segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

SE MUDAREM OS ELEITORES, O PSD PODE GANHAR

Paulo Baldaia* | Diário de Notícias | opinião

Saímos de um fim de semana, em que a Direita procurou dar um passo em frente no sentido de se reconstruir, confirmando que PSD e CDS têm mais pressa em mudar de líder que em perceber porque falharam tão clamorosamente no dia 30 de Janeiro. Os que se convenceram que o problema esteve unicamente nas lideranças podem não ter aprendido nada do que os eleitores disseram nas urnas e as lideranças que julgam que o problema esteve sobretudo nos eleitores seguramente arriscariam perder eleições até para a administração do condomínio.

Sim, estão a ver bem quando dizem que houve "muito voto útil à esquerda" mas, quando apontam o medo do eleitorado de esquerda com um possível entendimento com o Chega como razão principal para esse voto, estão a esquecer (será apenas falta de discernimento?) que essa é também a razão para o PSD não ter captado os votos do centro que teriam retirado a maioria absoluta ao PS e aproximado os sociais-democratas da vitória.

Rui Rio acabou a queixar-se dos que não o conhecem e, só por isso, poderiam ter pensado que o PSD estaria capaz de fazer um acordo com o partido de Ventura. Eu que, por força das minhas obrigações profissionais, acompanho a política há mais de trinta anos, não estive em momento nenhum da campanha absolutamente convicto de que estava excluído um acordo com o Chega, se dele dependesse a formação de uma maioria parlamentar. E não estive porque, para além desse acordo ter sido possível nos Açores, o discurso que o líder do PSD fez no último Conselho Nacional (CN) parece confirmar os meus piores receios.

Em campanha, o favor prestado a Ventura ao entrar no debate sobre a proposta de prisão perpétua (mais ou menos mitigada) serviu para desviar atenções de uma proximidade mais perigosa, porque mais real. O estigma que se coloca nos portugueses que necessitam da ajuda do Estado para sobreviver com o mínimo de dignidade ou nos que recebem o salário mínimo, melhorado também por imposição do Estado, aparece confirmado neste CN com um discurso em que se fala desta população como não aderindo à mensagem do PSD. Eleitores que não se deixam convencer são sempre um atraso de vida.

O título desta crónica é, obviamente, irónico, mas tem um fundo de verdade quando olhamos para um futuro não muito longínquo. Mesmo tendo em conta a incerteza que paira sobre as próximas lideranças, olhando para o estudo de João Cancela e Pedro Magalhães, a partir da sondagem à boca das urnas feita, pela Pitagórica, no dia 30 de janeiro, percebemos que se votassem apenas os eleitores mais jovens (menos de 35 anos) PS e PSD ficariam empatados, com vantagem para os sociais-democratas porque a maioria parlamentar passaria a formar-se à direita.

Só que esse mesmo estudo não tem apenas boas notícias para o PSD, também nos diz que o eleitorado mais jovem vota fortemente nos novos partidos, com particular destaque para a Iniciativa Liberal, que tem potencial para se transformar no terceiro partido, deixando atrás de si o Chega que, ainda assim, pode manter ou mesmo aumentar o número de deputados. Pela lei da vida, a composição do eleitorado vai sendo alterada, mas isso de pouco valerá a um partido como o PSD se insistir em culpar os eleitores que votam.

*Jornalista

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