terça-feira, 15 de maio de 2018

RENAMO depois de Dhlakama: Coesão ou cisões?

PARTILHAR

RENAMO sem Dhlakama é uma oportunidade para o desenvolvimento da instituição RENAMO, defende analista Calton Cadeado. E para o analista Eduardo Sitói o partido vai sobreviver sem o seu líder, haverá transição pacífica.

Afonso Dhlakama e a RENAMO quase se confundiam. Ele personificava o maior partido da oposição e de certa forma centralizava todas as decisões importantes. Contribuíram para isso, entre outros fatores, a sua enorme popularidade, o seu jeito simples de fazer política e o carisma. Resumindo: era o líder.

Hoje a RENAMO vê-se sem o seu guia e a pergunta que se coloca é: qual é o futuro da RENAMO sem Afonso Dhlakama? Convidamos o analista político do ISRI, Istituto Superior de Relações Internacionais, Calton Cadeado a vaticinar: "Vejo dois cenários, um ótimo e um péssimo, que é o principal. Mas também há um cenário moderado que se pode equacionar. Sinto que a RENAMO sem Afonso Dhlakama é uma oportunidade para o desenvolvimento da instituição RENAMO, mas também pode ser uma ameaça para a sobrevivência da própria RENAMO como instituição."

E o académico argumenta "que enquanto Afonso Dhlakama esteve vivo e liderou o partido o que se constatou é que se investiu mais na pessoa do que necessariamente na instituição RENAMO. Mas esse otimismo pode ser dificultado pelas lutas de poder lá dentro, está claro que a ala militar é que vai determinar o rumo do partido."

Primeira prova de fogo concluída

Receava-se uma luta renhida pelo poder no seio da RENAMO logo depois da morte de Dhlakama. E os sinais disso ainda não vieram a público, mesmo que esteja a acontecer. Era a primeira prova de fogo do maior partido da oposição sem o seu líder.

E a forma como os membros geriram a transição até agora é visto como um bom indicador para o especialista em ciências políticas Eduardo Sitói. Ele acredita na manutenção da coesão: "Sim, se tomarmos em conta as primeiras indicações sobre o que sucede depois [da morte] do líder trata-se de uma transição pacífica. Creio que as primeiras indicações são de que a RENAMO vai conseguir sobreviver à morte do seu líder."

Mas Sitói reconhece que "não vai ser fácil, mas vão conseguir. Não vai ser fácil porque o seu líder é essencialmente político e militar e portanto, o próximo que vier tem de ter a capacidade de liderar a parte militar e também a parte civil."

Risco de cisões entre as alas política e militar?

O maior trunfo da RENAMO é a força das armas e o seu quadro militar muito experiente. E esse é o seu maior diferencial se comparado com o resto da oposição. Portanto, a sua sobrevivência ainda depende da manutenção da ala militar, pelo menos enquanto não alcançar os consensos que deseja junto do Governo da FRELIMO. Mas há também uma RENAMO mais intelectual e urbana que terá as suas ambições.

Será que ela está fadada a eterna submissão a ala militar ou haverá risco de cisões a médio prazo?

"Dentro do cenário péssimo há essa possibilidade de algumas pessoas saírem da RENAMO. Já tivemos essa situação antes, como o Manuel de Araújo e Davis Simango que foi criar o Movimento Democrático de Moçambique (MDM). A RENAMO tem de ser forte para que essas pessoas permaneçam no poder dentro da RENAMO e não haja essa cisão, se isso acontecesse agora seria mau, porque é um momento de fragilização da RENAMO e que faz parte dos aspetos que estou a colocar como ameaça a sobrevivência do partido", responde Calton Cadeado.

Posição diferente tem Eduardo Sitói. Para o cientista político, o atual presidente interino do maior partido da oposição, Ossufo Momade, que agrega os valores das duas alas, é o factor que pode garantir a coesão.

"Neste momento a indicação é que esta é a figura que tem a maior probablidade de juntar as duas alas", acredita Sitói.

Nádia Issufo | Deutsche Welle
PARTILHAR

Author: verified_user

0 comentários: