sábado, 30 de julho de 2011

AGRESSÃO AO BOM SENSO




José Inácio Werneck – Bristol – Direto da Redação

Bristol (EUA) – Quem mora nos Estados Unidos pode suspeitar que Aristóteles, Descartes e outros gigantes do pensamento racional  não são conhecidos pelos politicos do Partido Republicano.

Diariamente o presidente Barack Obama comparece diante de câmeras e microfones para tentar racionalizar o debate sobre a dívida pública e diariamente é repelido com uma intransigente atitude que não admite  ouvir dizer que milionários e bilionários serão obrigados a pagar um centavo a mais de impostos.

Os americanos pagam  menos impostos do que os demais países desenvolvidos e isto se tornou mais evidente depois dos “cortes temporários” obtidos pelo presidente George W. Bush em seu primeiro mandato.

De temporários eles estão próximos de se tornarem permanentes. Os republicanos não admitem sua caducidade, embora ela esteja prevista na legislação. Pior, não admitem que o governo federal feche os muitos “loopholes”, as brechas  que permitem às classes abastadas deixarem de pagar o imposto que teoricamente lhes é exigido pelas leis.

Mas, no outro extremo da equação, os republicanos ligados ao Tea Party são insaciáveis: querem radicais cortes de despesas, sobretudo as que atingem os serviços sociais, como aposentadorias, Medicare (que assiste aos idosos) e Medicaid (que assiste aos pobres). Estão furiosos desde que Barack Obama, num esforço para combater a recessão surgida no segundo mandato de George W. Bush, obteve passagem no Congresso do Plano de Estímulo, com obras públicas e outras despesas governamentais, numa tentativa de combater o desemprego.

O estímulo cumpriu em parte seu papel e só não obteve mais porque foi modesto. Para apaziguar os republicanos, Obama temperou-o com cortes de impostos e investiu menos em obras do que deveria. Mesmo assim os republicanos, que conseguiram maioria na Câmara dos Deputados nas últimas eleições, ameaçam impedir que o governo eleve o teto da dívida pública se Obama não concordar com todas as suas exigências de cortar serviços sociais sem cobrar um centavo a mais de impostos aos americanos com renda superior a 250 mil dólares ao ano. (Mesmo quando se fala em dobrar a quantia para 500 mil dólares, eles recusam).

Alguma solução tem que ser alcançada até o dia 2 de agosto, quando o governo tecnicamente entrará em inadimplência, em “default” – isto é, não poderá honrar seus compromissos. Uma pequena esperança surgiu agora no horizonte com o ressurgirmento de uma proposta do chamado Grupo de Seis, formado por senadores democratas e republicanos, de combater a dívida pública com uma mistura de cortes de despesas e aumento de impostos.

Mais uma vez, Obama procurará argumentar com a lógica. Resta saber se os republicanos ligados ao Tea Party na Câmara de Deputados estão finalmente dispostos a ouvir um discurso racional.

É jornalista e escritor com passagem em órgãos de comunicação no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou "Com Esperança no Coração: Os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos", estudo sociológico, e "Sabor de Mar", novela. É intérprete judicial do Estado de Connecticut.

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