sexta-feira, 22 de julho de 2016

Angola. ALEGRIA E REVOLTA

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José Eduardo Agualusa – Rede Angola, opinião

Se o caso dos 15 + duas fosse um desafio de xadrez, a anunciada amnistia, recentemente aprovada, a qual liberta todos os condenados até 12 anos por crimes não violentos, poderia ser considerada uma jogada muitíssimo hábil por parte do governo. Trata-se de um improvável xeque-mate, num jogo que, até ao momento, estava a ser claramente dominado pelos revús. Com esta jogada o regime encerra uma longa e burlesca série de desvarios e disparates, que o vinha corroendo por dentro e por fora. Consegue, além disso, não perder inteiramente a face: os revús saem, sim, mas não inocentados. Esta jogada pode impedir também os  15 + duas de perseguirem judicialmente o Estado angolano.

Não se tratando de um desafio de xadrez, mas da vida de pessoas inocentes, não há como não nos alegrarmos. Alegramo-nos por saber que se encerra uma situação de aflitiva injustiça, ainda que essa alegria não atenue a revolta. Os jovens democratas permaneceram presos durante um ano. Não consigo nem imaginar o sofrimento por que passaram ao longo de todos esses meses, juntamente com as respectivas famílias. O Estado angolano roubou-lhes um ano de vida. Sujeitou-os a um sem fim de pequenas humilhações e de enormes injustiças. Troçou deles e do país inteiro.

E fica assim mesmo?

Ninguém é responsabilizado? Não se indemnizam as vítimas?

Pode ser que este seja o fim do processo dos 15 + duas. O fim de um jogo. Contudo, o torneio continua. Outros jogos começam agora, com os mesmos jogadores. Não é de prever que os revús baixem os braços. Saem para a liberdade com uma audiência que nunca tiveram; com uma grandeza que sempre foi deles, mas que os adversários se recusavam a ver e, finalmente, com uma tremenda  autoridade moral.

Há um ano atrás poucos os escutavam. Hoje, todos – dentro e fora do país – os querem escutar. Li com atenção as entrevistas que Domingos da Cruz e Luaty Beirão concederam ao Rede Angola. Li outras entrevistas e declarações. São, todas elas, uma comovente lição de solidariedade e generosidade. Não percebi nelas uma sombra de rancor. Os jovens revús manifestam-se preocupados com as condições  dos presos de delito comum. Reconhecem qualidades humanas em muitos dos guardas e dos funcionários do sistema prisional. Mostram-se sempre mais preocupados com os outros do que com eles próprios.

A luta pela democracia ainda está longe do fim. Nos próximos meses irá ganhar um novo fôlego, uma outra força. Quando um dia, democratizado e pacificado o país, se escrever a história do combate por uma Angola melhor, os 17 nomes dos jovens revús terão largo destaque.

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