sábado, 6 de janeiro de 2018

Portugal | DESPIR A PELE DE LOBO

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Inês Cardoso* | Jornal de Notícias | opinião

Depois de tanta tinta que já correu sobre as mudanças à lei do financiamento partidário, seria de esperar que o tema estivesse esgotado. Estranhamente, após o veto do diploma pelo presidente da República, o surgimento de atas que andaram desaparecidas por "algum erro" informático e o reconhecimento, por vários intervenientes no grupo de trabalho, de que a condução do processo poderá não ter sido a melhor, há deputados que insistem na estratégia de vitimização e na crítica ao "populismo".

O caso mais folclórico é o do deputado Carlos Abreu Amorim, que vai abandonar o grupo de trabalho sobre a eutanásia e recusa integrar qualquer outro grupo até final da legislatura. A decisão é reativa às críticas ao secretismo da preparação da lei. À conta dessa interpretação "conspirativa", diz o social-democrata que "os grupos de trabalho morreram".

Populismo, contraponho, é usar falsos argumentos para escamotear os pontos em que houve falhas. É fazer birras, recusando continuar o trabalho para o qual foi eleito. É rejeitar o natural funcionamento dos diferentes poderes democráticos. É desconsiderar o direito à crítica de todos os cidadãos e eleitores e desvalorizar a importância do debate público desenvolvido à volta do assunto.

Há um ponto pelo qual todos os partidos devem bater-se: no sistema democrático em que vivemos, desempenham uma função de inegável interesse público e essa valorização justifica que o debate sobre financiamento se faça sem demagogias. Mas é exatamente por sabermos que caminhamos sobre gelo fino, que a promiscuidade é perigosa e que as soluções devem ser sérias, que não se pode correr o risco de faltar nem um milímetro à verdade.

Já se viu que, devido ao calendário interno do PSD, a negociação vai prolongar-se em fevereiro. Há tempo, por isso, para se começar a tratar do tema sem truques na manga. Se quiserem insistir em manter o regime de isenção de IVA e o fim dos limites à angariação de fundos, o que as bancadas têm a fazer é explicar de forma fundamentada porquê. Assumir posições sem meias-palavras.

O que está em causa neste processo legislativo não é apenas a substância, mas a forma. É natural, em qualquer diploma, que haja divergências na substância. Mas no processo para lá chegar tem de haver verdade e rigor. É evidente que é demagógico generalizar e criticar abusivamente todos os políticos, porque não são todos iguais. Mas infelizmente há muita culpa própria na imagem descredibilizada da classe. Se não querem ser lobos, não lhe vistam a pele.

*Subdiretora

Imagem: Carlos Abreu Amorim, deputado PSD
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