domingo, 27 de janeiro de 2013

A “INTELIGÊNCIA” RESOLVE – I



Martinho Júnior, Luanda

A hegemonia norte americana em África é hoje “incontestável” e isso sublinha, sob os pontos de vista sócio-político, económico e financeiro, a dependência do continente, o grau de subdesenvolvimento em que ele se encontra e quanto os processos neo coloniais redundantes da Guerra Fria (sobretudo advenientes das heranças do colonialismo e do “apartheid”) estão instalados e vão perdurar.

A globalização neo liberal recorre nas super estruturas do poder, subtilmente, às ideologias conservadoras, por vezes fascistas, para estabelecer o modelo e as democracias “representativas” que conformam o que a “comunidade internacional” (um chavão utilizado pelos recursos da hegemonia) tem preconizado para os estados: se as vulneráveis “sociais democracias” africanas não se sustentarem das ideologias conservadoras e dos expedientes delas decorrentes, poucas hipóteses têm para dar a volta aos riscos e ameaças que vão surgindo, quer por via religiosa, quer por via étnica, quer explorando as contradições entre as gerações, quer ainda em função das múltiplas contradições que resultam directamente da dialéctica social gerada pela via do “mercado” neo liberal.

É evidente que não é de admirar esse tipo de condutas, se tivermos em conta as lições da história e os percursos agora disponíveis para aqueles que são absorvidos pela lógica capitalista!

Quando o neo liberalismo foi instalado pela primeira vez no “laboratório” do Chile, como uma das suas primeiras “experiências”, foi-o recorrendo a um golpe de estado sangrento a 11 de Setembro de 1973, utilizando sectores militares importantes, assim como sectores dos serviços de inteligência chilenos (grupos identificados com os interesses da oligarquia nacional) e implantando uma ditadura, que agora pode ser dispensada em termos institucionais, mas é aplicada utilizando a ênfase económica, financeira e a psicologia de massas, adaptada às “representações” institucionalizadas no âmbito do “modelo social democrata” da “democracia representativa”…

Se a doutrina Bush, correspondendo ao “lobby” do petróleo e do armamento, foi responsável pela projecção do AFRICOM, foi a doutrina Obama que moldou o “carácter” do novel Comando, valorizando os aspectos de inteligência, persuasão, manipulação, influência e ingerência, bem como aglutinando factores históricos que advêm do passado colonial e neo colonial, conforme aos interesses sobretudo das multinacionais.

A administração Obama deu um cunho de “soft power” ao AFRICOM, para melhor se posicionar em relação à progressão da China no continente, sem contudo colocar de lado as condutas musculadas: reservou para si o papel da “inteligência” e determinou para os seus aliados e parceiros o papel de “correias de transmissão” para as suas políticas mais agressivas, num ramalhete neo colonial sem precedentes!

É um continente alvo de duas perspectivas dominantes em termos de correntes “soft power” (a da hegemonia norte americana segundo Obama e a da emergência da China, segundo até há pouco Hu Jin Tao) que procura responder às crises…

O único emergente africano, a África do Sul, actua nesse âmbito redundando os termos do que foi nela conseguido historicamente: a incidência da Revolução Industrial tirando partido da exploração de minerais estratégicos, com a instalação duma poderosa oligarquia a partir do elitismo de Cecil John Rhodes, um elitismo que agora é mais policromo e se vai estendendo a outros “pares”, componentes de distintos grupos étnico-raciais!

Para que a hegemonia norte americana se exerça em África os instrumentos disponíveis no AFRICOM foram moldados explorando métodos “inteligentes” e subtis, expressos em “programas” que não perdem de vista as condutas de dissuasão, de influência, de manipulação e de ingerência explorando os filões propiciados pela acção psicológica adequada ao tipo de interesses instalados ou a instalar, assim como à tipologia dos alvos sócio-políticos!

Nenhum emergente, (muito menos o elo menos evidente dos BRICS que é a África do Sul), por muita vocação multipolar que tenha, está a fazer frente a essa hegemonia sem precedentes nos seus aspectos mais agressivos… por isso os emergentes têm enorme dificuldade em fazer frente a essa persistente acção psicológica que se espelha nos espectros geo estratégios e geo políticos do neo colonialismo ocidental sob a égide anglo-saxónica!

As “primaveras árabes”, sustentadas nas experiências injectadas a partir da desagregação do socialismo real, são um dos “produtos acabados”.

O caso da Líbia contudo implicou na possibilidade de, instalando-se processos de choque e de desintegração institucional, se abrirem espaços em cadeia para rebeliões cujo manancial são as ideologias ultra conservadoras que animam tanto o campo “amigo” como o campo das consideradas “organizações terroristas” não “amigas”, mas sujeitas aos condicionalismos duma cada vez mais subtilmente artificiosa “inimizade”: o Mali é um exemplo da exploração desse “êxito”, que já está a provocar por seu turno outros rescaldos em cadeia, a começar com os últimos acontecimentos no Mali e, para começar, no leste da Argélia.

Para isso e por isso foi criado o AFRICOM!

Gravura: África está aprisionada nas teias da hegemonia, do neo colonialismo e do subdesenvolvimento.

A consultar:
- U.S. strategic interests and the role of the U.S. military in Africa – http://assets.opencrs.com/rpts/RL34003_20110322.pdf
- African Command – the newest combatant command – http://www.strategicstudiesinstitute.army.mil/pdffiles/ksil252.pdf
- A “nova” estratégia Americana para África – http://www.revistamilitar.pt/modules/articles/article.php?id=195
- Soft power – Wikipedia – http://en.wikipedia.org/wiki/Soft_power
- More than humanitarism: a strategic US aproach toward Africa – http://www.cfr.org/content/publications/attachments/Africa_Task_Force_Web.pdf
- "El socialismo europeo está metido con el colonialismo en Africa" – http://www.rebelion.org/noticia.php?id=162355&titular="el-socialismo-europeo-está-metido-con-el-colonialismo-en-africa"-
- Previsão de aumento de tensões em África – Martinho Júnior – publicado no Página Um a 13 de Outubro de 2008 (fora do arquivo).
- O caminho das Trevas! A “ditadura democrática” da aristocracia financeira mundial – I – http://paginaglobal.blogspot.com/2012/01/o-caminho-das-trevas-ditadura.html
- “Jogos africanos do neo colonialismo norte americano” –http://paginaglobal.blogspot.com/2012/05/jogos-africanos-do-neocolonialismo.html

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