terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Portugal: OLÁ, SOU O VITOR, O GAJO DO AJUSTAMENTO



Henrique Raposo – Expresso, opinião

É um combate? Um jogo de pingue-pongue? Não. É o retrato de uma perplexidade: Avillez não compreende Gaspar mas tenta chegar lá; durante 400 páginas, Gaspar segue em linha recta com as mãos atrás das costas, qual Kant da calculadora, e Avillez anda à sua volta, num círculo permanente de espanto: quem é este tipo? Porque é que ele pensa assim? E a maior perplexidade da jornalista está na forma como Gaspar e o resto do governo esqueceram o discurso político. Eu compreendo Avillez, porque ando a dizer a mesma coisa desde o início . Estes ministros não têm funcionado como um governo, mas sim como o Excel colectivo do necessário ajustamento. Aliás, é mais ou menos assim que Gaspar se apresenta, olá, sou o Vítor, o gajo do ajustamento.

Para sermos honestos, é preciso dizer que este ajustamento externo é fundamental. Vítor Gaspar tem razão na explicação da crise e dos nossos desequilíbrios.  Mais: conduzir um país em permanente risco de bancarrota desordenada é uma tarefa que exige coragem. Gaspar e os outros ministros mostraram essa coragem, uma coragem idêntica ou superior à de Soares e Ernâni Lopes em 1983-85. O problema é que Passos e Gaspar nunca misturam a coragem financeira com a inteligência política, nunca fizeram a articulação de um discurso moral para a população e, acima de tudo, nunca pensaram na reforma do Estado. 

Exemplos? Estamos em 2014 e ainda não sabemos como vai ser o regime de segurança social do futuro próximo. Já toda a gente sabe que este sistema é insustentável e injusto. Perante este cenário, o governo tinha o dever de impor uma reforma que apontasse um pouco de luz sobre as reformas das gerações, vá, abaixo dos 50 anos. Todavia, Passos e Portas não fizeram nada neste sentido. Aliás, não me esqueço de um pormenor relatado pela imprensa logo em 2011: Mota Soares começou a falar da reforma da Segurança Social no sentido da conta individual e capitalizada; com medo das indignações do costume, Passos e Portas cortaram o pio ao jovem ministro. Este é apenas um exemplo da falha imperdoável deste governo: a ausência de um juízo moral sobre o futuro colectivo das três gerações de portugueses que vivem aqui e agora, isto é, a ausência de política.

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