sexta-feira, 31 de março de 2017

ALDEIA DOS MACACOS ERA MAIS CIVILIZADA DO QUE NA BANCARIA E EM CHELAS

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Expresso Curto com Ricardo Costa na máquina da cafeína. Que vamos vender um banco, escreve ele. E quanto é que essa “venda” nos vai custar, ilustre Ricardo? Pois. A fatura vai ser apresentada depois? Então não está bem. Então não vamos vender um banco. Vamos doar. Aliás, como todos os outros em que tivemos de pagar as desbundas da ladroagem dos gestores, administradores e outras dores causadas pela ladroagem da bancaria mafiosa que abunda por todo o mundo. Ah! Mas existem os honestos, dirão. Pois. É suposto que existam. Convém acreditar nisso até que se conclua que afinal não é bem assim. Tempo passado vamos concluir algumas meias-verdades e conclusão de factos. Então sim. Concluiremos que estamos a pagar, a pagar, a pagar… Mas eles é que são donos dos bancos e donos disto tudo. Nós somos os trouxas do costume. Os que pagam mas passam fome, até da dignidade que nos andam sempre a roubar.

Todos as crianças que há muitos anos frequentaram o Jardim Zoológico de Lisboa, talvez há uns 60 anos, tinham um local do referido local a visitar como num santuário: a Aldeia dos Macacos. Ali podíamos ver como eles viviam em comunidade. Funcionavam no toma lá dá cá. Parecia que diziam “tens amendoins e eu tenho uma maçã”. Ora toma lá, dá cá. Trocavam. Se um deles fizesse batota a trupe perseguia-o, dava-lhe uma surra e deixava-o solitário, num canto. Retirava-lhe a maçã e os amendoins, ao Chico Esperto. Afinal, pelo que víamos, eles tinham códigos de comportamento, de honra, de justiça. Quem estivesse atento percebia isso. Atualmente talvez ainda seja assim, se lá ainda existir a Aldeia dos Macacos.

É sabido que os banqueiros não se iam dar bem nessa Aldeia dos Macacos ao quererem ficar com as maçãs e os amendoins e deixarem os outros depenados. Na miséria, ou perto.

Também na Aldeia dos Macacos existiam elementos ordinários, atrevidos, zaragateiros, e até criminosos, na sistemática postura de parasitas. Esses estavam nos cantos, digamos que nos guetos… Mas eram controlados. Se pusessem uma pata em riste, se pisassem o “risco”, não lhes faltava castigo pela certa, em defesa da civilidade macacal. Dos primatas.

Recordar aquela aldeia dá para perceber que tinha regras e que tinham de ser cumpridas. Percebia-se que afinal os símios possuíam a sua própria noção de civismo comportamental. Ainda acontecerá assim no Jardim Zoológico?

Bem, lá por esse jardim e por essa tal aldeia não sabemos. O que sabemos é que em Chelas isso não acontece, entre supostos… humanos.

Bairros sociais: guetos em que pessoas civilizadas fazem os possíveis por manter a pacatez e normalidade por entre incivilizados que se estivessem na Aldeia dos Macacos seriam limitados aos cantos em vez de fazerem do todo habitacional um gueto. Zonas de má-fama onde muitos nada têm que ver com os comportamentos criminosos, ilegais e incivilizados de uns quantos bandos.

Podemos concluir que, afinal, a Aldeia dos Macacos era mais civilizada que a bancaria em Chelas?

Pelo visto naquilo que foi manchete ontem numa escola do gueto Chelas – em que jornalistas foram agredidos – podemos concluir que melhor era a referida aldeia símia. O mesmo se conclui relativamente à bancaria e afins, que ficam com maçãs e amendoins impunemente. Ladrões de colarinho branco com o fito de lucrarem por via dos prejuízos de toda a restante comunidade. E lucram.

Na foto: a Aldeia dos Macacos, deserta. (PG)

Bom dia, este é o seu Expresso Curto 

Ricardo Costa – Expresso

Sorria, hoje vai vender um banco

Nacionalizar, capitalizar, resolver, liquidar, vender. Na última década já fizemos de tudo com os bancos que foram caindo ao colo do Estado. As soluções foram sempre diferentes, mas custaram sempre dinheiro aos contribuintes. O modelo de hoje é muito diferente porque a resolução do Banco Espírito Santo foi um caso inédito no panorama europeu.

O que lá vai, lá vai - contas incluídas -, porque agora chegou o dia de despacharmos o Novo Banco. O comprador é o famoso fundo Lone Star, que é tudo menos um banco, mas que tem fama de nunca perder dinheiro por onde passa. Aliás, tem fama de ganhar sempre muito dinheiro por onde passa.

E é aqui que os mais básicos princípios da dúvida metódica nos levam a fazer esta pergunta: Se o Lone Star vai ganhar dinheiro com a compra do Novo Banco, nós não vamos perder? Hum…

A resposta não é simples. Para trás há muito dinheiro que fica às costas do Fundo de Resolução, propriedade de todos os bancos, dos seus acionistas e… clientes. Para a frente fica o negócio bancário, a recuperação de créditos, a litigância e aquilo a que se chama o side bank.

Na recuperação de créditos é difícil encontrar alguém que saiba mais da poda que fundos como o Lone Star, a que Francisco Louçã costuma chamar flibusteiros, numa referência aos piratas dos mares americanos. O negócio bancário há de ser racionalizado – como se diz agora – para que um dia encaixe num processo de consolidação bancária europeu.

O problema está no resto, na litigância e no side bank, sendo que as coisas estão ligadas. Não foi por acaso que o Lone Star ficou sozinho numa corrida que tinha muitos pseudo interessados. Os pormenores do acordo serão hoje anunciados em conferência de imprensa pelo Ministro das Finanças. Mas já há algumas pistas nas notícias da manhã.

No jornal online ECO escreve-se que o Novo Banco vai beneficiar de uma garantia pública, através do Fundo de Resolução, de quase quatro mil milhões para cobrir riscos de crédito do chamado side bank. No Jornal de Negócios a questão ganha outros contornos, afirmando-se que o Estado pode ter de injetar dinheiro no Novo Banco a partir de 2019, porque o Fundo de Resolução pode ter de cobrir perdas com os ativos problemáticos.

Por falar em contas, o Público chegou à conclusão de que o Banco de Portugal já gastou em assessoria financeira e jurídica externa mais de 25 milhões de euros, só entre Agosto de 2014 e o final de 2016. Tudo isto para acompanhar o caso do Banif e essencialmente o processo do Novo Banco. Repitam comigo: vinte-e-cinco-milhões!

Notícia da madrugada. A assembleia geral da Associação Mutualista Montepio aprovou as contas de 2016 com mais de 95% dos votos, numa reunião muito participada. Tomás Correia, presidente da mutualista, defende que os associados “tiveram também a oportunidade de ver esclarecidas todas as suas dúvidas sobre temas relacionados com a vida associativa".

É tudo sobre bancos e aparentados. Vamos ao resto. E no resto, há coisas que nunca falham: Trump a abrir.

OUTRAS NOTÍCIAS

Pois bem, em mais um dia atarefado, Donald Trump vai anunciar hoje medidas que ataquem o défice comercial dos EUA. Aparentemente, o Presidente dos EUA quer que se façam dois tipos de avaliações, país a país e produto a produto, nos próximos 90 dias. Tudo para começar a corrigir um défice que foi central à sua campanha e é muito caro à sua retórica e aos seus apoiantes. Como é que isso se faz em mercado aberto e num país que defende o livre comércio é o que vamos ver.

Tudo isto acontece a muito poucos dias da reunião mais importante destes primeiros meses do novo inquilino da Casa Branca. Trump recebe na próxima semana no seu resort de Mar-a-Lago o Presidente chinês Xi Jinping, num momento de enorme tensão entre os dois países.

Para não variar, Trump recorreu ao twitter para deixar duas mensagens. Primeiro para dizer que o encontro com Xi Jinping será “muito difícil” por causa do atual défice comercial e, num segundo tweet, por causa da perda de empregos, deixando um conselho às empresas americanas, que devem encontrar “alternativas” (!).

Ainda nos EUA, numa surpreendente posição, o General Michael Flynn, ex-conselheiro de segurança nacional de Trump, terá aceitado testemunhar junto do FBI e do Congresso em troca de imunidade! A investigação envolve as alegadas ligações à Rússia de Flynn e da campanha do atual Presidente dos EUA, mas o pedido de imunidade foi considerado surpreendente.

Ao longo do dia, é importante manter a atenção à Venezuela, onde o Supremo Trbunal, controlado por Nicolas Maduro, decidiu que vai passar a legislar, naquilo que está a ser considerado um golpe de estado. Já nada nos espanta na Venezuela, mas a anulação dos poderes legislativos da Assembleia Nacional, onde a oposição a Maduro tem maioria, em favor do ramo judicial é surpreendente e perigosa, num país que vive à beira do precipício. A oposição prometeu sair hoje à rua, convocando protestos populares.

No Brasil, vive-se a ressaca da condenação de Eduardo Cunha, o ex-todo poderoso Presidente da Câmara dos Deputados e figura central na destituição de Dilma Roussef. Cunha foi condenado a 15 anos de prisão, por crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, num processo que está abanar toda a política brasileira e que já ameaça Michel Temer.

Por cá, o Conselho de Estado debate hoje o comércio global, tendo como convidado o diretor-geral da Organização Mundial de Comércio, o brasileiro Roberto Azevedo. O diretor da OMC é a segunda personalidade estrangeira que Marcelo Rebelo de Sousa convida para participar numa reunião do Conselho de Estado, depois do presidente do BCE, Mario Draghi.

O Diário de Notícias puxa à primeira página o programa eleitoral do PSD para Lisboa, que, entre muitas propostas, defende o aumento da taxa turística para 1,5 euros (é de 1 euro) e a eliminação da polémica taxa de proteção civil. A lista de propostas, divulgada pelo DN, que dará que falar na campanha, vai da ideia de um cheque-bebé de mil euros por cada filho nascido de residentes de Lisboa à atribuição de um abono de família aos pais com mais dificuldades ou o prolongamento do horário das creches e jardins de infância na cidade.

Além da reabilitação urbana, é prometido estacionamento gratuito em toda a cidade entre duas e três horas e a distribuição de manuais escolares no segundo ciclo. Tudo isto provocara muita discussão, mas só a partir de segunda-feira porque amanhã acontece uma coisa importante na segunda circular que promete parar boa parte de Lisboa... e do Porto.

Amanhã é dia de clássico. Benfica e Porto jogam na Luz às 20h30, numa partida que pode decidir a liderança do campeonato. Na Bola, a manchete vai para a guerra de bilhetes que agita o jogo porque há bilhetes atribuídos ao Benfica que terão ido parar às mãos de adeptos portistas. No Jogo, o destaque vai para declarações de Nuno Espírito Santo, que garante ir à Luz para “controlar e dominar”. O tema vai dominar os noticiários do fim de semana

FRASES

“Não há ninguém que diga que o Euro funciona. É melhor dizer que o rei vai nu”. Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, em entrevista ao i

“A assiduidade não é bitola da qualidade de um vereador”. Teresa Leal Coelho, candidata do PSD à Câmara Municipal de Lisboa , em entrevista ao Observador

“Esta pistola era de um polícia que eu matei”. Pedro Dias, numa frase da alegada confissão, que faz manchete no Correio da Manhã

“Ganhará o clássico quem for emocionalmente mais forte”. Jesualdo Ferreira, ex-treinador do Benfica e do Porto, numa entrevista no Diário de Notícias

O QUE EU ANDO A LER

A passagem dos dias no continente europeu recomenda um recuo de cem anos. Não faltam livros sobre a revolução russa, sobre a I Guerra Mundial, sobre os paralelismos com os populismos e extremismos de então, e os conflitos que alguns anteviram mas poucos tentaram travar.

Sobre o Portugal de então, na jovem e atribulada República, também há muita e boa literatura. Mas sobre o assunto que Maria José Oliveira decidiu investigar há pouca coisa. O seu “Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial” (editado pela Saída de Emergência) é o mais completo trabalho sobre um tema tabu da nossa história, silenciado pela República, escondido pelo Estado Novo e pouco estudado depois do 25 de Abril.

A autora, ex-jornalista do Público e mestre em história contemporânea (pode ouvir aqui uma entrevista sua à TSF), faz uma detalhada recolha de testemunhos de uma tropa mal preparada, enviada para uma guerra que mal percebia, onde muitos acabaram gaseados ou dizimados pela artilharia alemã. Muitos outros, felizmente, escaparam com vida, mas um grande número acabou em campos de internamento, em condições miseráveis, com quase nada para comer ou a quem recorrer. É a história desses milhares de presos que aqui nos é contada.

As cartas enviadas para familiares, muitas reveladas aqui em primeira mão, bem como muitos outros documentos, não contribuem em nada para o orgulho nacional. Mas são de um realismo incrível e fazem deste livro – muito bem escrito e estruturado – uma obra fundamental para perceber o lado mais escondido da nossa participação na frente europeia em 1917 e 1918.

O Expresso Curto termina aqui, o dia segue no Expresso Online enquanto a redação prepara mais uma edição semanal do Expresso, que está amanhã bem cedo nas bancas. Pelo meio, já sabe, vamos todos vender 75% de um banco e fazer figas para que os nossos sócios do Lone Star tenham uma vida próspera enquanto desfrutam da nossa companhia.Bom dia e bom fim de semana.

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