terça-feira, 6 de outubro de 2020

República? Uma república partilhada por vários reis e reizinhos

O Curto por Rui Gustavo. Hoje as abordagens nacionais são algumas, a merecerem consideração. Até porque ontem, 5 de Outubro, foi o aniversário da implantação da república em curso…

República? Há os que dizem e dão argumentos válidos para considerar que sobrevivemos numa república partilhada por vários reis e reizinhos, com poderes esconsos e/ou reconhecidos e públicos, tais como em setores como a política, as finanças, a corrupção, a justiça, o capital… Todos que lhes interessam e – aos nobres reizinhos e respetivas cortes (cúmplices) – contribuem para tramar e dominar os milhões de plebeus. Muito bem. Então, assim sendo e constatando: a verdadeira república finou-se e foi substituída pelos vários poderes na posse de charlatães que têm por missão e objetivo enganar os plebeus. Enganar fundo. Enganar até ao tutano. Usá-los e descartá-los quando não interessam aos das realezas vigentes. Resta saudar aqui os reizinhos, pelo sim pelo não, e deixar recomendado aos plebeus que sabem ler e interpretar que leiam o Curto da oficina do tio Balsemão Impresa de Bilderberg – um rei de trono herdado, como manda a tradição real. Sigam para o Expresso e visitem a abundância de informação sobre Trump, um rei a tomar em consideração, homem da luta livre desportiva e encenada - e da política de deitar abaixo pessegueiros plebeus com tretas de faz de conta. Por exemplo: há os que dizem que não está nadinha com covid-19, que é tudo encenação a cobrar vantagem eleitoral… Sim, não, talvez… Mas afinal os reis são eleitos? Sim, entre eles e suas côrtes. Eleições de fachada. Viciadas. 'Triste espetáculo', a quanto obrigas… Reis e reizinhos que vão (estão) nus, expondo as suas sujidades e das suas côrtes. E a plebe a vê-los atuar, a vê-los passar, a vê-los roubar, nus. A sentir na pele os enganos... Mansa, calada, acarneirada.

O Curto, a seguir.

FS | PG

Crise, qual crise?

Rui Gustavo | Expresso

Um homem de fato de banho e óculos escuros relaxa debaixo de um chapéu-de-sol amarelo. Está rodeado por um cenário industrial pós-apocalíptico e por cima dele paira uma pergunta: “Crisis, what crisis?”. Lembrei-me da capa do quarto álbum dos Supertramp (quem nunca?) ao ver ontem António Costa sentado duas cadeiras à frente do (ainda) presidente do Tribunal de Contas, Vítor Caldeira, enquanto ouvia tranquilamente o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, apelar à “ética republicana” e a repudiar “compadrios, clientelas e corrupções”, parafraseando um parecer daquela entidade fiscalizadora da aplicação do dinheiro público.

O juiz conselheiro saiu em silêncio da restrita cerimónia comemorativa da instauração da República e, que se tenha visto, não chegou a trocar qualquer palavra com António Costa, confirmando assim que não vai mesmo continuar à frente do Tribunal de Contas depois de ter dito ao Expresso que “Há uma emergência, mas não vale tudo”, numa referência aos milhões que vão chegar da Europa e que o Governo quer aplicar sem grandes burocracias (versão benigna), ou controlo efetivo (versão pessimista) de uma entidade independente.

Num parecer divulgado pelo Público, o tribunal avisou para o facto de a nova lei do Governo sobre contratação pública que elimina a burocracia, mas “reforça o acompanhamento”, “contribuir para o crescimento de práticas ilícitas de conluio, cartelização e até mesmo de corrupção”.

Segundo o Sol, Vítor Caldeira foi avisado de que não seria reconduzido no cargo por um telefonema de António Costa. Ou, segundo as palavras de Marques Mendes, “fica a ideia de que quem se mete com o PS, leva”.

Já depois da cerimónia do 5 de outubro, Marcelo Rebelo de Sousa explicou naquele tom professoral que gosta de adotar que há um “equilíbrio difícil” e um “choque” entre os “valores da transparência” próprios da "ética republicana" e a “pressão do tempo” para aplicar os fundos comunitários, cuja taxa de execução "é tradicionalmente baixa, por razões administrativas e burocráticas". A não recondução de Vítor Caldeira parece um sinal claro de qual o lado para onde a balança está a pender e deixa uma peculiar herança para o próximo presidente do Tribunal de Contas. Ao referir-se a este caso, a nova presidente da Transparência e Integridade, Susana Coroado, mostrou capacidade de síntese: "Está a preparar-se um assalto aos fundos europeus."

António Costa já disse que é “normal” o princípio da não renovação de mandatos mas experimente escrever no Google "Costa critica Tribunal de Contas".São quase tantos milhões como os que vêm da Europa.

A opção do Governo foi criticada pela generalidade da oposição, incluindo Ana Gomes, excluindo Bloco e PCP, e hoje mesmo segue-se novo teste: o PS vai apresentar aos partidos com assento parlamentar a primeira versão do Orçamento do Estado para 2021. É um esboço, um esquisso, mas tem já as grandes opções estratégicas do Governo para evitar uma crise política e vencer a crise económica e a sanitária. Para passar o orçamento – a votação final só vai decorrer no final de novembro e agora é tempo de negociar.

O Governo precisa que, por exemplo, o Bloco de Esquerda se abstenha. Ou que o PCP, como Marques Mendes predisse, também se abstenha (mesmo assim não chega). Ou que o PSD, como Marcelo parece preferir, apoie o Governo. Recomendo com vivacidade o visionamento do último “Isto é gozar com quem trabalha” do presciente Ricardo Araújo Pereira para perceber o que vai acontecer.

OUTRAS NOTÍCIAS

Daqui a pouco mais de uma hora, às 10h45, a academia sueca anuncia o vencedor do Nobel da Física. E esta pode ser a notícia do dia porque há uma portuguesa na short list para ganhar o mais importante prémio desta área do conhecimento: Elvira Fortunato, que em entrevista à revista E desta semana considerou essa hipótese “uma especulação”. Por uma vez, oxalá esteja errada. O Nobel da Medicina foi atribuído a Harvey J. Alter, Michael Houghton e Charles M. Rice, três cientistas que descobriram o vírus que provoca a hepatite C há 31 anos. Até um dos laureados achou que era "uma piada" quando recebeu o telefonema com a noticia.

Donald Trump teve alta hospitalar depois de escassos três dias de internamento devido à covid-19. O presidente americano recebeu tratamento à base de um cocktail experimental de anticorpos e o médico que lhe deu alta reconheceu que ainda não está "livre de perigo". Depois da alta, o Presidente regressou à Casa Branca e antes de entrar deu mais um sinal da responsabilidade com que encara a crise pandémica tirando a máscara para posar para as fotos. Os funcionários da Casa Branca devem estar felizes com os dias que se seguem. Faltam quatro semanas paras as eleições que pode seguir pela Estrada Fora.

Faz hoje 21 anos que morreu a maior artista da história da cultura portuguesa: Amália Rodrigues, que é homenageada no Panteão Nacional pelo primeiro-ministro António Costa e pelo sobrinho-neto, o guitarrista Gaspar Varela, de 16 anos, que vai interpretar versões instrumentais de "Meditando", "Com Que Voz" e "Amália". Durante quanto tempo vai "O Senhor Extra-terrestre" continuar a ser ostracizado?

A mini-crise sanitária no Conselho de Estado terminou com um resultado positivo: Lobo Xavier está infetado mas todos os outros conselheiros - incluindo a convidada Ursula von der Leyen - tiveram resultados negativos. Rui Rio reclamou contra a app Stay Away covid que "não" o avisou do contágio. A empresa usou as redes sociais para explicar os (extensos) critérios que têm de se verificar para que a app funcione.

João Almeida. Já tinha ouvido falar? Também não. Mas decore o nome. É o novo maglia rosa da Volta a Itália e apenas o segundo português a conquistar o símbolo de líder da prova depois do mítico Acácio da Silva que também chegou a liderar a Volta à França. Tem 22 anos e parte para a 4ª etapa como líder de uma das mais importantes provas velocipédicas mundiais.

Amaro Antunes, do W52 FC Porto, venceu a Volta a Portugal que este ano teve apenas nove etapas depois de vários municípios se terem recusado a receber a caravana ciclística. Sim, a culpa é da covid-19.

O mercado de transferências de futebol fecha esta noite e por vezes é mais emocionante de seguir do que um jogo do campeonato português. O campeão FC Porto transferiu dois titulares: o capitão Danilo, que vai para o PSG por empréstimo; e Alex Telles, o super lateral que terá sido o jogador mais influente das últimas épocas portistas e assinou pelo Manchester United. Zé Luis, que marcou um dos golos do título da época passada (contra o Benfica, na Luz), vai para o Lokomotiv de Moscovo e regressa assim à Rússia. Toni Martinez, ex-Famalicão; e Nanu, ex-Marítimo, são, à hora do fecho deste curto, as contratações asseguradas pelos portistas.

João Mário, o talentoso médio que não tem tido muita sorte nos últimos anos pode regressar ao Sporting, quatro anos depois de ter sido vendido ao Inter de Milão. A concretizar-se, seria um belíssimo reforço para Ruben Amorim.

O Benfica, que se isolou na liderança do campeonato, viu-se livre de Dyego Sousa, que foi para o Famalicão e emprestou o jovem Jota ao Valladolid e a promessa Tomás Tavares ao Aláves. Tiago Dantas, um promissor médio de 19 anos foi emprestado ao Bayern por pedido expresso do treinador Flick Entra Todibo, jovem central francês emprestado pelo Barcelona.

A SIC, a talentosa irmã mais nova do Expresso, faz hoje 28 anos. Parabéns, camaradas. É um privilégio trabalhar lado a lado convosco quase todos os dias.

Frases

“Não queremos ditaduras em Portugal”

Marcelo Rebelo de Sousa, o óbvio

“Não tenham medo da covid. Sinto-me melhor do que há 20 anos”

Trump, ao anunciar no twitter (where else?) a própria alta hospitalar depois de ter sido internado com covid-19

“Nero pegou fogo a Roma e ficou a assistir da varanda do palácio. Trump fará o mesmo e pegará fogo aos Estados Unidos se perder as eleições”

Miguel Sousa Tavares, que mesmo assim “teme” numa hipótese ainda pior: Trump vai conseguir a reeleição

“Foi uma oportunidade de dar o salto e ganhar dinheiro. Resto é conversa”

O sempre pragmático Pinto da Costa, sobre a venda de Danilo ao PSG

“Injusta ou justamente fica a ideia de que quem se mete com o Governo vai para a rua. Fica esta ideia e eu acho que não anda longe da verdade”

Marques Mendes, mordaz, sobre a saída de Vítor Caldeira da presidência do Tribunal de Contas

“Julian Assange, o antigo herói-pop pode acabar por morrer sozinho”

Pedro Tadeu, sobre o triste destino do homem do wikileaks

“Até ver, é sucata caríssima”

Ricardo Araújo Pereira, sobre os drones da Força Aérea que não voam

O que eu ando a ler

J’accuse

Émile Zola

Há clássicos que toda a gente conhece sem nunca os ter lido. “Guerra e Paz”, de Tolstoi, é um bom exemplo disso. Quantos dos que discutem o romance já leram as 481 páginas do escritor russo? Lembrei-me de ler o clássico de Zola depois de ver o sublime “Oficial e Espião”, a fita de Polanski que conta com mestria a história de Alfred Dreyfus, um oficial do exército francês condenado a uma pena de prisão perpétua sob o falso pretexto de espiar para os alemães. Na verdade, o oficial foi vítima de uma conspiração anti-semita que o levou ao degredo na Ilha do Diabo. O artigo de Zola, já então um escritor famoso que não tinha hesitado em viver e trabalhar com os mineiros para poder escrever “Germinal” (este li) ocupava toda (!) a primeira página do jornal “Aurore”. O artigo, publicado em janeiro de 1898, é na verdade uma carta aberta para o então Presidente da República, Felix Faure e foi escrito depois de um segundo julgamento, quando já era notório que tinha havido um erro judicial, ter mantido a condenação de Dreyfus apesar de reduzirem a pena. Indignado, Zola escreveu a carta cuja conclusão começa sempre por “J’accuse” – Eu acuso - e nomeava todos os militares e especialistas envolvidos na conjura. O jornal vendeu os 300 mil (!) exemplares em poucas horas e provocou um terramoto que acabou por resultar na anulação da pena de Dreyfus e na sua reintegração no exército em 1906, oito anos depois da publicação do artigo. Zola foi processado pelos visados (acusados) e condenado ao pagamento de 300 mil francos e a um ano de prisão. Teve de fugir para Inglaterra, onde passou um ano exilado, para não ser preso. Depois de ter regressado a França, morreria em circunstâncias estranhas (intoxicado com monóxido de carbono por causa de uma chaminé) quatro anos antes da reabilitação total de Alfred Dreyfus.

Acompanhe esta estranha forma vida nos sites do Expresso, Blitz e SIC. E oiça Amália.

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