silêncio que em parte até comprado terá sido, responde a uma longa guerra psicológica que foi movida contra uma parte substancial da Comunidade de Segurança, mas visa sobretudo juntar ânimo em prol do esforço de todos os que agora sob a égide do camarada Presidente e Comandante-em-Chefe, João Lourenço, estão a abrir caminho propondo-se finalmente em revitalizar em termos éticos, em termos morais, em termos cívico-militares, a pátria de Agostinho Neto!

Pelo profundo significado da Operação Transparência, as suas implicações e as espectativas que estão agora criadas, permito-me exaltar o estado angolano a cumprir com responsabilidade, dignidade, rigor e solidariedade humana, com seus deveres e obrigações enquanto fiel depositário dos superiores interesses de todo o povo angolano e também do tão deserdado e maltratado povo congolês!

Honrar o passado e a nossa história, é também honrar a memória e a heroicidade de Patrice Lumumba e a memória e os ensinamentos do Dr. António Agostinho Neto!

Martinho Júnior - Luanda, 17 de Outubro de 2018.


Ilustrações:
As quedas de Tázua, no rio Cuango, um dos mais ricos rios do mundo em diamantes aluviais;
O General Pedro Sebastião, Chefe da Casa Militar da Presidência da República de Angola, determinante na geoestratégia da Operação Transparência, cuja 1ª fase vai estender-se até 2020;
O Ministro da Defesa de Angola, General Salviano Teixeira, que a 25 de Setembro corrente, em Malange, deu início à Operação Transparência;
O Ministro do Interior, Ângelo da Veiga Tavares, que responde pelos órgãos policiais que integram a Operação Transparência;
Garimpeiros de diamantes aluviais em operação num rio angolano.
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A necessidade de definição dum bom plano táctico operativo para a RDC, envolvendo várias componentes

 Agence France Press, 20 ago 1998

I. CRITÉRIOS DE INTERVENÇÃO A ESTABELECER COM AS NOSSAS FROÇAS NA RDC
  
1) As NOSSAS FROÇAS devem desencadear um conjunto de acções que prevêem na RDC, um desenvolvimento sincronizado de meios político-diplomáticos, de INTELIGÊNCIA e CONTRA INTELIGÊNCIA, bem como MILITARES, nas suas várias componentes.

2) Em relação à manobra político-diplomática, deverá privilegiar o quadro da nossa Embaixada em KINSHASA, de forma a estabelecer condições para a instalação de todos os nossos dispositivos mantendo o melhor relacionamento possível com o mais ALTO NÍVEL do Governo de KABILA.

Deve também, em função das várias componentes e ajudas no quadro da SADC, privilegiar o relacionamento com as representações diplomáticas daqueles Países da SADC que estiverem motivados na ajuda ao Governo de KABILA.

Tendo em conta a vastidão das fronteiras comuns com a RDC e a tipologia dos problemas existentes, deve melhor preparar, num regime de reciprocidade nas afectações, a instalação de várias repartições Consulares Angolanas em povoações do CONGO, que possam simultaneamente influenciar na recolha de informação sobre os movimentos da UNITA, das FLEC, dos traficantes de fronteira (em particular de diamantes) e de outros movimentos clandestinos (por exemplo migratórios), como por exemplo: TSHELA, BOMA, MATADI ou INKISI (no BAS CONGO); KIKWIT, POPO KABACA ou KASSANDO LUNDA (no BANDUNDU); TCHIKAPA, KANANGA ou MBUGI MAYI (nos CASSAI); DILOLO, SANDOA, KAMINA ou KOLWEZI (no SHABA).

Esse esforço deverá criar todas as condições para a instalação das nossas possibilidades de INTELIGÊNCIA, com vista a filtrar toda a movimentação nas suas jurisdições, podendo sofrer adaptações e uma melhor definição das ORDENS DE MISSÃO, tendo em conta o meio e os objectivos que preconizamos em termos de INTELIGÊNCIA. 

A implementação dessas medidas deve acompanhar a progressão das NOSSAS FORÇAS, após o início do seu movimento em direcção ao interior de ANGOLA, de acordo com a ORDEM DE MISSÃO militar para cada Unidade e / ou coluna, mas pode não ser totalmente determinante para as ORDENS DE MISSÃO de INTELIGÊNCIA, (há a possibilidade de se usarem outras coberturas para os nossos Oficiais e Agentes).

A nossa Representação Diplomática em BRAZZAVILLE deve estabelecer acordos em várias disciplinas com a de KINSHASA, tendo em conta a reciprocidade de movimentos e apoios, assim como as trocas de INFORMAÇÃO e coordenação das acções das várias componentes da nossa articulação na REGIÃO (não devemos esquecer que BRAZZAVILLE e KINSHASA são, à escala MUNDIAL, as duas Capitais de Países que ficam mais próximo uma da outra).

3) Em relação às componentes de INTELIGÊNCIA, há fundamentalmente duas linhas de interesse:

A que deve trabalhar na direcção do estreitamento das relações com a RDC, envolvendo os aspectos políticos, económicos, sociais e militares, entre outros, (principalmente na Capital e Províncias de maior representatividade).

A que deve trabalhar na direcção de detectar, de acompanhar e / ou de neutralizar as acções clandestinas e operativas de Organizações Armadas (como a UNITA, ou algumas das FLEC), que pode desdobrar-se em vários aspectos – sistemas logísticos de apoio desses agrupamentos, movimentos de pessoal (incluindo militares afectos),“bases”, coordenações e ligações com similares da RDC, traficantes de fronteira afectos (tendo em vista os diamantes principalmente), etc.

Os sistemas de INTELIGÊNCIA poderão ser desenvolvidos, na sua fase de instalação, tirando partido da ORDEM DE MISSÃO MILITAR, mas também poderão ser instalados à posteriori, se atendermos às várias formas de cobertura que se podem preparar, ou aos Acordos de reciprocidade de âmbito Consular.

A vantagem de eles tirarem partido da ORDEM DE MISSÃO MILITAR, está no facto de melhor podermos controlar o movimento de elementos afectos às Organizações Armadas Angolanas, imediatamente após a passagem das nossas colunas e Unidades militares e tendo em conta que elas não poderão permanecer nos lugares, em posição de quadrícula.

4) Em relação às componentes de CONTRA INTELIGÊNCIA, devem ser elaboradas ORDENS DE MISSÃO para todas as Províncias com limites com a RDC, tendo em conta as iniciativas de INTELIGÊNCIA, de forma a realizar, no interior do nosso território, um trabalho similar de detecção, acompanhamento e / ou neutralização, em relação aos elementos afectos às Organizações Armadas, tendo em conta os aspectos de interesse enumerados e o facto das operações militares gerarem movimentos adaptados às situações que se irão desenrolar.

Deve-se ter em conta que os nossos centros de CONTRA INTELIGÊNCIA devem ser agrupados, para dar resposta à clandestinidade típica dos dispositivos das Organizações Armadas Angolanas, assim como o ambiente com que eles contam nos dois lados da fronteira, por exemplo:

O agrupamento dos meios de CI das Províncias de CABINDA – ZAIRE, tendo em vista o empenhamento das Organizações Armadas principalmente a partir do BAS CONGO e a necessária ligação aos nossos meios de INTELIGÊNCIA, se for estabelecida a base legal dos Consulados dentro da RDC.

O agrupamento dos meios de CI das Províncias de MALANGE – LUNDA NORTE – LUNDA SUL, tendo em conta o empenhamento da UNITA nos CASSAI, assim como os dispositivos de INTELIGÊNCIA naquelas zonas da RDC (dando especial relevo à situação corrente das migrações ilegais devido aos tráficos de fronteira, principalmente o de diamantes).

5) Em relação às componentes militares, devem-se estabelecer fundamentalmente dois planos para o curto prazo:

A ORDEM DE MISSÃO inicial (1ª fase), de forma a proteger o Governo de KABILA  e a cidade Capital, KINSHASA e garantir a preparação logística e táctico operativa das ORDENS DE MISSÃO posteriores, (incluindo com reconhecimentos em profundidade para averiguar não só os agrupamentos inimigos, mas melhor definir trajectos, obstáculos, ambiente natural e humano, etc.).

A ORDEM DE MISSÃO de movimento e intervenção (2ª fase), de forma a que, ao mesmo tempo que se dá combate às Unidades rebeldes da FRENTE OESTE, se possa ajudar na instalação das Unidades das FAC nas localidades de quadrícula de destino e dar combate aos sectores de apoio, ou mesmo de agrupamentos, das Organizações Armadas Angolanas, da periferia para o interior do nosso País (principal objectivo para os reconhecimentos em profundidade, quando se der início à 2ª fase).

II. CONSELHOS PARA AS ORDENS DE MISSÃO MILITARES

1) Para as diversas armas e especialidades que irão compor a força tarefa do nosso País, tendo em conta as condicionantes político-diplomáticas estratégicas que relacionamos noutra INFORMAÇÃO, podemos enumerar alguns aspectos que deverão ser implementadas, a fim de melhor podermos realizar as ORDENS DE MISSÃO:

O uso rigoroso de medidas defensivas de camuflagem, de segredo e das contra medidas electrónicas, não só tendo em conta as possibilidades dos efectivos inimigos e dos seus sistemas de detecção TECHINT e HUMINT, mas também dada a presença de meios militares das várias potências (incluindo com a panóplia técnica que as suportam, como sejam os satélites, os meios electrónicos, etc.), que podem possuir aliados e / ou inimigos, em qualquer dos dois lados, principalmente em KINSHASA e em todo o território do BAS CONGO.

A utilização de planos de DESINFORMAÇÃO e CONTRA INFORMAÇÃO, tendo em conta por um lado o enorme leque de FORÇAS favoráveis a KABILA, (não há interesse em dar a conhecer aos componentes desse leque de forças as nossas verdadeiras intenções, “modus operandi”, objectivos, etc., principalmente no desenrolar da 2ª fase), por outro o inimigo (que aparentemente possui componentes muito distintas umas das outras, como antigas forças de MOBUTU, rebeldes “banyamulengue”, eventualmente elementos, ou Unidades da UNITA, etc., que podem aumentar a sua versatilidade e um bom entrosamento com a população).

A procura das concentrações inimigas, de forma a conseguir neutralizar os meios mais poderosos que ele possa dispor, a fim de, organizando os nossos próprios meios, com o emprego de armas decisivas (como o caso da aviação, da artilharia pesada, das Forças Especiais e / ou Comandos, do apoio de helicópteros, etc.), poder desferir golpes capazes de criarem as condições para o início do nosso movimento e intervenção, em perseguição dos nossos interesses internos. 

O empenho duma boa articulação de RECONHECIMENTOS em profundidade e próximos, de forma não só a melhor definir as características do ambiente e clima, mas também os trajectos, as implantações, as condições e as características das Unidades inimigas (levando ainda em consideração a sua possibilidade de clandestinidade e movimento), os seus planos (principais e alternativos), as suas medidas e contramedidas de CONTRA INFORMAÇÃO, DESINFORMAÇÃO, electrónicas, ou outras.

A circulação da INFORMAÇÃO táctico operativa entre as várias componentes das NOSSAS FORÇAS, de acordo com as normas que previnem o segredo, a compartimentação e a SEGURANÇA dos meios (humanos e materiais) e controlem os acessos respectivos a cada escalão.

A planificação de ORDENS DE MISSÃO capazes de garantir os princípios de execução com base na imaginação, surpresa, discreção e rapidez, de forma a melhor rentabilizar o conjunto das acções, com a obtenção dos melhores resultados.

Uma boa planificação logística, de forma a levar em consideração as necessidades da 1ª e da 2ª fases e a que os efectivos tenham necessidade de garantir, ao longo principalmente do seu movimento – formas e meios de recepção de víveres, rações, munições e apoios de toda a ordem para os meios que utilizam, ou possam vir a utilizar (veículos, helicópteros, equipamentos para a noite, armas, etc.).

2) Paralelamente e tendo em conta as acções de carácter humano e psicológico que as NOSSAS FORÇAS devem preparar e realizar, a nossa intervenção deve estabelecer os critérios tirando partido de recursos imediatos:

Os SAM deverão estar preparados para prestar uma assistência alargada, incluindo às populações, em termos de primeiros socorros e combate a doenças tropicais (como o paludismo, a malária e as diarreias), principalmente se NOSSAS FORÇAS estacionarem junto de áreas populacionais, dando cobertura a acções de RECONHECIMENTO e mesmo de INTELIGÊNCIA, levando em consideração que muitas das zonas a percorrer, sendo de muito difícil acesso, são muito carentes em fármacos. 

A ENGENHARIA pode garantir uma ligação melhor com as autoridades locais, nos trajectos, melhorando as pontes de pequena dimensão, desimpedindo de minas (anti pessoal, ou anti carro) os trajectos de toda a ordem, fornecendo melhores possibilidades à utilização de água (principalmente se forem utilizados sistemas para a água potável), etc.

Eventualmente, no caso de se conseguirem estabelecer planos mais alargados, as NOSSAS FROÇAS podem trabalhar no sentido de criar condições iniciais para a recepção desses planos, nos locais onde se encontram e que sejam seu destino (por exemplo, no caso de ser decidida a criação de Consulados a curto prazo, contribuir para a sua instalação, com a limpeza das infra estruturas, a recuperação rápida de imóveis, etc., a partir dos pequenos postos de comando de coluna e de frente).

III. AS DIRECÇÕES PRINCIPAIS PARA OS MOVIMENTOS DA 2ª FASE

1) As ORDENS DE MISSÃO para a 2ª fase devem obedecer a medidas muito eficazes de segredo e de disciplina de segredo, não só para garantir o êxito delas, mas de forma a melhor garantir os processos de DESINFORMAÇÃO, CONTRA INFORMAÇÃO e clandestinidade (dos RECONHECIMENTOS e da INTELIGÊNCIA).

Pensamos que devem ser três as direcções principais do movimento, como exemplo: 

KINSHASA – MATADI – MUANDA (linha do BAS CONGO), com possibilidade de fazer a ligação para as Províncias de CABINDA, ZAIRE e UÍGE).

KINSHASA – KENGE – KASSANGO LUNDA – TEMBO ALUMA (ofensiva da bacia do Rio CUANGO), com possibilidade de fazer a ligação para as Províncias do UÍGE e MALANGE, podendo ter como objectivo final (mediante refrescamentos e reforços) SAUTAR.

KINSHASA – KENGE – KIKWIT – GUNGU – CAMAXILO (ofensiva da bacia do Rio CUÍLO), com possibilidade de fazer a ligação à LUNDA NORTE, LUNDA SUL e MALANGE, podendo também fechar a sua actuação em SAUTAR.

2) As ORDENS DE MISSÃO da 2ª fase poderão obedecer a planos distintos, quando entrarem em território Angolano, tendo em conta a nossa quadrícula político – administrativa, militar e policial, assim como os dados actualizados sobre os dispositivos da UNITA.

Esses planos poderão eventualmente ser distribuídos na altura devida, tanto quanto possível levando-se em consideração o “ultimatum” político que se fizer àquela Organização Armada, tendo em conta os prazos previstos para esse “ultimatum”, ainda que se tenham que rectificar datas (protelando os prazos de maneira a melhor poder conjugar o movimento e articulação das NOSSAS FORÇAS e / ou corrigir as medidas táctico operativas).

3) Apesar de sermos favoráveis ao movimento de refluxo para o interior do nosso território, em direcção principal à REGIÃO DAS GRANDES NASCENTES, como aproveitamento das ORDENS DE MISSÃO da 1ª fase das operações na RDC, pensamos que em relação à 2ª fase das operações naquele País, podem haver possibilidades de realizar um retorno de algumas das NOSSAS FORÇAS, desde as nossas fronteiras, para a Capital, KINSHASA, facilitando algumas missões de ligação e logística, ou um movimento circular à volta das nossas fronteiras, por exemplo , a partir de LUBUMBASHI – LIKASI – KAMINA – KANANGA – KIKWIT – KINSHASA.

Esse movimento, pode também contribuir para aumentar o quadro das medidas de DESINFORMAÇÃO e melhorar as possibilidades das operações de limpeza, na retaguarda das NOSSAS FORÇAS, na altura delas estarem a entrar pelas nossas fronteiras.

4) Tendo em conta a possibilidade de se criar um Comando Operacional Unificado pelas diversas FORÇAS presentes no teatro operacional da RDC, de predominância SADC, pensamos que o nosso PLANO TÁCTICO OPERATIVO REAL, assim como as ORDENS DE MISSÃO a ele correspondentes, devem ser escondidos desse Comando, com a elaboração dum PLANO TÁCTICO OPERATIVO adequado exclusivamente às necessidades do CONGO, ainda que possam ter alguns aspectos em comum, o que constituirá por si, conjuntamente com as respectivas ORDENS DE MISSÃO, uma importante peça de DESINFORMAÇÃO e CONTRA INFORMAÇÃO, que vai ajudar ao movimento no quadro TÁCTICO OPERATIVO REAL.

Essa é uma das explicações que dão resposta à necessidade de disciplina de segredo em toda a campanha, assim como o nosso silêncio político-diplomático, principalmente na altura em que se estiver a desenrolar o movimento.

Até agora a imprensa Internacional não deu sinal da presença das NOSSAS FORÇAS na RDC e isso, sendo um bom começo, é uma necessidade premente do princípio ao fim da campanha, o que é extensivo também aos meios disponíveis das GRANDES POTÊNCIAS, em particular os EUA e FRANÇA, ressalvando-se aqueles casos em que possam haver operações comuns.

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