domingo, 8 de julho de 2012

O BOSQUE EM FLOR



Rui Peralta

A estrada de Damasco

A oposição

As profundas divisões internas que caracterizam a oposição ao governo Sírio, podem ser analisadas a partir de uma dupla separação: 1) as que existem entre o exilio e o interior; 2) as que existem entre as forças políticas já activas antes das revoltas e as que foram criadas durante as revoltas.

Estas últimas assumiram formas de organização local. Nos bairros e cidades com maior mobilização formaram-se os Comités de Coordenação Local (CCL) que algum tempo depois formaram a Coordenadora Geral da Revolução (CGR). Por sua vez as forças políticas tradicionais da oposição só a muito custo formaram o Conselho Nacional Sírio (CNS), já em finais de 2011. O CNS é uma coligação de partidos, organizações e personalidades que demonstram uma enorme incapacidade de chegar a acordo entre si e de coordenar actividades com outras organizações.

Dominado pela Irmandade Muçulmana (IM), submisso aos USA, OTAN e estados do golfo, trabalha no exilio, o CNS opõe-se com particular ferocidade a um outro grupo no exilio a Coordenadora Nacional para a Mudança Democrática (CNMD) liderada por Haythem Manaa, intelectual e militante dos Direitos Humanos, residente em França. O CNMD é formado por diversos partidos e organizações com representatividade no interior, como o Partido Árabe Socialista Democrático (PASD), o Partido Comunista do Trabalho Sírio (PCTS), o Baas Democrático Árabe Socialista (BDAS), a Coligação de Esquerda Marxista (CEM) ou o Partido da Esquerda Curda na Síria (PECS).

A vontade de dirigir e de manipular politicamente as lutas no interior da Síria, por parte destas duas principais organizações no exilio não é geralmente correspondida pelas organizações locais surgidas durante os levantamentos. A ruptura é nítida, principalmente em relação ao CNS, que ao contrário do CNMD, é cada vez menos referido pelas organizações no interior.

O Exército Livre Sírio é uma organização paramilitar, que conta com fortes apoios da OTAN e dos estados do golfo. As suas relações com o CNS não são pacíficas e contam nas suas fileiras com os sectores radicais islâmicos e com os militares dissidentes. De início surgiram como bandos armados de radicais islâmicos sunitas, mas as suas estruturas militares evoluíram e efectuam operações militares de cada vez maior envergadura. São os responsáveis por alguns massacres, sendo depois as responsabilidades atribuídas às forças governamentais sírias. De bando armado evoluíram para unidade operacional da OTAN, por enquanto, embora a sua militância radical islâmica os torne uma força “inconveniente” no longo prazo.

A Frente Nacional Progressista

A FNP é uma Frente de sete partidos que é a base política do governo sírio. O seu principal partido é o Baas, partido histórico no mundo árabe, o partido de Al Assad e do actual presidente. A segunda força politica mais importante da FNP é o Partido Comunista Sírio (PCS), a ala Bakdash, nome de um dos seus dirigentes falecido em 1995. Após o golpe de estado em 1970 que conduziu Assad ao poder, o PCS aceitou integrar-se na FNP. Em 1972 surgiu uma cisão no PCS, liderada por Riyad At-Turk, que formou o PCS (Bureau Politico), partido que dirigiu até 2005, sempre na prisão. O PCS (BP) opunha-se á participação dos comunistas na FNP e recusava reconhecer o Baas como força dirigente, passando á oposição. Riyad At-Turk foi prisioneiro durante 19 anos e meio, sendo libertado pelo actual presidente, logo no início do seu mandato.

Os restantes 5 partidos da FNP (o Partido Nacional Social Sírio, o Partido Democrático Nacional, o Partido Progressista Árabe, a União Socialista Árabe da Síria e o Partido do Povo) são pequenos partidos pan-arabistas, socialistas e nacionalistas, que reconheciam o papel dirigente do Baas, reconhecimento que constava da anterior constituição síria, recentemente alterada. Quanto ao PCS (BP) está representado no CNS, sendo, para além da IM, a única força política do CNS activa na Síria e procura uma coordenação alargada a todos os sectores da oposição, no exilio e no interior.

A situação actual da luta de classes na Síria

A situação interna corre o perigo de desembocar numa guerra civil, o que representaria um importante passo nas intenções imperialistas de destruir a Síria, facilitando o avanço para o Irão. Uma Síria mergulhada na guerra civil criaria uma situação de grande instabilidade para toda a região e justificaria a intervenção estrangeira por “razões humanitárias” no caso da OTAN e dos USA e por razões de segurança no caso da Turquia e dos estados do golfo.

A ameaça imperialista tem favorecido alguma coesão em torno do governo sírio e tem evitado que largas camadas da população tomem uma posição mais firme em relação aos governantes sírios. A divisão está patente em todas as classes sociais na Síria. Do lado da burguesia nacional, uma parte importante continua a apoiar o regime, embora uma eventual situação de crise económica, agravada pelo bloqueio, possa gerar um sentimento de mudança, o que implicará um maior apoio às propostas do CNS e á tentativa de golpe de estado que conduzirá a uma situação de transição de poder. De qualquer forma a burguesia nacional tem sido um suporte importante do regime nas duas últimas décadas, em que o seu papel foi preponderante e a sua afirmação económica foi realçada pelo programa de liberalização económica encetada em princípios dos anos 90 e acelerada pelo gabinete do actual presidente. O socialismo deixou de constar na actual constituição, assim como o papel dos Baas e do sector publico, o que aumentou a preponderância política da burguesia nacional.

Os largos sectores da média e da pequena burguesia estão profundamente divididos, não só pela dicotomia cidade / campo, como também pelo facto de estas serem camadas que, se por um lado, foram beneficiadas pelas políticas do Baas nas últimas décadas (e em particular pela actual liderança), por outro lado chegaram aquele ponto em que a sua ascensão obriga a alterações no panorama politico sírio. O capitalismo necessita da democratização para florescer e a democratização da sociedade síria representa uma ruptura com a actual elite politica. No entanto existem largos sectores da média burguesia e da pequena burguesia que não conseguem sobreviver sem o actual regime. A guerra civil representaria a sua proletarização forçada e a mudança de regime liderada pelo CNS implica um risco enorme criado pela sua própria indefinição politica e pelo peso da IM e dos estados do golfo na sua estrutura interna. No entanto esta é a camada que tem alimentado os levantamentos e que está por detrás de muitos dos comités locais que lideram a contestação. Por enquanto ainda têm receio dos sectores mais radicais da oposição, caso do Exercito Livre da Síria (ELS), mas sente que alguma coisa tem de ser feita e alterada na política síria.

Os estudantes lideram o processo de oposição, embora virem as costas ao CNS e encontrem-se mais receptivos às propostas vindas do exilio por parte do CNMD. São o motor dos comités locais e da CCL e contam com o apoio das camadas da média e da pequena burguesia que assumiram a ruptura com o regime. Têm, até agora, manifestado preferência pelos levantamentos pacíficos, embora estabeleçam contactos esporádicos com o ELS. Quanto aos militares e aos funcionários públicos, a sua grande maioria é uma base de apoio do actual governo, sem o qual não existiriam. No entanto é bom não esquecer que o ELS é formado por militares, de todas as patentes e armas das forças armadas, que abandonaram o regime e que se juntaram aos radicais islâmicos que são a base desta organização. No entanto estes números de dissidências são ainda incipientes e é pouco provável que, tirando os militares dissidentes, os restantes funcionários públicos, policia e funcionários da segurança venham a opor-se ao seu ganha-pão, embora existam aqui algumas brechas. O PCS (BP) – que faz parte do CNS – detém alguma influência (reduzida mas activa) em meios sindicais da função pública (embora o PCS (B) e o Baas detenham a principal influencia).

Os camponeses são tradicionalmente influenciados pela IM, que com eles trabalha em questões sociais como o apoio na saúde e o apoio na educação das crianças das zonas rurais. Este trabalho social que a IM desenvolveu através de diversas organizações sociais religiosas islâmicas, contornando a legislação, permitiu á IM desenvolver uma importante influencia politica em grandes comunidades rurais. No entanto nas zonas rurais o mosaico cultural sírio é muito mais acentuado que nas grandes áreas urbanas, mais cosmopolitas e onde os cruzamentos entre diversas proveniências originaram uma cultura cosmopolita que é um importante elemento da unidade nacional síria. Em algumas zonas rurais a IM não consegue influencias por motivos culturais, o que também acaba por dividir os camponeses quanto á sua actuaçäo na dinâmica social síria. Divididos entre o apoio á IM (logo ao CNS e simpatizando com o ELS) e o apoio incondicional ao regime, nas comunidades de raiz xiita, os camponeses serão uma força chamada a desempenhar um papel crucial na altura determinante.

Quanto ao proletariado urbano apoia, ainda, maioritariamente a FNP e o governo. Os sindicatos são dominados pelo Baas e pelo PCS (B), as duas forças principais da FNP. O PCS (BP) da oposição, tem algumas simpatias em determinados sectores do movimento sindical e dos trabalhadores, mas muito reduzida, até pela repressão a que este partido foi submetido. De qualquer forma têm aparecido aos poucos, entre o proletariado urbano, alguns sinais de mal-estar no seu relacionamento com o regime. Por enquanto ainda constituem a grande maioria da sua base de apoio, mas se a situação se mantiver por muito mais tempo e se o país cair na guerra civil aberta, é bastante provável que destes sectores surja uma terceira força determinante na luta anti-imperialista.

A ofensiva imperialista

OTAN e USA, assim como a Turquia e os estados do golfo, apostam na guerra civil caso não sejam capazes de provocar a queda do legítimo (por enquanto) governo sírio. Esta é uma região geoestratégica vital para os interesses ocidentais. Apesar das promessas, democracia é coisa que não passa pela cabeça do imperialismo, nesta fase. A Síria não é vítima de um interesse de mercado (poderá vir a ser numa fase posterior) mas sim obstáculo aos desígnios imperialistas na região.

Convém no entanto lembrar aos teóricos das conspirações inatas que a dinâmica social não se compadece com planos prévios (estes são sempre planos falhados se não forem acompanhados pelo desenvolvimento das forças de classe) A questão na Síria não é apenas a CIA e a OTAN, e os estados do golfo e os turcos e a IM e o Baas. A questão na Síria é a fase actual da luta de classes, pelo que a situação tem de ser analisada sob o ponto de vista das dinâmicas sociais internas e das dinâmicas geopolíticas, que não são mais que as dinâmicas sociais no campo imperialista.

As reivindicações de vastas camadas da população síria são legitimas, assim como o seu governo e assim como as acusações feitas ao regime. Nem todas as reivindicações põem em causa a legitimidade do governo ou do regime, mas o regime, na estreiteza de análise que carateriza as burguesias nacionais, principalmente as que devem a sua ascensão ao poder politico, ou seja, ao estado, considerou ilegítimas as aspirações populares. No plano interno Bashar depende da soberania popular nas ruas, não da burguesia nacional ou da camada fiel dos seus funcionários directos e indirectos. No dia que os trabalhadores saírem para as ruas acaba-se o regime.

Por outro lado e nestas circunstâncias, o envolvimento imperialista acaba por constituir um aliado precioso para o regime. O que impede a decisão final de apoiar as mudanças democráticas que toda a gente na Síria sente serem necessárias é exactamente a ameaça imperialista. É essa ameaça que permite ao regime ser legitimado pelas forças populares que sabem perfeitamente (através da recente experiencia da Líbia) quais os objectivos do ocidente e dos estados do golfo, para os quais a Síria é um meio, sendo indiferente se o país é destruído ou se fica entregue a um grupo de fantoches, que imponham um regime neocolonial, como aconteceu no Iraque, na Líbia e no Afeganistão.

Fontes
El Viejo Topo 292, Mayo 2012

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