domingo, 30 de dezembro de 2018

2019 | Apesar de tudo, esperança


Manuel Carvalho da Silva | Jornal de Notícias | opinião

Esperança, diz-se muitas vezes, é o mínimo que podemos desejar uns aos outros na véspera do novo ano.

Para milhões e milhões de seres humanos, velhos e novos, que se encontram acantonados, despidos de bens, de direitos, de instrumentos para ação e de condições mínimas para encarar o futuro, a recuperação da esperança poderá constituir o presente mais valioso. Mas isso só será possível se outros, voluntariamente ou obrigados, iniciarem a reposição dos roubos que lhes fizeram.

A esperança é indispensável para podermos vencer os medos vindos dos bloqueios, das nuvens negras dos tempos que estamos vivendo, dos velhos e novos "desafios mágicos" colocados às sociedades humanas, muitas vezes apresentados apenas nas suas variáveis apocalíticas com o propósito de nos subjugarem e aprisionarem. Esperança ativa construída a partir da inteligência e das capacidades de cada ser humano - convocado para agir individual e coletivamente - porque é a partir daí que se gera a confiança, a ousadia sustentada em valores, capaz de realizar a mudança radical, de transformar a sociedade, de catapultar-nos para vidas mais felizes.

Procuremos ousar exigir que os discursos militaristas e belicistas a ocidente e a leste, a norte e a sul não se transformem em escaladas de rearmamento e de guerra sempre iminente, e que diminua a imensidão de conflitos armados e de situações de sofrimento em que se encontram muitos povos. É possível valorizar e credibilizar a política pela participação dos cidadãos e pela exigência aos atores políticos de comportamentos com ética, rigor e empenho no bem comum. Está ao nosso alcance colocar o poder político a sobrepor-se ao poder económico e financeiro e a política ao serviço da paz, da construção do Estado social de direito democrático.

Vamos ter a esperança ativa de que alguma coisa seja feita para evitar uma nova crise financeira, em vez de se esperar por ela como se de uma fatalidade se tratasse; de que as alterações climáticas possam ser reconhecidas e combatidas, no pouco tempo que ainda temos para o fazer; de que não continue a aumentar o número de cidadãos que, em desespero, se deixam levar pelo fanatismo autoritário dos novos messias políticos da Direita e da extrema-direita que vêm alimentar o racismo, a xenofobia, o ódio entre grupos de pessoas e povos.

Vamos ter a esperança de que em Portugal não ocorra um retrocesso. Que seja possível continuar a desejar e a conseguir mais emprego e menos desemprego, salários dignos e menos desigualdades, mais e melhor justiça e serviços públicos capazes de responder às necessidades de todos, menos apropriação do que é de todos por interesses privados poderosos, menos emigração e mais regressos dos que foram expulsos para o estrangeiro contra a sua vontade.

Pode parecer que nos votos de ano novo como estes todos, ou quase, estamos de acordo. Que não há aqui política, nem de Esquerda, nem de Direita. Infelizmente, não é assim. Para se conseguir que os povos (e cada ser humano) tenham condições e razões para ter esperança é preciso contrariar muita coisa e vencer, em batalhas bem duras, interesses poderosos, egoísmos e muitos indivíduos que atribuem a si mesmos o direito a explorar uma imensidão de homens e mulheres. Estes votos de esperança convidam-nos a construir identidades coletivas, a afirmar a solidariedade transformadora, a combater o individualismo exacerbado e a pobreza, a uma luta sem tréguas pela dignidade e pelos direitos humanos no trabalho. Convidam-nos ao combate ideológico e à preparação e execução de desafiadores programas sociais e políticos.

2019 será um ano de escolhas políticas importantes. Relembremos o que nos disseram nos anos da troika e da governação da Direita: que a culpa dos problemas que vivíamos era do povo, logo todos os sacrifícios se justificavam e tínhamos que desistir da esperança. O que nos dizem agora? Que o problema é a criação de expectativas (ilusões, dizem eles). E o que nos propõem? Que desistamos da esperança, do sonho de viver melhor e mais felizes.

A mobilização e a ação cívicas e um debate político de qualidade podem consolidar, renovar e reforçar alternativas políticas de esperança, e evitar o retrocesso.

*Investigador e professor universitário

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