domingo, 13 de maio de 2012

Timor-Leste: A MONTANHA MÁGICA




Pedro Rosa Mendes - UP Magazine

Timor-Leste comemora este mês dez anos de independência. Na exígua metade de uma ilha, nos confins da Ásia, a Nação do Milénio é um mosaico de povos e de línguas, unidos por tradições seculares e mitos ancestrais. Timor é, também, um sonho coletivo onde a geologia faz a síntese entre cultura e território, Estado e recursos, esperança e memória. Bem-vindos à montanha mágica.

Primeiro, um nome. Lorosa’e, ou Sol Nascente – título oficial do jovem país – é um sedimento inscrito no chão timorense, de diversas formas, todas importantes para definir e viabilizar a República Democrática de Timor-Leste nascida a 20 de maio de 2002. Sol é o astro masculino, referência primordial e cósmica deste povo de “filhos do céu, filhos das estrelas”, como diz uma recitação sagrada do povo Mambai, no coração montanhoso da ilha. O Sol, símbolo de poder, continua a ser usado, sob a forma de medalhão dourado, em todas as cerimónias tradicionais, não apenas religiosas ou folclóricas, mas também políticas. É normal, aliás, que os principais homens da política timorense passem – no sentido mais sério de mediação, de trânsito entre mundos – por celebrações em que vestem o lorosa’e e esse outro símbolo mais visível de poder na cosmogonia timorense, o caibau (ou kaibauk), representando a Lua. Ter poder sobre o Sol e a Lua é dominar a vida e a morte, ou seja, ter o poder absoluto.

Em Timor-Leste, a independência governa-se a partir das duas únicas cidades do país – Díli e Baucau, ambas situadas na costa norte – mas foi ganha nas montanhas, ali tão longe e tão perto. Foi lá, nos maciços do Matebian e do Mundo Perdido, a leste, e do Ramelau, no centro, que os guerrilheiros liderados por Xanana Gusmão mantiveram acesa durante 24 anos a chama da causa timorense. Há uma literalidade topográfica, física, na relação simbólica entre independência, nação e montanha, como fica patente no primeiro verso de “Pátria”, o mais famoso poema-de-prisioneiro do próprio Xanana Gusmão (atual primeiro-ministro): “Pátria é, pois, o sol que deu o ser”.

O sol “dá o ser” a Timor-Leste de outras formas vitais. A viabilização do pequeno país depende do petróleo – que mais não é que sol acumulado no coração da Terra, conforme explicam os geólogos na sua linguagem evidente. É o petróleo – sedimentação de passado, cozedura mineral de muitos tempos que já foram mas que guardam intacta a sua energia – que pode pagar o projeto da independência para as gerações futuras. Isso é crucial para um pequeno país onde apenas quatro por cento do território é arável – a montanha é em todo o lado – e que regista, nos últimos anos, o maior crescimento demográfico do mundo.

Uma das realizações da independência foi a constituição, em 2005, do Fundo Petrolífero, o fundo soberano de Timor-Leste, onde a riqueza proveniente das jazidas do Mar de Timor é acumulada e aplicada segundo regras que pretendem garantir a sustentabilidade deste tesouro nacional. O Fundo e as suas regras rígidas “tem como objetivos a preservação da equidade intergeneracional e a manutenção da responsabilidade fiscal”, na explicação do Governo timorense. A transparência e racionalidade do Fundo têm sido, de resto, elogiadas por várias instituições internacionais. Essa prudência de gestão, vinculada constitucionalmente, salvou o Fundo Petrolífero de Timor-Leste de levar um golpe profundo na crise financeira de 2008, como aconteceu à generalidade dos fundos soberanos de muitos países, incluindo de muitos Estados bastante mais desenvolvidos. Em fevereiro de 2012, o saldo do Fundo era de 9,9 mil milhões de dólares. O Fundo tem hoje investido 12,5% do seu capital (aproximadamente 1,2 mil milhões de dólares) em 1800 empresas em 23 países desenvolvidos.

Os desafios da jovem nação, que são consensuais entre Governo, oposição e parceiros internacionais, situam-se, naturalmente, na criação e diversificação da economia não petrolífera e na redução dos níveis de pobreza, que afeta cerca de 40 por cento da população. Timor-Leste continua a ser, nesse aspeto, “um problema florestal”, como resumia um governador português do território no século XIX que tentou – à força e pela força, diga-se – introduzir a cultura intensiva do café, reproduzindo o “sucesso” das plantações holandesas de Java, exemplo precoce do desastre da repetição de modelos “de fora”. É da terra, em qualquer sentido, que pode sair o equilíbrio económico que salve Timor-Leste da “resource curse”, ou “mal holandês” de países muito dependentes de recursos minerais finitos. O maná do Mar de Timor acaba já na próxima geração e “Timor-Leste é um país petrolífero sem muito petróleo”, conforme têm alertado organizações não-governamentais timorenses.

Percorrendo o país, hoje, o “problema florestal”, em senso lato, ganha provavelmente mais acutilância. A ilha, que no século XVI era definida pelo português Tomé Pires (autor da magnífica Suma Oriental) como o lugar “lá onde nasce o sândalo”, há muito que deixou de produzir e exportar madeira preciosa. Foi o sândalo, recordemos, que levou os chineses a esta periferia do Arquipélago Malaio – o Mediterrâneo chinês, chamou-lhe o historiador francês Denis Lombard –, muito antes da chegada dos primeiros europeus. Diz-se que, outrora, era possível apanhar o odor quente do sândalo ao longe, mesmo antes de avistar a ilha. Hoje, exaurida a cultura autóctone do sândalo, os esforços dirigem-se, por exemplo, para dar nobreza (e rendimento) à cultura do café, com certificação de produção biológica e a afirmação de uma marca-Timor em mercados internacionais dispostos a pagar bem o café de exceção – ou o arroz, ou, outro exemplo, a baunilha, autêntica pedra preciosa aromática de alta rentabilidade que os agrónomos procuram difundir junto dos agricultores timorenses.

Para onde olhemos, pois, Timor-Leste é uma ecologia. Isto é: um universo que exige a procura constante – e milenar, dizem os registos arqueológicos que na última década têm produzido revelações surpreendentes – da linguagem adequada para o Homem se inscrever na paisagem. Até a paisagem se transformar na única possibilidade de articulação do indivíduo com o seu grupo, o seu clã, a sua nação e, hoje, com o seu Estado. A paisagem – a árvore, a pedra, a água, a cobra, o crocodilo, a montanha – é vida e vive com alma, é a alma. Não por acaso, a luta pela independência foi assumidamente uma luta por um chão que, na tradição animista dos povos timorenses, é orgânico e é divino. O Tata Mai Lau, o pico mais elevado da ilha, na cordilheira do Ramelau, significa “Pico do Avô”. Essa etimologia ganha evidência quando se assiste ao nascer do sol lá do alto. Não pelo Lorosa’e, magnífico e puro, mas pela sombra pontiaguda da montanha, uma sombra maciça, que por momentos, entre a noite e o dia, cobre todo o país para Poente, nas nossas costas. Quanto a Matebian, o grande maciço do Leste do país, santuário antropológico, que tem dois picos (o “Homem” e o “Mulher”, que é aliás o mais elevado, ao contrário do que dizem os mapas estrangeiros) significa “Casa dos Mortos” ou “Monte dos Mortos”, no sentido de morada dos antepassados. Que ambas as montanhas tenham sido santuários das Falintil, a resistência timorense, tem uma implicação espiritual que vai muito além do uso da topografia em táticas de guerrilha…

Um mito fundador do reino de Wehali, no centro da ilha, conta que esta terra foi “a primeira a ficar seca quando o mar primordial recuou”. O ataque à identidade timorense, sob a ocupação indonésia, foi também (sobretudo?) uma ofensiva de substituição cultural – em Timor alude-se à “javanização” do território. Porque a resistência não termina quando termina a ocupação, a primeira década de independência tem assistido a uma política consistente de recuperação de várias expressões culturais tradicionais timorenses, das quais a mais visível é a arquitetura. Arquitetura, em Timor-Leste, não é “apenas” o desenho e a solução física – também, mas não sobretudo. A casa sagrada, ou uma lulik, é o lugar correto do homem no cosmos. Os pilares são cardeais – orientam os mundos – e as portas são passagens entre um interior original e o exterior mundano. As portas, aliás, têm nome, além de terem códigos e interditos. Não é de estranhar que, em algumas regiões, as portas das uma lulik sejam nomeadas pelo mesmo vocábulo que designa o útero ou a vagina.

Construir a casa é fazer renascer simbolicamente o clã, um grupo que se reclama descendente de um mesmo antepassado mítico e que, em ocasiões específicas, se reúne para que os seus guardiões da palavra (literalmente, lia nain) repitam a narrativa constitutiva e diferenciadora do clã. A narrativa não é um hino. A lenda partilhada por todos é a pátria. É desta forma, certamente, que Timor-Leste assinalará no próximo 20 de maio o seu renascimento como clã alargado: um país é uma casa sagrada. A sua construção é uma sagração – e nada menos.

* Pedro Rosa Mendes, escritor, jornalista

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