domingo, 9 de junho de 2019

Israel | Que sabe Avigdor Lieberman?


Thierry Meyssan*

Desde há 7 meses, e provavelmente nos 5 meses a seguir, Avigdor Lieberman dita a sua conduta à classe dirigente israelita. Considerado como racista pela imprensa internacional, é na realidade um nacionalista pragmático e razoável, que se opõe tanto ao projecto do «Grande Israel» como ao do Estado binacional. Ele poderá ser o trunfo de Moscovo.

A demissão de Avigdor Lieberman, Ministro da Defesa, do governo de Benjamin Netanyahu, a 14 de Novembro de 2018, abriu uma crise política muito grave em Israel: foram convocadas eleições legislativas antecipadas. Mas elas não permitiram encontrar uma nova maioria no Knesset (Parlamento). Não tendo sido possível formar nenhum governo em cinco semanas, novas eleições legislativas terão lugar a 17 de Setembro.

A demissão de Lieberman teria ocorrido assim que Netanyahu impusera um acordo com o Catar implicando um cessar-fogo com o Hamas e a tomada directa a cargo pelo Emir do Catar dos salários dos funcionários Gazenses.


No plano internacional, ninguém reagiu ao que aparenta ser a secessão de Gaza dos Territórios Palestinianos e à sua pura e simples anexação pelo Catar. Para Lieberman, isso significava a montagem de uma ditadura dos Irmãos Muçulmanos às portas do seu país. Muitos interpretaram este acontecimento como um pré-requisito para «Deal of the Century» («Acordo do Século»-ndT) de Jared Kushner e Donald Trump. No entanto, parece hoje que os Estados Unidos tinham previsto fazer passar Gaza para o controle egípcio, e não catariano.

Progressivamente, Avigdor Liberman emitiu um novo argumentário durante a campanha eleitoral, a propósito da recusa de isenção ao serviço militar para os estudantes das yeshivas [1]; a recusa de uma ordem halacha, de coerção e dos privilégios religiosos. Este tema não é novo, mas jamais havia jogado um papel central a ponto de impedir Benjamin Netanyahu de formar um novo governo.

Lieberman deu-se a conhecer como um imigrante da Transnístria que juntou os judeus russófonos ao criar, em 1999, um partido político laico, "Israel Beytenu" («Israel, a nossa casa»). Mais de um milhão de Soviéticos emigraram após a Emenda Jackson-Vanik (1974), a qual ameaçava isolar a URSS economicamente se ela recusasse deixar os judeus partir para Israel. Estes russófonos são legalmente judeus (eles têm todos têm um avô judeu), mas não necessariamente religiosamente judeus (quer dizer, cuja mãe é judia). A iniciativa de Lieberman foi financiada por um oligarca usbeque, Michael Cherney, então próximo de Boris Yeltsin.

Até então, Liberman era conhecido como um funcionário do Likud, do qual era o director-geral, tornado chefe de gabinete do Primeiro-ministro Netanyahu, mas não disputando um cargo electivo. Este antigo segurança de boite (buate-br) de noite fala alto, com um sotaque russo muito pronunciado. Jamais perde uma ocasião de mirar com desprezo e ameaçar os seus interlocutores ... antes de acabar a fazer negócios com eles.

Em Outubro de 2003, Michael Cherney financiou um estranho congresso no hotel King David de Jerusalém [2]. Tratava-se de unir os políticos israelitas russófonos, entre os quais Lieberman, com os discípulos norte-americanos do filósofo Leo Strauss (geralmente antigos colaboradores de um co-autor da emenda Jackson-Vanik) e com os seus aliados «cristãos» (no sentido de opostos ao ateísmo comunista) nos Estados Unidos. Para o conseguir, ele dispunha do apoio claro da Administração Bush Jr, a qual não queria deixar cair esta minoria na órbita do novo mestre do Kremlin, Vladimir Putin. Toda a direita israelita da época, a começar por Benjamin Netanyahu, participou neste encontro.

Este congresso desenvolveu uma crença que se impôs depois em certos meios: a teopolítica. A paz é possível no mundo, mas unicamente se ela for alcançada primeiro em Israel. Um governo mundial prevenirá qualquer nova guerra. A sua sede será em Jerusalém. Este é, por exemplo, em França, o discurso de Jacques Attali.

Naquela época, Avigdor Lieberman não tinha nenhum problema com os religiosos, desde que eles partilhassem ou apoiassem o seu nacionalismo israelita. Por exemplo, ele tinha-se aliado ao partido Tkuma. Também não temia, de forma alguma, a mistura de ideias políticas e religiosas. Os seus amigos straussianos (os discípulos de Leo Strauss [3] que haviam passado pelo gabinete do senador Jackson) afirmavam, sem complexos, que o episódio nazi havia mostrado a fraqueza das democracias e que, para prevenir uma nova Shoá, os judeus deviam montar uma ditadura. O seus amigos cristãos haviam imaginado no Pentágono [4] uma aliança de todos os judeus e de todos os cristãos, os «judeo-cristãos» [5], para travar a batalha contra o comunismo ateu.

As suas ideias são conhecidas. Ele jamais mudou. Segundo ele, é preciso saber a quem se é leal. Os Palestinianos estão divididos entre nacionalistas palestinos e nacionalistas islamistas (os quais não se batem, de forma nenhuma, pelo Estado palestiniano, mas, sim pela Umma -comunidade de crentes do islão). Se eles não conseguem entender-se entre eles, ainda menos serão capazes de viver com os Europeus judeus (no sentido em que a Rússia é europeia). Assim sendo, eles formam dois povos diferentes. Em nome do realismo, Lieberman opõe-se, pois, ao plano onusino de Estado binacional e considera mesmo impossível manter a nacionalidade israelita àqueles «árabes de 1948» que contestam a existência de Israel.

Ele foi muitas vezes visto como racista devido à maneira agressiva de se exprimir. Assim, em 2001, interrogou-se sobre a possibilidade de bombardear a barragem de Assuão para fazer dobrar o Egipto. Ou, em 2003, declara que está pronto a conduzir um autocarro (ônibus-br) de prisioneiros palestinos para os afogar no Mar Morto, etc. Mas estas saídas são o resultado de uma «grande goela» e não da sua ideologia. Da mesma forma, em 2004, qualificou o Presidente Mahmud Abbas de «diplomata terrorista», mas, em 2008, é a Benjamin Netanyahu que ele descreve como «um mentiroso, um trapaceiro e um crápula».

Na realidade, durante as suas funções ministeriais, Lieberman nomeou um grande número de altos funcionários de origem etíope ou beduína e drusos. Ele entende simplesmente que a cidadania implica lealdade para com o Estado. Uma personalidade de esquerda, como o antigo Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o General Eitan Ben Eliyahu, assegura que ele não é, de forma alguma, um extremista (ao contrário de Netanyahu, partidário do «Grande Israel»).

A questão que se põe não é, portanto, saber se Lieberman é ou não de extrema-direita, nem qual será o seu futuro pessoal, mas que forças o levaram a quebrar a sua aliança dos anos 90 com Netanyahu, e a sua aliança de 2003 com os religiosos. Tudo isto acontecendo no contexto do «Deal of the Century», sempre anunciado, jamais revelado, mas já em fase de aplicação.

O projecto Kushner-Trump visa resolver o conflito israelo-palestino desenvolvendo economicamente os Árabes e levando em conta as suas derrotas militares sucessivas. Moscovo declarou como «inaceitável» a maneira como se pretende ignorar o Direito Internacional. No entanto, desde a Conferência de Genebra de Junho de 2012, a Rússia tenta firmar o pé no Médio-Oriente e adquirir uma suserania partilhada (com os Estados Unidos) sobre Israel. Ora, Lieberman está culturalmente muito mais próximo do Kremlin do que dos seus parceiros da Casa Branca e do Pentágono.


*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

Notas:
[1] As yeshivas, ou escolas talmúdicas, são centros religiosos ‎dedicados ao estudo da Torá e do Talmude (NdT).
[2] « Sommet historique pour sceller l’Alliance des guerriers de Dieu », Réseau Voltaire, 17 octobre 2003.
[3] The Political Ideas of Leo Strauss, Shadia B. Drury, Palgrave macmillan (1988); Leo Strauss and the Politics of American Empire, Anne Norton, Yale University Press (2005) ; The Truth About Leo Strauss: Political Philosophy and American Democracy, Catherine H. Zuckert & Michael P. Zuckert, University of Chicago Press (2008) ; Straussophobia: Defending Leo Strauss and Straussians Against Shadia Drury and Other Accusers, Peter Minowitz, Lexington Books (2009) ; Leo Strauss and the Conservative Movement in America, Paul E. Gottfried, Cambridge University Press (2011); Leo Strauss, The Straussians, and the Study of the American Regime, Kenneth L. Deutsch, Rowman & Littlefield (2013).
[4] The Family: The Secret Fundamentalism at the Heart of American Power, Jeff Sharlet, HarperCollins (2009).
[5] Historicamente, os «judeus-cristãos» formavam a igreja de Jerusalém em torno de S. Tiago. Eles foram expulsos da Sinagoga durante a queda de Jerusalém. A sua corrente desapareceu, salvo para certos grupos no Médio-Oriente, entre os quais o que, no século VII, ensinou Maomé. Os únicos cristãos que subsistiram foram pagãos convertidos em Damasco à volta de São Paulo. Durante dezanove séculos, o termo «judaico-cristãos» não tinha qualquer sentido, pois as duas religiões eram distintas e opostas quanto ao respeito pela Lei de Moisés (halacha). Durante a Guerra Fria, o Pentágono reutilizou esta expressão e formou um movimento ecuménico à volta dos pastores Abraham Vereide e Billy Graham. Estranhamente, fala-se no século XXI de «cultura judaico-cristã», quando esta expressão não corresponde a nenhuma realidade.

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