terça-feira, 14 de junho de 2016

Professores portugueses em Timor-Leste queixam-se de ameaças e intimidação

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Díli, 13 jun (Lusa) - Professores portugueses no projeto das escolas de referência em Timor-Leste queixam-se de decisões arbitrárias e falta de pagamentos e dizem-se vítimas de ameaças e intimidação quando tentam denunciar os problemas.

"Tratam-nos com total falta de dignidade. Ameaçam-nos e mantêm um sistema quase pidesco de controlo sobre o que fazemos e dizemos, especialmente quando levantamos problemas que existem no projeto", disse um professor ouvido pela Lusa.

"Tem sido um terror. A nossa vida é totalmente controlada. Se surgem notícias sobre problemas somos chamados e questionados pelas coordenadoras", explicou outro, referindo-se às coordenadoras do projeto, uma portuguesa e uma timorense.

A coordenação do projeto das escolas de referência, conhecidas como Centros de Aprendizagem e Formação Escolar (CAFE), é feita conjuntamente por Portugal e por Timor-Leste. Também o financiamento é partilhado pelos dois países.

O projeto CAFE está nas capitais dos 13 municípios timorenses, envolve cerca de 80 docentes estagiários de Timor-Leste, 130 professores portugueses e mais de 5.000 alunos.

A Lusa tentou obter comentários a estas críticas junto da coordenadora portuguesa do projeto, que remeteu esclarecimentos para o Ministério da Educação em Lisboa, que não respondeu até agora a vários pedidos de esclarecimento, enviados na última semana.

As queixas foram feitas à Lusa, separadamente, por mais de uma dezena de professores e que pediram o anonimato por "temer represálias".

Os docentes sublinham a instabilidade no projeto, com um elevado número de docentes a recusar renovar contrato, em alguns dos casos por "grande descontentamento com a falta de tratamento das coordenadoras".

Queixam-se de e-mails à coordenação que ficam sem resposta e da falta de explicações claras, por exemplo, para as mudanças inesperadas de polos de ensino.

"Disseram-nos quando tínhamos acabado de chegar, publicamente, na zona de chegada do aeroporto. Isso causou grande confusão e até a polícia foi chamada. Ninguém percebeu por que é que a coordenação não reuniu com os professores noutro local e, em privado, comunicou as alterações", explicou um dos professores.

O ano letivo em curso foi o primeiro em que, sem critérios conhecidos ou divulgados aos próprios professores, a coordenação alterou a colocação dos docentes.

A coordenação, acusam, não permite sequer permutas entre colegas que acordam entre si trocar de centros de formação.

Segundo os docentes ouvidos pela Lusa, os anteriores responsáveis de cada CAFE tiveram prioridade na colocação em alguns centros educativos, "empurrando" para outras zonas os professores que ali estavam e contrariando diretivas anteriores.

Numa carta endereçada aos docentes que estavam em Timor-Leste no ano passado, datada de 10 de setembro, as coordenadoras informaram sobre o objetivo de manter os professores no mesmo centro pelo menos dois anos "para assegurar a continuidade pedagógica".

Os professores dizem ainda que as suas valências nem sempre foram tidas em conta, faltando em algumas escolas "professores de algumas variantes" que lá estavam no ano passado e foram "mudados para outras escolas onde não são necessários".

"Já foram feitos pedidos formais de clarificação sobre os critérios que determinaram a colocação mas, até agora, não houve qualquer resposta da coordenação", disse um professor.

Os professores queixam-se ainda de falta de contacto com a coordenadora portuguesa do projeto, que continua por visitar praticamente todos os CAFE do país, e das condições em algumas das casas - "sem cozinha, sem água e sem o mínimo de condições".

Professores em centros mais isolados queixam-se também de "pouca flexibilidade" na possibilidade de viajar até Díli - está previsto que cada docente possa visitar a capital um fim de semana por mês.

Problemático continua a ser também o pagamento de complementos salariais aos professores portugueses e de salários aos funcionários e professores timorenses.

Apesar de estarem em Timor-Leste desde março, os professores ainda não tinham recebido, no início de junho, qualquer dos complementos salariais, sendo que os timorenses não recebem salários desde que assumiram funções, em fevereiro.

Apesar dos problemas e de crescentes desafios, os professores destacam o impacto do seu trabalho a nível local.

"Todos trabalham com coração e muita energia e isso nota-se na forma como somos acolhidos e recebidos na comunidade local. E todos fazem um grande trabalho pela comunidade, pela língua, pelos alunos e por Portugal", disse um professor ouvido pela Lusa.

ASP // MP


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