sábado, 6 de janeiro de 2018

FUNDADOR DO FACEBOOK AQUECE PARA A CASA BRANCA

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José Goulão* | opinião

Parece encontrado um sucessor de Donald Trump na Casa Branca, com ou sem o impeachment que tantos prometem sem que nada aconteça. Claro que falta muito tempo, o ciclo terrorista do actual presidente norte-americano mal começou, muitas tragédias e trapaças há que esperar ainda dele; nada impede, porém, que alguém pense, desde já, em sentar-se no gabinete oval de onde se comanda o mundo, sobretudo quando tem as ferramentas e os meios necessários e suficientes para atingir esse objectivo.

Sabedoria política, convicções e virtudes democráticas? Qual quê! Quem é que está a falar nessas coisas? É de eleições – e norte-americanas – que se trata; os utensílios precisos são outros.

Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, apronta essas ferramentas hoje consideradas indispensáveis e decisivas. Qual o seu passado político? Nenhum ou desconhecido; quais as convicções ideológicas? Nenhuma ou a única que conta para o efeito, a ideologia da não-ideologia injectada nos robots humanos ou humanos robots; por qual partido irá concorrer? A definir, na verdade tanto faz o rótulo democrata como republicano; em última instância tudo dependerá do estado em que Trump deixar a organização republicana.

Nenhuma das perguntas enunciadas incomoda verdadeiramente Zuckerberg. Pelo sim, pelo não, nesta altura madrugadora do campeonato rodeou-se de ex-conselheiros de Barack Obama, Hillary Clinton e George W. Bush, no fundo todos diferentes e todos iguais.

O que alimenta verdadeiramente a ambição presidencial de Mark Zuckerberg, assumida sem alarido, mas com raízes, é o êxito crescente do colossal polvo propagandístico e manipulador do seu Facebook, sobretudo desde que, durante os últimos anos, foi equipado com uma célula política secreta que fabricou numerosos resultados eleitorais com os quais estamos a lidar – de Obama, «primeiro presidente Facebook», a Trump; do fascistóide presidente argentino Maurício Macri ao sanguinário ditador filipino Rodrigo Duterte; do nazismo renascido da Alternativa para a Alemanha (AdF) ao populista primeiro ministro indiano Narendra Modi.

Sem esquecer casos em que também a manipulação de consciências e emoções na qual o aparelho do Facebook se tem especializado desempenhou papel preponderante, como a corrupção das chamadas «primaveras árabes», a conspiração permanente da extrema-direita contra o governo da Venezuela, o golpe de Temer no Brasil, a ascensão do extremismo nacionalista polaco e as súbitas irrupções políticas de fenómenos como Macron, a coligação fascista que tomou o poder em Viena ou o regresso do pupilo de Pinochet, Sebastián Piñera, no Chile.

É importante notar, entretanto, que a este nível deixou de se falar no Facebook tal como o entendemos, uma rede social onde pessoas e instituições podem relacionar-se de boa-fé, atraídas por afinidades, actividades e princípios diversificados que abrangem praticamente todos os aspectos da vida em sociedade.

O Facebook a que o próprio Zuckerberg recorre para seguir as pisadas de Obama e Trump, e que actua em espaço próprio, está montado de maneira a proporcionar cooperações institucionais capazes de fabricar presidentes e primeiros-ministros desfazendo oposições e rivais políticos; um processo conduzido através de uma célula política secreta que pode ser contratada por quem tem meios e ambições para moldar a «moderna democracia» segundo os seus interesses e conveniências, seja em que parte do mundo for.

No comando dessa célula secreta está, há três anos, Katie Harbath, antiga responsável pela estratégia digital do Partido Republicano e que se envolveu directamente, em 2008, na campanha do nada recomendável ex-presidente da Câmara de Nova Iorque, Rudolph Giuliani.

O método básico da estratégia estabelecida sob o comando de Harbath, aplicada pela vertente «política» do Facebook em benefício de quem contrata os seus serviços, é o da falsa informação, as tão faladas fake news, das quais os principais queixosos são sempre aqueles que mais proveito extraem delas, o que não acontece por acaso.

Assim sendo, e de acordo com artigo publicado em Dezembro passado pela multinacional mediática Bloomberg, insuspeita nesta matéria, a célula de Harbath recolhe pretensos elementos informativos voláteis e avulsos sobre determinado objectivo a alvejar e com eles monta conteúdos falsos direccionados através da rede e segundo diferentes áreas de interesse, idades, género, actividades, religião ou profissões, de modo a atingir universos tão amplos quanto possível; daí o processo transita para os sectores mediáticos convencionais, uma vez alcançado o clamor suficiente do qual brotam verdades que cilindram qualquer dúvida.

Para tal, a célula de Harbath usa uma teia de milícias de agentes digitais de propaganda, ou trolls, no léxico do sector, que se infiltram através dos inocentes e bem intencionados espaços de convívio comuns nas redes sociais, cumprindo as missões de que foram encarregados por um monstruoso e oculto aparelho de propaganda política e manipulação.

Ao fim e ao cabo, tais práticas vão fundindo insidiosamente a realidade e a ficção, a verdade e a mentira, o rigor e a calúnia até que os alvos a abater por quem paga os serviços sujos das fake news sejam de facto dizimados – de preferência em nome da democracia e da vontade popular.

Já existem dados sobre os efeitos deste terrorismo que provoca multidões de vítimas não recenseadas. Um estudo estatístico divulgado há menos de um mês pelo Pew Research Institute, um centro norte-americano de investigação social, conclui que 88 por cento dos cidadãos dos Estados Unidos se sentem confusos quando pretendem distinguir entre a verdade e a mentira nas notícias da actualidade. A tragédia não é exclusivamente norte-americana, como sabemos por experiências próprias.

Depois da primeira eleição de Obama, dos triunfos obtidos através da participação directa na campanha de Donald Trump, o caso considerado de maior êxito alcançado pelo sistema de propaganda e manipulação implantado no Facebook foi a eleição de um não-favorito, o populista Narendra Modi, nas eleições indianas de 2014.

Na ocasião, o vínculo institucional com a célula secreta de Harbath foi estabelecido pela própria Comissão Eleitoral Indiana, sob o pretexto de conquistar para o voto os absentistas de fresca ou longa data. «Nenhum cidadão pode ficar por sua conta», proclamou a comissão ao anunciar o acordo com Zuckerberg. Este e a sua directora de exploração, Sheryl Sandberg, deslocaram-se a Nova Deli para selar o contrato; seguiu-se a própria Katie Harbath, para ministrar acções de formação a mais de seis mil altos funcionários.

Modi venceu com esmagadora maioria absoluta; a oposição foi cilindrada, descredibilizada e tornou-se quase inexistente, uma vez que o contrato com o Facebook também inclui apoio à gestão governamental, isto é, continua a ser aplicado; os linchamentos de rua para silenciar vozes discordantes, incitados nas redes, vulgarizaram-se através do território indiano. A Índia tornou-se um centro de desinformação, um local perigoso para políticos de oposição e jornalistas independentes. Narendra Modi, primeiro-ministro, reúne 43 milhões de seguidores no Facebook, o dobro de Trump, número que deixa a grande distância qualquer outro «concorrente» nas redes sociais. Não será exagero dizer que o ramo do Facebook dedicado à conspiração por contrato governa a Índia, o mais populoso país do mundo, e com mão de ferro.

Na montagem das «eleições» indianas cooperaram com o Facebook e a comissão eleitoral empresas como a American Microchip Inc e a japonesa Renesas, que foram acusadas de piratear as bases de dados oficiais.

Hoje, qualquer uma das 17 agências de espionagem norte-americanas considera que o escrutínio meticuloso dos posts do Facebook permite prever «turbulências» sociais com alguns dias de avanço; chegaram a esta conclusão estudando, por exemplo, o período das chamadas «primaveras árabes», fenómeno tão ambivalente como o do terrorismo de fachada «islâmica», estabelecendo a correlação entre as movimentações no Facebook e outras redes sociais e a concentração de multidões nas ruas.

Com menos de uma década de actividade, o monstruoso sistema de condicionamento e manipulação do Facebook, assente na exploração da mentira e da difamação, pode considerar-se ainda em fase experimental.

Estágio intermédio que não impede Mark Zuckerberg de pensar em altos voos sobre a nomenklatura do complexo militar, industrial e tecnológico que governa os Estados Unidos, de maneira a chegar a presidente. É um facto que em 2014 o Facebook decidiu pedir desculpas quando foi confrontado com as provas de que usou 700 mil frequentadores da rede, sem seu conhecimento, como cobaias de uma experiência psicológica de contágio emocional.

Uma operação que, segundo as conclusões divulgadas, demonstra que as emoções podem propagar-se através das redes sociais, se bem que os seus efeitos continuem limitados. A par das desculpas de conveniência, a directora de exploração da rede disse que houve apenas um problema de «má comunicação» por parte da empresa, uma vez que o estudo fora encomendado por entidades comerciais interessadas em conhecer as reacções a determinados produtos.

O estudo foi feito e ficou feito, com ou sem protestos e desculpas. Sucedem-se as intervenções em eleições ditas democráticas um pouco por todo o mundo, mercê dos contratos estabelecidos entre o sector subversivo do Facebook e, sobretudo, dirigentes ou organizações em sintonia com nacionalismos, populismos, fascismos – articulando-se, assim, com as necessidades cada vez mais prementes da sobrevivência neoliberal; ou mesmo disseminando essas tendências. Como escreveu Charles Arthur no The Guardian, «se o Facebook pode ajustar as nossas emoções e fazer-nos votar, que mais será capaz de fazer?»

*AbrilAbril | José Goulão, jornalista
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