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segunda-feira, 13 de março de 2017

GUARDIÕES DO DINHEIRO


Domingos de Andrade – Jornal de Notícias, opinião

Mais coisa, menos coisa. O Banco de Portugal tem quase 1800 funcionários. Que recebem cinco mil euros mensais. Faça-se a média. Tudo isto peca por defeito. Há valores acima e valores abaixo. Tem um governador, dois vice-governadores, três administradores. Que recebem na ordem dos 14 mil euros.

É fácil vociferar contra a instituição e ser demagógico. O que anda toda aquela gente a fazer que não consegue sequer cumprir a missão básica de ler os sinais para que pelo menos os portugueses possam ter confiança no regulador? Não é bola de cristal. É trabalho de terreno.

Tendo Carlos Costa sido inapto, para não dizer mais, incapaz de ver o que lhe passava debaixo dos olhos pelo menos no caso BES, advogando agora que sabia mas que não sabia tanto quanto isso, e que lhe faltavam os poderes para atuar perante o que sabia, sendo pelo menos responsável por ter inspirado confiança nos portugueses quando deveria ter sido cauteloso, quando é que se lhe faz luz para perceber que se ele não faz de balão e sai, alguém fará dele balão e o esvazia?

O governador do Banco de Portugal incomoda a Esquerda e incomoda o Governo, por muitas profissões de fé que o primeiro-ministro faça. Foi reconduzido contra o maior partido da Oposição. A marca de independência há muito que é ténue. E vai representar mais um custo para o país.

É mesmo demagogia e populismo. Mas de que outro modo se pode ler a reforma do modelo atual de supervisão que o Governo quer fazer? Cria uma nova entidade no topo da hierarquia, com poderes executivos e orçamento próprio, que ficará com as principais missões do Banco de Portugal, entre as quais as de supervisão e de resolução. Some-se-lhe agora a catrefada de peritos "independentes" e de acólitos mais "independentes" ainda que serão recrutados.

A crise de credibilidade que o Banco de Portugal atravessa deve, sim, ser aproveitada para um debate sério sobre a melhoria da supervisão financeira, a começar na forma e no modo de nomeação e a acabar nos poderes efetivos de intervenção.

A criação de superestruturas só serve para diluir responsabilidades e criar irresponsabilidade. Ah, e adivinhe quem vai pagar a conta? É populismo e demagogia. Mas dos bons.

P.S.: A Caixa Geral de Depósitos registou prejuízos de 1,9 mil milhões de euros. Podia ser bem pior, escrevem uns. Uma desgraça, escrevem outros. E passamos a esponja, submersos pela quantidade de milhões que ultrapassam a nossa consciência do valor. Experimentem atrasar-se na prestação da casa para ver o que sucede. Verdadeiramente, aqui, importa saber quem permitiu tamanho pesadelo que parece não ter fim? A quem foi emprestado? Para que projetos? Com base em que critérios? Não é para fazer julgamentos na praça pública. É para evitar que se repita. O futuro só tem caminho se afastarmos os fantasmas.

* Diretor-executivo

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