domingo, 29 de março de 2020

A LÓGICA COM SENTIDO DA VIDA – III


Martinho Júnior, Luanda 

OS ASPECTOS GEOGRÁFICOS DE ANGOLA

Cada país para além da sua dimensão tem o seu formato, em função das fronteiras que ao longo da história foram traçadas.

Depois das controvérsias entre a coroa portuguesa e a coroa britânica sobre o “mapa cor-de-rosa” português, a potência colonial de 2ª ordem que foi Portugal sujeitou-se ao “ultimatum” britânico.

A partir dessa altura tornou-se impossível a Portugal enquadrar um território colonial que ligasse o Atlântico ao Índico, (a potência de 1ª ordem que era a Grã Bretanha impôs a ligação do espaço “do Cabo ao Cairo”, o “mapa vermelho” britânico).

Foi assim que Portugal, em relação à costa Atlântica ao sul do Equador, definiu o espaço geográfico de Angola enquanto um quadrado (exceptuando o caso concreto de Cabinda).

O quadrado angolano passou a situar-se, com os acertos de fronteira que foram entretanto efectuados, entre os meridianos 12ºE e 24ºE e os paralelos 6ºS e 18ºS.

O território é pois bastante homogéneo, sendo fácil definir o centro por via das diagonais do quadrado: o centro resulta do cruzamento do meridiano 18ºE com o paralelo 12ºS.




A definição do centro interessa para melhor compreender vários dos fenómenos físico-geográficos e humanos do território:

- É ao redor do centro geográfico que nascem os principais rios das cinco regiões hidrográficas (as cinco vertentes);

- Com base no espaço quadrado e nas suas diagonais, definem-se quatro triângulos, cada um deles com características físico-geográficas e humanas distintas;

- É no triângulo do litoral, cuja base é a costa atlântica (entre a foz do Congo e a do Cunene) e vértice no centro, onde estão concentrados cerca de ¾ da população total de Angola, o que define a zona de ocupação, enquanto os outro 3 triângulos (a nordeste, a leste e a sudeste), são os de menor densidade humana, ou seja, podem-se considerar de triângulos de intervenção; todos os rios deste triângulo (vertente atlântica) têm curso nacional e entre eles destacam-se o Cuanza e o Catumbela; o Cuanza, tal como o Cunene, nascem na região central das grandes nascentes;

- O triângulo nordeste possui base na fronteira com a RDC, entre a foz do Congo e o ponto de entrada do rio Cassai na RDC; os rios que neles fluem pertencem à bacia do Congo e, entre eles estão o Cuango e o Cassai que nascem na região central das grandes nascentes (vertente Congo); possui uma densidade populacional menor que o triângulo do litoral;

- O triângulo leste tem como base as fronteiras com a RDC e a Zâmbia, tendo o saliente de Cazombo no meio e a separar aqueles países; é rarefeito em população principalmente do CFB para sul; todos os rios são afluentes da margem direita do Zambeze (Luena, Lungué-Bungo e Cuando-Chobe entre outros, que nascem na região central das grandes nascentes); vertente Zambeze;

- O triângulo sul, cuja base é a fronteira da Namíbia, o menos densamente povoado de todos; possui como sistemas hídricos principais a bacia do Cubango (Okawango) e a bacia subterrânea do Cuvelai, cujas águas escorrem em direcção ao Lago Etosha, na Namíbia; o Okawango perde-se num enorme delta em pleno Kalahári: o deserto traga as suas águas; vertentes Okawango e Cuvelai.

A planificação geoestratégica integrada para todo o espaço nacional, deve assentar nos fundamentos dessas características físico-geográficas, ambientais e humanas e o facto do território ser um quadrado, com o centro a coincidir também como a região das grandes nascentes, fulcro portanto da rede hidrográfica de Angola, é um benefício para o delineamento da panificação geo estratégica a muito longo prazos segundo a perspectiva da economia real e das possibilidades de desenvolvimento sustentável.

Os fundamentos da planificação geoestratégica integrada para o espaço nacional deste modo tornam-se imperiosos desde logo como a alternativa à planificação capitalista neoliberal e em relação ao inventário de recursos, por que obriga a uma verdadeira descoberta científica do país por parte da inteligência nacional, na origem da economia real e na pista do desenvolvimento sustentável:

- Desse modo põe-se de lado a lógica capitalista, esbanjadora, especulativa, promotora de tráficos e consumista que tem provocado os desequilíbrios, as assimetrias, as tensões, os conflitos, as guerras, a hipoteca das riquezas nacionais e distorce as possibilidades de planificação geoestratégica;

- Permite também a gestação de sustentabilidade da planificação geoestratégica integrada, tirando partido do essencial que constitui a vida no país, ou seja, a água interior, a rede hidrográfica distribuída de forma muito equilibrada por todos os pontos cardeais e colaterais da rosa-dos-ventos que abrange a partir do centro todo o espaço nacional;

- Possibilita garantir sempre em benefício das novas gerações o conhecimento científico que for sendo adquirido e acumulado, bem como a gestão inteligente, através dos tempos, dos limitados recursos existentes, processo intimamente associado à transferência para as energias renováveis e não poluentes as potencialidades energéticas a médio, longo e muito longo prazos;

- Torna-se método essencial na criação duma cultura inteligente e consolidada, capaz de promover uma integração regional que defenda não só os recursos nacionais limitados, mas que conduza também todos os outros componentes do espaço SADC aos mesmos critérios e motivações, de forma a que seja a própria natureza determinante na planificação conjunta e integrada, de que o primeiro exemplo pode ser o Projecto KAZA-TCFA.

Tudo isto enquadra as capacidades de unidade nacional, de identidade nacional e das possibilidades do exercício de soberania, sendo de salientar que é no triângulo cuja base é o litoral atlântico, um triângulo cuja massa não está em contacto com as fronteiras, onde se situa a maior parte da população, onde se forjam os principais vínculos da angolanidade.

Isso quer dizer que os elementos mais fortes da identidade nacional são intrínsecos, distanciando-se e distinguindo-se dos países limítrofes e funcionando com um enorme poder de atracção em relação às comunidades que estão em contacto com os vizinhos, até por que os principais pólos de desenvolvimento consolidados estão no triângulo do litoral.

A perspectiva de intervenção nos outros três triângulos resulta daí, beneficiando sempre duma distribuição muito equilibrada da água no interior, por via das cinco bacias hidrográfico-ambientais que têm suas raízes principais no centro, no planalto do Bié.

A biodiversidade em Angola tem tudo a ver com as bacias hidrográficas (e ambientais) de Angola.

Só os rios Chiloango (em Cabinda), o Congo (junto à sua foz e na fronteira com a RDC) e o Zambeze, (que atravessa de norte para sul o saliente de Cazombo) não têm nascente em Angola.

Todos os demais, pertencendo às bacias do Congo, do Zambeze, do Okawango, do Cuvelais e os que desaguam no Atlântico de forma independente, têm nascentes dentro do espaço nacional.

Isso é muito sensível: os vizinhos dependem muito mais da água que nasce em Angola, da vida que emerge desde o centro do espaço nacional, do que Angola depende de águas provenientes de fora do seu território! 

Quanto das políticas de paz para toda a região poderão ir beber aos recursos naturais, em especial o recurso que é vida?

Quanto Angola, em função desses recursos, poderá alimentar essas políticas de paz?

Quanto a SADC pode socorrer os interesses da RDC, quando a sua bacia principal, a bacia do Congo, tem sido tão ameaçada?

Desde o início da revolução cubana que as características físico-geográficas e humanas foram estudadas cientificamente pela inteligência cubana, o que deu uma contribuição enorme para o exercício da soberania, para a defesa da paz, para a resistência ao bloqueio e ao conjunto de medidas nele inseridas, conforme temos vindo a detalhar.

Em África, tendo em conta as fronteiras artificiais impostas pela Conferência de Berlim e a tentativa contemporânea de se gerarem novas identidades nacionais por via das políticas de capitalismo neo liberal, com fronteiras novas, os mesmos processos de inteligência são indispensáveis no respeito para com a vida, para a prossecução da paz e para todas as medidas que visam alcançar equilíbrio, dar luta às assimetrias, dar luta ao subdesenvolvimento crónico e histórico, respeitar a natureza e o ambiente, bem como potenciar a programação com base numa economia real, de desenvolvimento sustentável, que traga benefícios para as futuras gerações!

A consultar:
- Geografia de Angola – Wikipedia – http://pt.wikipedia.org/wiki/Geografia_de_Angola
- Recursos hídricos de Angola – Manuel Quintino – Director Nacional dos Recursos Hídricos – Ministério da Energia de Angola (pdf). 
- "Grandes Bacias Hidrográficas de Angola" em livro do agrónomo Castanheira Diniz – http://www.agroportal.pt/x/agronoticias/2003/01/14c.htm
- Recursos hídricos em Angola – http://www.abc.org.br/impressao.php3?id_article=821
- Instituto Nacional de Recursos Hudráulicos – http://www.hidro.cu/
- World Water Council – http://www.worldwatercouncil.org/ 

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