sábado, 2 de janeiro de 2016

2015, O ANO DAS TEMPESTADES



A falta de visão e de capacidade de agir em conjunto dos dirigentes europeus caraterizou um ano marcado por várias crises que abalaram violentamente a Europa. Precisamos de um abanão em termos de solidariedade e cooperação, estima um economista francês.

Thierry Vissol - VoxEurop

2015 acabou. E ainda bem, pois não foi um dos melhores anos que tivemos.

Foi um ano de tempestades de todos os tipos: climáticas, terroristas, migratórias, económicas e políticas.

Na verdade, todas estas tempestades eram previsíveis. E, para cada uma delas, existem eventuais soluções que os nossos líderes políticos – a nível mundial e europeu – não foram capazes de implementar. Vejamos dois exemplos.

Desde o início da era industrial, as temperaturas globais aumentaram cerca de 0,8 °C. Pode não parecer muito, mas, segundo a ONU, 90% das catástrofes naturais estão atualmente ligadas ao clima. Desde 1995, estas catástrofes custaram a vida a 606 mil pessoas e afetaram 4,1 mil milhões de pessoas. Nos primeiros seis meses deste ano, cerca de 16 mil pessoas perderam a vida e os desastres climáticos estão avaliados em cerca de 40 mil milhões de euros.

COP21 foi um sucesso, pois o acordo alcançado em Paris permitirá limitar o aquecimento global a 1,5 °C até ao final do século. No entanto, precisamos de esperar para ver como o acordo será implementado. O texto ainda tem de ser ratificado pelos signatários, algumas medidas restritivas ainda estão suspensas e a ajuda aos países mais pobres só deverá chegar em 2020. Além disso, a descarbonização não está em causa.

Na Europa, a estratégia energética foca-se nas políticas de proteção ambiental e isto representa por si só uma grande vitória. No entanto, cabe a cada país decidir o seu cabaz energético e se pretende ou não continuar a utilizar carvão.

Mas, se o impacto de um aquecimento de 0,8 °C já foi dramático, o que acontecerá quando este valor se duplicar, conforme o limite acordado em Paris?

A outra grande questão que marcou 2015 foi o terrorismo islamita, que também já é familiar. Há mais de 20 anos que se tem vindo a desenvolver no mundo, expandindo-se desde o Médio Oriente ao norte de África e à África subsariana.

Desde o início do ano, já ocorreram mais de 30 atentados islamitas, 9 na Europa. Contam-se 152 vítimas na Europa e 1087 no resto do mundo. Portanto, desde os atentados do 11 de setembro de 2001, apesar das guerras travadas no Afeganistão, no Iraque e na Líbia – e dos seus resultados duvidosos –, foi feito muito pouco para enfrentar verdadeiramente o problema. Precisamos de estratégias globais e de instrumentos de cooperação eficazes.

Na Europa, dispomos de vários mecanismos de cooperação, tal como o SIS, a Interpol, a Europol, a Eurojust, etc. No entanto, estes não são suficientes, pois os países recusam-se a cooperar de forma verdadeiramente solidária. O responsável europeu para a luta contra o terrorismo, Gilles de Kerchove, observou com amargura que temos serviços pertinentes e avançados, mas continuamos sem vontade de cooperar e de implementar uma política conjunta. Segundo este, 95% das responsabilidades permanecem a nível nacional.

Podíamos dizer o mesmo da gestão do fluxo migratório, tendo em conta o caráter dramático da situação, o número de pessoas que morreram a tentar chegar à Europa e o impacto deste novo fluxo nas comunidades europeias.

Perante esta aparente incapacidade de reação dos responsáveis políticos, perante o poder de uma indústria financeira globalizada – que decididamente não tem o interesse público como principal prioridade –, não admira que a abstenção eleitoral se tenha tornado a principal escolha política e que o medo e a ira dos eleitores se traduzam na crescente ascensão de partidos nacionalistas, antieuropeus e xenófobos.

Não nos podemos esquecer de que todas as ditaduras começaram após situações de crise e que conquistaram o poder nas urnas. Precisamos urgentemente que os partidos democráticos mudem de direção, para que as nossas frágeis democracias deixem de ser ameaçadas por estas tempestades. Para tal, os europeus precisam de dar provas de mais solidariedade e cooperação.


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