domingo, 3 de outubro de 2021

Directiva Guerini: A Itália cada vez mais armada

Manlio Dinucci*

A exposição comercial militar Sea Future 2021, que teá lugar na base naval de La Spezia, corresponde à política do governo italiano, tal como foi declarada pelo Ministro da Defesa. Contrariamente à Constituição, Roma está a equipar-se com uma indústria militar, não para se defender, mas para sobreviver.

Hoje em La Spezia, o Ministro da Defesa, Lorenzo Guerini, inaugura o SeaFuture 2021 (il manifesto, 24 de Setembro), a exposição naval militar patrocinada pelas principais indústrias de guerra. Na vanguarda, a Fincantieri ("patrocinador estratégico"), a Leonardo ("patrocinador de platina") e a MBDA (uma ‘jont-venture’ europeia na qual Leonardo tem uma participação de 25%), que participa como "patrocinadora de ouro". O "Futuro" já está traçado na "Directiva para a Política Industrial de Defesa", emitida por Guerini em 29 de Julho: a Itália deve "dispor de um Equipamento militar capaz de exteriorizar as capacidades militares avançadas de que o país necessita para proteger os seus interesses nacionais", o que assegura "a sua adesão ao círculo dos países tecnológica e economicamente avançados". A Directiva, ao derrubar o Artigo 11 e outros princípios constitucionais com o consentimento silencioso do Parlamento, estabelece que a Itália deve armar-se cada vez mais. Ao mesmo tempo, afirma que a Itália deve manter e reforçar "a sua relação estratégica com os Estados Unidos, para assegurar o seu envolvimento na inovação tecnológica, que encontra uma das suas principais incubadoras nos EUA, para favorecer o acesso das empresas italianas ao mercado americano e para melhor posicionar a Itália no contexto europeu".

A linha traçada pela Directiva já está operacional há algum tempo. Basta recordar: o embarque no porta-aviões Cavour - o navio almirante da Marinha - dos caças americanos F-35B de descolagem curta e aterragem vertical, para o qual o navio foi adaptado em Norfolk, na Virgínia; a decisão de armar submarinos e fragatas italianas com mísseis de cruzeiro com um alcance de, pelo menos, 1.000 km; a decisão de armar os drones Reaper, que a Itália comprou aos EUA. Estes e outros armamentos, com os quais as nossas forças armadas estão equipadas, não são para defesa mas para ataque. O Cavour, armado com F-35B, torna-se numa base militar avançada que, instalada em teatros de guerra distantes, pode atacar e invadir um país; os submarinos e as fragatas podem atingir um país a grande distância com mísseis de cruzeiro que, voando a muito baixa altitude sobre o mar e ao longo dos contornos do terreno, escapam às defesas antiaéreas; os drones Reaper, pilotados remotamente a milhares de quilómetros de distância, podem atingir "alvos" humanos com mísseis ‘Fogo Infernal’ e bombas a laser ou guiadas por satélite. A Itália está assim, a armar-se para participar noutras guerras, sob comando USA/NATO.

A "relação estratégica com os Estados Unidos" estabelecida pela Directiva, está a ser reforçada, cada vez mais, todos os dias. O grupo Fincantieri, 70% controlado pelo Ministério da Economia, tem três estaleiros navais nos EUA, onde está a construir dez fragatas multi-funções para a Marinha dos EUA e quatro navios de guerra semelhantes para a Arábia Saudita. A Leonardo - a maior indústria militar italiana, que obtém do armamento, mais de 70% do seu volume de negócios - fornece produtos e serviços às forças armadas e agências de serviços secretos dos EUA e em Itália, gere a fábrica de aviões de combate F-35 da Lockheed Martin, em Cameri. O Ministério do Desenvolvimento Económico detém 30% das acções do grupo Leonardo. Por isso, é que o Ministro Giorgetti, da Liga Italiana, estará presente na exposição militar em La Spezia, ao lado do Ministro Guerini, do Partido Democrático. Descrito como "perito em contas", está encarregado de gerir os 30 biliões de euros já atribuídos pelo Ministério do Desenvolvimento Económico para fins militares e os outros 25 biliões de euros exigidos pelo Fundo de Recupe-ração/Recovery Fund.

Os 26 biliões de euros gastos anualmente pelo Ministério da Defesa já não são suficientes. É ne-cessário avançar para, pelo menos, 36 biliões por ano, tal como solicitado pela NATO e reiterado pelos USA. Só para fazer as contas, o porta-aviões Cavour custou 1,3 biliões de euros, os 15 F-35B da Marinha custaram 1,7 biliões de euros e existem outros 15 F-35B e 60 F-35A de capacidade nuclear para a Força Aérea. Depois existem os custos operacionais: um dia de navegação do Cavour custa mais de 200.000 euros e uma hora de voo de um F-35 mais de 40.000 euros. Sempre com dinheiro público retirado das parcelas sociais, investido em armas e guerras para "proteger os nossos interesses nacionais e pertencer ao círculo dos países economicamente avançados".

Manlio Dinucci* | Voltairenet.org | Tradução Maria Luísa de Vasconcellos |  Fonte Il Manifesto (Itália)

*Geógrafo e geopolítico. Últimas publicações : Laboratorio di geografia, Zanichelli 2014 ; Diario di viaggio, Zanichelli 2017 ; L’arte della guerra / Annali della strategia Usa/Nato 1990-2016, Zambon 2016; Guerra nucleare. Il giorno prima. Da Hiroshima a oggi: chi e come ci porta alla catastrofe, Zambon 2017; Diario di guerra. Escalation verso la catastrofe (2016 - 2018), Asterios Editores 2018.

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