Martinho Júnior,
Luanda
A hegemonia norte
americana em África é hoje “incontestável” e isso sublinha, sob os pontos de
vista sócio-político, económico e financeiro, a dependência do continente, o
grau de subdesenvolvimento em que ele se encontra e quanto os processos neo
coloniais redundantes da Guerra Fria (sobretudo advenientes das heranças do
colonialismo e do “apartheid”) estão instalados e vão perdurar.
A globalização neo
liberal recorre nas super estruturas do poder, subtilmente, às ideologias
conservadoras, por vezes fascistas, para estabelecer o modelo e as democracias “representativas”
que conformam o que a “comunidade internacional” (um chavão utilizado pelos
recursos da hegemonia) tem preconizado para os estados: se as vulneráveis “sociais
democracias” africanas não se sustentarem das ideologias conservadoras e dos
expedientes delas decorrentes, poucas hipóteses têm para dar a volta aos riscos
e ameaças que vão surgindo, quer por via religiosa, quer por via étnica, quer
explorando as contradições entre as gerações, quer ainda em função das
múltiplas contradições que resultam directamente da dialéctica social gerada
pela via do “mercado” neo liberal.
É evidente que não
é de admirar esse tipo de condutas, se tivermos em conta as lições da história
e os percursos agora disponíveis para aqueles que são absorvidos pela lógica
capitalista!
Quando o neo
liberalismo foi instalado pela primeira vez no “laboratório” do Chile, como uma
das suas primeiras “experiências”, foi-o recorrendo a um golpe de estado
sangrento a 11 de Setembro de 1973, utilizando sectores militares importantes,
assim como sectores dos serviços de inteligência chilenos (grupos identificados
com os interesses da oligarquia nacional) e implantando uma ditadura, que agora
pode ser dispensada em termos institucionais, mas é aplicada utilizando a
ênfase económica, financeira e a psicologia de massas, adaptada às “representações”
institucionalizadas no âmbito do “modelo social democrata” da “democracia
representativa”…
Se a doutrina Bush,
correspondendo ao “lobby” do petróleo e do armamento, foi responsável pela
projecção do AFRICOM, foi a doutrina Obama que moldou o “carácter” do novel
Comando, valorizando os aspectos de inteligência, persuasão, manipulação,
influência e ingerência, bem como aglutinando factores históricos que advêm do
passado colonial e neo colonial, conforme aos interesses sobretudo das
multinacionais.
A administração
Obama deu um cunho de “soft power” ao AFRICOM, para melhor se posicionar em
relação à progressão da China no continente, sem contudo colocar de lado as
condutas musculadas: reservou para si o papel da “inteligência” e determinou
para os seus aliados e parceiros o papel de “correias de transmissão” para as
suas políticas mais agressivas, num ramalhete neo colonial sem precedentes!
É um continente
alvo de duas perspectivas dominantes em termos de correntes “soft power” (a da
hegemonia norte americana segundo Obama e a da emergência da China, segundo até
há pouco Hu Jin Tao) que procura responder às crises…
O único emergente
africano, a África do Sul, actua nesse âmbito redundando os termos do que foi
nela conseguido historicamente: a incidência da Revolução Industrial tirando
partido da exploração de minerais estratégicos, com a instalação duma poderosa
oligarquia a partir do elitismo de Cecil John Rhodes, um elitismo que agora é
mais policromo e se vai estendendo a outros “pares”, componentes de distintos
grupos étnico-raciais!
Para que a
hegemonia norte americana se exerça em África os instrumentos disponíveis no
AFRICOM foram moldados explorando métodos “inteligentes” e subtis, expressos em
“programas” que não perdem de vista as condutas de dissuasão, de influência, de
manipulação e de ingerência explorando os filões propiciados pela acção
psicológica adequada ao tipo de interesses instalados ou a instalar, assim como
à tipologia dos alvos sócio-políticos!
Nenhum emergente,
(muito menos o elo menos evidente dos BRICS que é a África do Sul), por muita
vocação multipolar que tenha, está a fazer frente a essa hegemonia sem
precedentes nos seus aspectos mais agressivos… por isso os emergentes têm
enorme dificuldade em fazer frente a essa persistente acção psicológica que se
espelha nos espectros geo estratégios e geo políticos do neo colonialismo
ocidental sob a égide anglo-saxónica!
As “primaveras
árabes”, sustentadas nas experiências injectadas a partir da desagregação do
socialismo real, são um dos “produtos acabados”.
O caso da Líbia
contudo implicou na possibilidade de, instalando-se processos de choque e de
desintegração institucional, se abrirem espaços em cadeia para rebeliões cujo
manancial são as ideologias ultra conservadoras que animam tanto o campo “amigo”
como o campo das consideradas “organizações terroristas” não “amigas”, mas
sujeitas aos condicionalismos duma cada vez mais subtilmente artificiosa “inimizade”:
o Mali é um exemplo da exploração desse “êxito”, que já está a provocar por seu
turno outros rescaldos em cadeia, a começar com os últimos acontecimentos no
Mali e, para começar, no leste da Argélia.
Para isso e por
isso foi criado o AFRICOM!
Gravura: África
está aprisionada nas teias da hegemonia, do neo colonialismo e do
subdesenvolvimento.
A consultar:
- U.S. strategic
interests and the role of the U.S. military in Africa – http://assets.opencrs.com/rpts/RL34003_20110322.pdf
- Why AFRICOM? –
Theresa Welan – http://no0ilcanarias.files.wordpress.com/2012/10/why-africom-whelan-august20071.pdf
- African Command –
the newest combatant command – http://www.strategicstudiesinstitute.army.mil/pdffiles/ksil252.pdf
- A “nova” estratégia
Americana para África – http://www.revistamilitar.pt/modules/articles/article.php?id=195
- Soft power –
Wikipedia – http://en.wikipedia.org/wiki/Soft_power
- Is (his)
biography (our) destiny? – http://www.nytimes.com/2007/11/04/magazine/04obama-t.html?_r=2&hp=&oref=slogin&pagewanted=all
- AFRICOM: soft
power – http://www.chathamhouse.org/sites/default/files/public/The%20World%20Today/2011/ywy0111p22afr.pdf;
http://www.chathamhouse.org/node/169973
- More than
humanitarism: a strategic US aproach toward Africa – http://www.cfr.org/content/publications/attachments/Africa_Task_Force_Web.pdf
- "El socialismo
europeo está metido con el colonialismo en Africa" – http://www.rebelion.org/noticia.php?id=162355&titular="el-socialismo-europeo-está-metido-con-el-colonialismo-en-africa"-
- Guerras do século
XXI – http://recil.grupolusofona.pt/bitstream/handle/10437/232/ignacio_ramonet.pdf?sequence=1
- Previsão de
aumento de tensões em África – Martinho Júnior – publicado no Página Um a 13 de
Outubro de 2008 (fora do arquivo).
- O caminho das
Trevas! A “ditadura democrática” da aristocracia financeira mundial – I – http://paginaglobal.blogspot.com/2012/01/o-caminho-das-trevas-ditadura.html
- “Jogos africanos
do neo colonialismo norte americano” –http://paginaglobal.blogspot.com/2012/05/jogos-africanos-do-neocolonialismo.html
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