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domingo, 29 de janeiro de 2017

EUA, O TITÃ EPILÉTICO – PERIGOSO COMO UMA FERIDA



Christophe Trontin

Desde o 11 de setembro de 2001 os EUA deixaram de ser como eram. Com a eleição de Donald Trump, continuam a sua descida aos infernos. Os EUA triunfantes, imperiais, dominadores, às vezes generosos, estão irreconhecíveis. Vejam-se debates no Youtube, entrevistas na Fox News, na CBS, na HBO... A paranóia atingiu níveis desconhecidos desde a época do macarthismo.

O mundo é visto ao contrário através do espelho da duplicidade de critérios: os carrascos, erigidos em vítimas. Fazendo pirataria informática desde há décadas em servidores e routers por todo o mundo, a empresas e Estados, aliados ou inimigos, eles queixam-se agora de "cyber-ataques" russos e chineses; patrocinam centenas de grupos terroristas e ONGs subversivas, mas temem os ataques da Al-Qaeda e do Daesh. Campeões da manipulação de eleições estrangeiras, fulminam Putin que teria alterado a sua.

Rumores, afirmações, relatos interpretados e reinterpretados até à náusea... O síndroma das conspirações e complôs alastra como um cancro desde as camadas mais modestas até às castas mais privilegiadas de Washington. Barack Obama cedeu ao ambiente de histeria e denúncia sem provas, a "mão de Moscovo", que teria feito eleger Donald Trump (sem, no entanto, veja-se o disparate, ter influenciado o voto ou a contagem dos votos, de acordo com o relatório da CIA e com o FBI a reservar a sua posição).

Expulsão de diplomatas, reforço das sanções, demonização mediática sem precedentes do presidente Putin, tudo isto leva a medidas desesperadas, mesmo que ineficazes, para interferir tanto quanto possível nas relações da futura administração com o Kremlin. Mesmo antes da entrada em funções do bilionário o populismo assentou arraiais na Casa Branca, o futuro poder vai abertamente ser uma luta entre os magnatas do petróleo e os membros da família.

Nepotismo, corrupção, histeria dos media: o colapso do império.

As eleições de novembro de 2016 revelaram a amplitude do mal-estar. Durante a campanha, muitos americanos lamentaram as escolhas desastrosas em que estavam envolvidos. Num país cheio de pessoas criativas, carismáticas e talentosas, esta alternativa entre a peste e a cólera que o sistema primário lhes tinha deixado foi algo de surreal, escandaloso.

Os EUA abordam uma fase crítica de sua história e o mundo inteiro com eles. O risco é enorme: perigosos como uma fera ferida, vêem inimigos nos quatro cantos do mundo. Envolvidos numa lógica cheia de contradições, entregam-se a uma guerra implacável, por interpostos aliados. Cegos pelas suas dores, atormentados por um terror impotente, reagem com exagero, golpeiam, descontrolam-se, parecem prontos para arrastar o resto do mundo a qualquer momento para uma guerra mundial suicida.

Observando os violentos discursos que grassam nos ecrãs americanos, é como se revíssemos os do fim da União Soviética. A dimensão da catástrofe não é a mesma (ainda), mas a síndrome é semelhante. Um país acostumado à supremacia, a uma obediência incondicional dos seus vassalos, ao temor respeitoso dos seus inimigos, acorda e vê-se de repente a nu, endividado, ridicularizado. Em todas as frentes onde alguma vez dispôs a sua força incomparável, apareceram inimigos ou reforçaram-se os que desafiavam a sua supremacia. A sua superioridade militar é disputada, o seu domínio económico não é mais do que uma memória. O privilégio exorbitante do dólar, coração do sistema está ameaçado.

Mas há pior. As políticas de curto prazo, a corrupção maciça, os gastos irresponsáveis causados pelas aventuras militares recentes, causaram um caos interno bem analisado por alguns observadores estrangeiros e completamente ignorados pela maior parte dos analistas dos EUA, num curioso exercício de negação nos media. Bernie Sanders foi o único a fazer soar o alarme, e mesmo que tenha sido ouvido por um grande número de cidadãos das classes pobres, foi rapidamente afastado por Clinton e a elite liberal do Congresso democrático.

Endividamento maciço dos estudantes, superpopulação prisional, polícia perseguindo impunemente os cidadãos, desbragado populismo dos juízes, devastação social pelos empréstimos usurários às camadas populares, ausência de protecção social para os trabalhadores pobres, desigualdade de rendimentos e patrimónios superior a todos os registos históricos conhecidos, retorno das tensões raciais... A sociedade dos EUA está doente, a sua condição deteriora-se e a presença de armas de fogo em cada armário ou gaveta do país é uma bomba relógio que espera a sua hora. De um momento para o outro, aparentemente assim que Donald Trump tiver esgotado sua capacidade já muito limitada de promover a unidade, o desespero irá explodir e o país dividir-se.

As consequências serão terríveis para os EUA e para o mundo. Os humoristas associam-se a esta ideia e sugerem que Donald Trump não seria o 45º, mas o último presidente dos EUA. E se estiverem certos?

Muito se divagou sobre a periculosidade de Saddam Hussein ou Kim Jong-un. Sobre a necessidade de desarmar o Irão. Sobre a ameaça chinesa, sobre o intervencionismo de Putin. Deve notar-se que essas ameaças e riscos são apenas bagatelas face a uns EUA desestabilizados lutando contra seus fantasmas, querendo tratar todos os problemas com bombardeamentos e projectando o seu caos num número crescente de países. Quem o trará à razão? Quem o vai desarmar? Quem provocará uma indispensável mudança de regime... em Washington?

Mais que ridicularizar os infortúnios da ex-primeira potência, o resto do mundo faria melhor em se preocupar com as consequências catastróficas do seu agora provável colapso. Tomar tal como a China, a Rússia e sem dúvida outros, discretas medidas preventivas para ficar na medida do possível longe das convulsões do titã epiléptico. 

O original encontra-se em

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