quarta-feira, 24 de junho de 2020

Racismo e luta de classes


O que se passa neste momento já não é o anti-racismo sentimental. É a revolta dos de baixo e dos que com eles são solidários, como sempre aconteceu, contra Trump e a sua política.

Isabel do Carmo* | Público | opinião

Não há raças, há racismo, tão evidente desde sempre nos EUA e presente em Portugal. E já que alguma direita fala em “cultura marxista”, vale então a pena analisá-lo à luz da luta de classes, embora a sua expressão social e cultural deva incluir esta análise, mas ir além dela. Tal como escreveu Pacheco Pereira neste jornal, os autores daquela expressão são uns “senhoritos” ignorantes, que nunca leram Marx, nem Engels, nem Gramsci. Falam do que não sabem. Diga-se de passagem que nós, colocados mais à esquerda, não andamos a fazer análises marxistas, mas apenas a situarmo-nos politicamente no que resta de uma social-democracia do após II Guerra Mundial, baseada na compensação da desigualdade através da gratuidade universal de alguns serviços públicos, sustentados pelos impostos pagos por quem os pode pagar.

Acabou de partir, mas já com cem anos, o escritor francês que escreveu a definição do racismo mais adoptada. Foi Albert Memmi, nascido na comunidade judaica pobre de Tunes. A língua materna foi o árabe, mas depois estudou numa escola rabínica e na Aliança Israelita Universal, prosseguiu em francês em Tunes, depois na Argélia e finalmente na Sorbonne. Foi sempre colono pobre e estudante pobre. Este cruzamento de origens, de culturas e de classes numa só pessoa pode ser simbólico da complexidade da questão. O seu livro Le racisme, editado pela Gallimard em 1982, está esgotado. Felizmente que uma larga bibliografia actual, ligada à investigação histórica e às polémicas e movimentos actuais, tem dado muita informação sobre o tema.


A primeira das razões do racismo está expressa na definição de Memmi de 1964 e que ainda consta na Encyclopaedia Universalis: “O racismo é a valorização, generalizada e definitiva, de diferenças reais ou imaginárias, para proveito do acusador e para detrimento da sua vítima, a fim de justificar os seus privilégios e a sua agressão.” Embora os teóricos considerem que o racismo só existe a partir do século XVIII, a verdade é que foi nessa data que foi teorizado, mas existe desde que povos foram colonizados e dominados por outros povos e, particularmente no que nos diz respeito, às grandes potências colonizadoras europeias e americanas desde que, a partir do século XV, a acumulação de capital se fez à custa do comércio triangular – captura de escravos na costa africana, deslocação de cerca de 12 milhões de africanos para a América, aplicação do trabalho escravo nesse continente ao sul e ao norte, viagem dos produtos para a Europa para serem comercializados.

É claro aqui quem eram os explorados e quem eram os exploradores. Questões de classe, pois. As grandes fortunas europeias fizeram-se dirigidas por escravocratas, que comandavam este triângulo. As portuguesas, as espanholas, as inglesas, as alemãs, as francesas, as holandesas e até as dinamarquesas. Os explorados eram os africanos de pele pigmentada. Os exploradores não eram os pobres marinheiros de pele clara, embarcados a fugir da miséria, da fome, da aridez da terra de tantas zonas de Portugal. Foram eles os que tiveram coragem para se fazer ao mar, foram eles que descobriram o que de facto estava por descobrir, os caminhos por mar para outras terras, onde viviam outras pessoas. Foram eles, como Fernão Magalhães e todos os que morreram pelo caminho, que ousaram encarar o desconhecido.

Os aproveitadores estavam em terra. Esses, os marinheiros, não são os “culpados”, tal como não são os “brancos” pobres que por aqui iam ficando na Europa, embora acabassem por beneficiar de migalhas. A linha de divisão passa entre explorados e exploradores, entre classes. A “culpa” não é dos portugueses em geral, mas de uma dúzia de genealogias hereditárias que tiveram sempre o poder e contaram uma história de fadas a sucessivas gerações, a história do Império. Mas acontece que os explorados, os africanos e afrodescendentes, vieram de zonas próximas do equador, tinham pele pigmentada para sobreviver, tal como os nórdicos da Europa tiveram que perder a pigmentação para obter vitamina D. Foi há pouco tempo, segundo alguns investigadores só há “brancos” há cerca de 10.000 anos. Mas a verdade é que os explorados tinham uma marca, a cor da pele e algumas feições. Essas diferenças serviram os teóricos do racismo do século XVIII. Mas a realidade já existia, provam-no as palavras iluminadas do Padre António Vieira, de Bartolomeu de las Casas e as crónicas de Zurrara, em plena época escravocrata. 

Já em 1684, François Bernier definira quatro “raças”, Lineu em 1758 manteve quatro, mas substituiu os lapões pelos americanos e, em 1775, Johann Blumenbach, naturalista alemão, cheio de boas intenções humanistas, coleccionador de crânios, achou que o mais belo era o de uma escrava caucasiana e partiu daí a invenção caucasiana, que ainda hoje é oficial e administrativa, apesar de todos os desmentidos dos estudos genéticos, da UNESCO declarar em 1950 que não há raças humanas e a multiplicidade de estudos do genoma desde 2000 mostrar que somos todos uma mistura de origens, felizmente. Se não, já uma parte da humanidade tinha sucumbido a doenças raras. No entanto, a marca ficou.

À escravatura seguiu-se o colonialismo, para Portugal com trabalho forçado até 1974. Nos EUA, mesmo após a abolição, a marca foi ficando como sinal de classes, a baixa. Não venham pensamentos primários dizer que há afrodescendentes que são ricos e ilustrados, e vide o casal Obama, e que há brancos pobres. Há. Mas quando se vai ver os estudos que aplicam grandes amostras e estatísticas válidas a maior percentagem de pobres são afrodescendentes, a maior percentagem sem cobertura médica são também eles e os chamados “latinos”. E a maior percentagem de vítimas da covid-19 são eles. E há diferenças nas universidades conforme o seu ranking e até conforme o objecto das teses. Felizmente, dos EUA vem o pior e o melhor, porque todos estes estudos têm origem nesse país. Curiosamente, os afrodescendentes têm alguma marca à vista, mas têm muito mais marca “branca”. É que os sucessivos escravocratas, exploradores, fazendeiros, não levavam consigo mulheres. Foi também de violação e submissão que se fez esta população.

Mas eis que levanta a cabeça, porque Floyd já não conseguiu levantar a dele (quanto ao nosso imigrante assassinado no aeroporto, estamos quietinhos, mas é paralelo). Juntam-se jovens “brancos” e a revolta alastra por 147 cidades dos EUA. Há polícias a pedir perdão de joelhos. Há tropa que não quer ser enviada para os Estados em revolta (é uma longa história o envio da tropa federal para os Estados nos tempos das grandes revoltas). O Capitólio é enfrentado pela multidão.

Houvesse agora nos EUA uma vanguarda e um programa alternativo que defendesse a liberdade, e aí sim, podiam tremer os “senhoritos”. A história é lenta, mas um dia há-de vir. E parece vir por aí.

O que se passa neste momento já não é o anti-racismo sentimental. É a revolta dos de baixo e dos que com eles são solidários, como sempre aconteceu, contra Trump e a sua política. Contra as leis racistas que este Presidente foi recuperar depois de Obama ter acabado com elas. Contra o sindicato dos polícias que fala nos comícios a apoiar o Presidente.

É a revolta contra o sistema? Recuperando Marx, o que ele profetizou foi que o socialismo a caminho do comunismo se viria a dar numa sociedade desenvolvida e industrializada, alfabetizada. Infelizmente, por acasos políticos, a revolução deu-se num país de muitos camponeses e poucos operários, sem instrução. E correu mal. Houvesse agora nos EUA uma vanguarda e um programa alternativo que defendesse a liberdade, e aí sim, podiam tremer os “senhoritos”. A história é lenta, mas um dia há-de vir. E parece vir por aí. Para nos animar, neste tempo em que se agravam as desigualdades.

*Médica; professora da Faculdade de Medicina de Lisboa; activista política

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