sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

EM ANGOLA HÁ 20 ANOS – IV



1- Quando em 1998, no Gabinete de Apoio ao Estado-Maior Geral das FAA se seguiu a pista da superestrutura ideológica da UNITA, de acordo com o professor e “historiador” togolês ATSUTSÉ KOKOUVI AGBOBLI duas questões ressaltavam:

- No terreno a divisão de Angola por via dum meridiano opondo o “interior” ao “litoral”, os dos diamantes, contra os do petróleo, os “autóctones” contra os “crioulos”, partindo deliberadamente Angola em duas, o que nos dava o sinal que se estava mais uma vez a “dividir para melhor reinar”;

- No carácter da filosofia aplicada, (um ajuste ao pensamento fundamentalista-radical de Savimbi), tendo em conta por um lado a sua nova rectaguarda que passara a ser o então Zaíre, por outro lado o facto de ele, mantendo a “velha”matriz maoista da teoria do “cerco à cidade a partir do campo”, colocar-se no sentido da reinterpretação do Conservative Caucus inscrito no Partido Republicano dos Estados Unidos, que o considerava, enquanto “freedom fighter”, um“cristão”.

Em qualquer dos casos, o modelo fundamentalista-radical ajustava-se que nem luva ao carácter das explorações e negócios de diamantes com o objectivo de financiar a guerra.


As explorações de diamantes aluviais de Savimbi eram ilegais, em grande parte clandestinas e os negócios com os diamantes secretos, acompanhados com o secretismo dos seus enredos (por exemplo as operações de logística utilizando vários tipos de moedas nas trocas), tirando partido do facto de “o segredo ser a alma do negócio”, particularmente neste tão delapidador “métier” africano.

O fundamentalismo-radical tornava tudo ainda mais clandestino, ainda mais secreto, com um senão: se fossem localizadas as explorações dos diamantes aluviais, o grosso da manobra seria identificável, até por que as forças militares e paramilitares de Savimbi, nas suas posições defensivas só podiam estar ao redor das minas, a fim de garantir a sua própria inviolabilidade (por via de cordões de defesa), protecção e segurança.

Por essa razão começou por ser relativamente pouca a mão-de-obra estrangeira empregue nas minas de Savimbi, pois a alucinante mágica, a miragem e as ilusões do enriquecimento por via dos diamantes, possuía os constrangimentos impostos pelo fundamentalismo-radical de Savimbi, obcecado pela tomada do poder em Luanda, pela força das armas e com uma ideologia em tudo a condizer.

Todavia, à medida que o tempo foi passando, as conexões da rectaguarda haviam de suprir mão-de-obra recrutada cada vez mais no próprio Zaíre, em função dos interesses naquele país vizinho, particularmente no enorme Kasai e em função das correntes aluviais da sub-bacia do rio com o mesmo nome, a principal da margem esquerda do grande Congo antes da sua foz.


2- O critério dessa radiografia foi na altura fundamental para a detecção do potencial da manobra dos expedientes e das forças de Savimbi, assim como para a capacidade de reconhecimento e contrainteligência por parte das forças e meios governamentais, inclusive os operados a partir do Gabinete de Apoio ao Estado-Maior Geral das FAA na região central das grandes nascentes, na origem, por exemplo, da projecção da Operação Restauro.

Com os olhos de hoje, 20 anos depois, há outra constatação a fazer: o espectro dos diamantes aluviais, no que diz respeito à sua exploração desenfreada e à tipologia dos negócios ilegais, clandestinos, ou semiclandestinos, apresta-se a motivar fundamentalismos-radicais quer de natureza sócio-política (como por exemplo o caso do ilegal Movimento do Protectorado Lunda Tchokwe), quer de natureza de guerra psicológica com orientação provocatória em consonância com interesses da CIA (como por exemplo o caso do Rafael Marques de Morais, um assalariado da Open Society e do National Endowment for Democracy), quer de natureza religiosa (como por exemplo linhas de fundamentalismo islâmico e cristão, neste caso com a progressiva implantação da IURD, Igreja Universal do Reino de Deus, na área dos diamantes aluviais).

Por via dessa constatação, comprova-se que a raiz dos fundamentalismos-radicais teve um outro aproveitamento do choque neoliberal protagonizado por Savimbi entre 1992 e 2002 com os ”diamantes de sangue”: agora está-se a tirar partido da fragilização, se não mesmo vulnerabilização ou subversão duma paz inquinada pela terapia neoliberal, em muitos casos com os mesmo manancial humano interessado na anterior guerra, moldando-o tenuemente à tácita aceitação do Processo Kimberley, suas ilusões, suas miragens, suas limitações e seu fluxo de alienações de toda a ordem, muitas delas desembocando na proliferação de seitas religiosas, velhas e novas.

Em todo o caso, esse tipo de contenciosos humanos tiram partido da malha político-administrativa muito larga, que deixa espaços sem controlo, ou de muito difícil controlo, onde é possível a instalação dum campo ilegal, subversivo, ou mesmo rebelde.

A mobilização e recrutamento de mão-de-obra estrangeira migrante, particularmente congolesa e a proveniente dos países do Sahel, expandiu-se em relação aos tempos da “guerra dos diamantes de sangue”, pois agora já não há os constrangimentos da aliança Mobutu-Savimbi nos diamantes, nem a convulsão duma guerra para impor um “diktat”sobre as explorações e os negócios.

Essa migração da miragem em direcção ao sul de África (a outra parte dissemina-se pelo Mediterrâneo em direcção à Europa), estimulada em Angola pelos “Bosses”, o tipo de moedas de troca e outros expedientes tendo como fulcro cada“comptoir”, impactou em todas as “transversalidades” sociais do triângulo norte do país e em Luanda, acto contínuo com aproveitamentos de cariz religioso, como um manancial em reforço das alienações e das contribuições, no caso da IURD, do dízimo, esvaindo parte dos dividendos além-fronteiras.

Muitos angolanos atraídos pelo enriquecimento fácil, tornam-se assim membros dessas seitas e igrejas (caso do IURD), algo que se repercute no espectro humano das sensibilidades sócio-políticas, partidos adentro, MPLA incluído!


A IURD, que se tem identificado com as terras proféticas de Israel e da Palestina (quantas excursões religiosas já não foram realizadas com angolanos), está assim não só mais próxima da ortodoxia judaica, mas do próprio sionismo, numa nova “profissão de fé” da “civilização judaico-cristã ocidental”!

Essa tendência, apesar das rupturas que começam a surgir no seu seio em função da “discreta ganância”, está também a estimular outras “concorrentes” que estão no terreno há muito mais tempo, como a Igreja Católica Apostólica Romana, que guarda a sete chaves o seu interesse nas áreas diamantíferas, algo que foi tenuemente constatado durante o processo 105/83 por via duma entidade que dava pelo nome de Apolinário João Negrão de Barros, que se optou por não deter em função especialmente dos seus laços com o bispado da região…

Em relação às implantações religiosas mais antigas, será por acaso que a igreja Metodista tem um núcleo duro tão importante em Malange?

Em relação às mais novas implantações, qual o significado duma entidade como Noé Baltazar, que tem tido tanto peso na área dos diamantes, ter um papel importante na seita Testemunhas de Jeová, quando os franceses o têm identificado (em “Les Gemmocraties, l’économie politique du diamante africain”, da autoria de François Misser e Olivier Vallé), como um homem da CIA?

Assim sendo, por via também das religiões estão garantidos múltiplos e “desdobráveis” impactos “transversais” sobre a sociedade angolana, de intensidade variável e ramificando-se por um leque de actividades, que vão desde as que se inserem no comércio informal e retalhista, às que se prendem à actividade dos “fazedores de opinião”, desde alguns jornais, a alguns “activismos”, parte dos quais reinterpretando a seu modo e de acordo com as conveniências e interesses, as questões que se prendem a “direitos humanos”, quantas vezes face a face em relação às contramedidas governamentais!

Quem diz que a África não continua a ser “um corpo inerte onde cada abutre vem depenicar o seu pedaço”?...

Até as máfias chinesas, bem espalhadas por todos os recantos das “minas de Salomão”, são atraídas por esse tipo de“expedientes”, procurando sempre ocultar os seus verdadeiros motivos e vocações…

Martinho Júnior - Luanda, 3 de Novembro de 2018

Imagens:
- Mapa de Angola com relevância para alguns dos cursos da “rosa dos rios” angolanos: no triângulo norte, a evidência vai para o Cuango e o Cassai;
- A esposa de Savimbi entre membros do CDS, sob os auspícios do “Le Cercle” e na prolongada esteira do Exercício ALCORA depois do 25 de Novembro de 1975;
- Savimbi na Jamba, numa foto do arquivo familiar;
- Paul Manafort, no apogeu da administração de Ronald Reagan, foi “indispensável” para a construção das imagens públicas, entre outros, de Savimbi e de Mobutu;
- Um livro que fez parte da publicidade internacional de Savimbi, com a cobertura dos mais conservadores “lobbies” dos Estados Unidos.

UNITA – Uma nova estratégia de desestabilização do País – IV 

Fontes: “DEMAIN L’UNITA” – 08 AGO 98
                                                 
“COMUNICAÇÃO DE SAVIMBI” – 02 AGO 98
                                                 
“QUADRO OPERACIONAL DAS FORÇAS ARMADAS DA UNITA” – 22 MAI 98

16 AGO 98

I. O ARGUMENTO POLÍTICO IDEOLÓGICO DA UNITA SUSTENTADO PELOS SEUS APOIOS INTERNACIONAIS , NUM CLARO DESAFIO ÀS SANÇÕES DO CS DA ONU .

1) A 05 MAI 98, aproveitando as comemorações do MAI 68 em PARIS e fazendo uma “colagem” ideológica a esses acontecimentos, a UNITA, com o apoio de seus aliados em FRANÇA, realizou um Colóquio na SORBONNE, subordinado ao tema “GUERRA OU PAZ EM ANGOLA ?”.

Na sequência desse Colóquio, o espaço “DEMAIN L’UNITA”, à revelia e em desafio às sanções impostas pelo CONSELHO DE SEGURANÇA da ONU, está a dar publicidade às posições defendidas por alguns dos seus intervenientes em benefício da Organização Armada da UNITA, num acto contrário aos esforços no sentido da implementação e consolidação do Processo de Paz em ANGOLA.

2) O “DEMAIN L’UNITA” publicou uma entrevista ao “AFRIQUE EDUCATION”, do “historiador” togolês ATSUTSÉ KOKOUVI AGBOBLI, um dos principais promotores do Colóquio e o responsável pela condução da entrevista a SAVIMBI no seu último livro.

Nas suas respostas, é claro na ênfase e importância que ele concede a ANGOLA, defendendo os postulados político-ideológicos que fundamentam o argumento da UNITA:

“Por que as elites Africanas não estão ainda conscientes, eu me sinto na obrigação de afirmar sem hesitação: o destino da ÁFRICA negra joga-se hoje em ANGOLA”.

“As grandes potências, membros do CONSELHO DE SEGURANÇA, nomeadamente os ESTADOS UNIDOS, a FRANÇA, o REINO UNIDO e a RÚSSIA, muito interessados na exploração dos enormes recursos naturais do país, escolheram deliberadamente jogar a cartada do MPLA e lançar a UNITA no cesto do lixo”.

“ A partir da assinatura dos Acordos de BICESSE em 1991 e sob a pressão dos ESTADOS UNIDOS, do REINO UNIDO, da RÚSSIA e de PORTUGAL, as NAÇÕES UNIDAS, escolhidas como árbitro, receberam a dupla missão de manter o stato quo favorável ao MPLA em ANGOLA e de banir o nacionalismo africano autêntico incarnado pela UNITA”.

Assim, tudo o que a UNITA decidir-se a fazer está no caminho da defesa dos interesses de toda a ÁFRICA, até por que “o doutor JONAS SAVIMBI não cessa de declarar que a UNITA lançou-se na guerra em 1975 e em 1992, em resposta às agressões do governo do MPLA: pois este, socialmente, politicamente e eleitoralmente minoritário no país, viu-se-lhe atribuir o poder de ESTADO pelo colonizador português e, para o conservar, sente-se obrigado a destruir pelas armas os partidos adversos maioritários”, esquecendo-se que a UNITA, sendo uma criação da polícia política Portuguesa PIDE / DGS, foi vinculada ao poder “branco” do regime do “apartheid”, na dependência do qual se manteve enquanto ele durou e com quem se habituou a explorar de forma etnocêntrica os conceitos de cultura e de etnicidade, para efeitos políticos.

Mas mais grave que isso é o sentido de oportunidade que parece orientar a UNITA a partir do apoio da direita“gaulista” Francesa, para um novo quadro de alianças que se podem estar a forjar, numa evidente alusão ao RUANDA: “o drama ruandês deve servir de lição para ANGOLA. A derrota patente da acção da ONU no terreno não causa nenhuma dúvida ao observador atento. Desarmando a UNITA deixando o MPLA armar-se até aos dentes, estão criadas as condições para um novo genocídio”.

Não será esse um argumento passível de ser bem aceite pelo poder instituído nos Países “do interior” (a “ÁFRICA genuína”), como o RUANDA e o UGANDA? Se assim for, qual o verdadeiro significado da revolta contra KABILA? Em caso dos revoltosos tomarem o poder, qual irá ser o seu comportamento em relação a ANGOLA e aos seus problemas internos?

O facto de surgirem as primeiras notícias a referirem que há efectivos a falar Português entre os revoltosos que avançam para KINSHASA, parece ter um significado que está no caminho da verdadeira resposta.

3) A corroborar as nossas apreensões face aos últimos desenvolvimentos na RDC e que trarão repercussões no nosso País, está a intervenção no Colóquio do Professor MWAYILA TSHIYEMBE, Director do INSTITUTO DE GEOPOLÍTICA AFRICANA, subordinada ao tema “ANGOLA: PAZ – PETRÓLEO – REDISTRIBUIÇÃO DAS CARTAS NA ÁFRICA MEDIANA”:

“O petróleo não é o objectivo último desta guerra civil, ainda que seja o instrumento mais importante dela”.

“Com ou sem petróleo, a guerra civil angolana não perde o seu significado de conflito político”.

Assim ele considera que “o petróleo é o nervo da violência do ESTADO”, pelo que “partindo dessa prioridade, as elites militares ocupam uma posição importante na elite dirigente” e daí se concluir que “o petróleo é o instrumento da sobrevivência do poder do MPLA”, ao mesmo tempo que gera “o êxodo rural e o reabastecimento das cidades, onde se aglomeram centenas de milhar de pessoas fugidas à guerra”.

Efectivamente, parece-nos importante sublinhar o facto da revolta contra KABILA se ter preocupado imediatamente em abrir e consolidar a frente OESTE, de forma a com isso deter capacidade de intervenção sobre o sector petrolífero Congolês, tal como o acesso ao mar e a melhor possibilidade de progressão na direcção de KINSHASA.  Não serão estes os seus “professores”?

Essa frente OESTE da RDC está concomitante à frente NORTE que a UNITA possui em ANGOLA, em relação à qual ela atribui a missão principal de atacar LUANDA e a alargar as acções na zona diamantífera, mas que poderá ser mobilizada para outros fins, desde que hajam interesses políticos de ordem estratégica em relação à Região de impacto. 

MWAYILA TSHIYEMBE é de opinião que o petróleo “determina a política regional de ANGOLA na recomposição da ÁFRICA mediana em gestação, como ilustra bem a intervenção de LUANDA na queda dos regimes de MOBUTU em KINSHASA e de LISSOUBA em BRAZZAVILLE em 1997”, pelo que considera que esse “direito de ingerência”exercido por ANGOLA e os Países dos GRANDES LAGOS, “criaram um  novo dado regional”.

Isso quer dizer que a UNITA, a quem não se pode negar o sentido da oportunidade política (por razões de sua própria sobrevivência enquanto Organização Armada) está pronta a procurar obter um novo protagonismo na Região e a actual situação na RDC sendo-lhe propícia para tal, pode movê-la no sentido de procurar obstruir a posição de ANGOLA: se KABILA não é um aliado para confiar, conforme a sua Governação tem demonstrado ao se isolar progressivamente, pode ser que a revolta na RDC por mobilizar um leque muito variado de tendências, traga ainda mais factores negativos para ANGOLA que a Governação desastrada daquele e, enquanto pelo menos houver indecisão da parte do Governo Angolano, ela pode beneficiar da possibilidade de intervenção e de alinhamento.

II. CUMPRIR O PROGRAMA DO MUANGAI

1) O discurso de SAVIMBI a 02 AGO 98 e que foi distribuído em LUANDA aos militantes da UNITA pela mão de SAMAKUVA após o seu regresso do BAILUNDO, não deixa margem para dúvidas:

“O protocolo de LUSAKA é completamente contra a UNITA”.

“O momento é este para entrar no círculo do cidadão”.

“Se nós não pensarmos bem, vamos limitar a nossa entrada no círculo do cidadão angolano, só há duas vertentes: ou entramos pelo governo e está errado, ou entramos pela luta armada. Pode ser um facto”. 

“Haverá sempre o cuidado da minha parte de não colocar quadros válidos do partido em LUANDA. Só gostaria que aqueles que fossem desempenhar este papel ingrato tivessem a consciência, que fazem parte de uma grande família que é a UNITA e que tem um programa que não foi cumprido”.

“Mas que a guerrilha vai aumentar de intensidade, matam, despem, roubam, isto vai acontecer, é uma ordem ao nosso grupo de resto que está já em LUANDA”.

“O assalto ao FUTUNGO está à vista. Temos o controlo do Presidente DOS SANTOS no BRASIL, estamos a fazer tudo, mas absolutamente tudo dentro do BRASIL para piorar o seu estado de saúde, ele vai continuar lá até ao final do ano”.

“Os Russos especialistas em segurança que formaram a DISA estão do nosso lado e eles conhecem o modus operandi da segurança do presidente DOS SANTOS”.

“O programa da UNITA não acaba no protocolo de LUSAKA. O nosso objectivo é o programa do MUANGAI que tem que ser cumprido”.

2) Este é o tipo de documento que, verificando-se a sua autenticidade, se deveria fazer chegar à Comunidade Internacional e à ONU,  não só com as nossas legítimas preocupações em relação à UNITA e ao seu eventual papel (em  ANGOLA e em toda a Região), mas também com o sentido da necessidade de a responsabilizar pela consequência de todos os seus actos em relação aos Acordos que ela própria foi firmando ao longo dos anos, para acabar sempre por os romper.

Não haverão já motivos suficientes para considerar SAVIMBI criminoso e psicopata?

III. QUADRO OPERACIONAL DAS FORÇAS ARMADAS DA UNITA

1) É um documento que tivemos acesso através de fonte própria, que faz a informação e análise da organização militar da UNITA com a data de 22 MAI 98, precisamente no mês em que ela se esforçou por mobilizar a opinião pública e a intelectualidade a partir da SORBONNE em PARIS.

2) A essa data, as unidades especializadas estariam em formação na área do ANDULO, “treinadas pelos instrutores estrangeiros nomeadamente sul-africanos brancos, marroquinos, russos e líbios”, abrangendo as armas de ARTILHARIA, DEFESA ANTI AÉREA, RECONHECIMENTO, ENGENHARIA ESPECIAL e COMANDOS, formando 2 Regimentos, sob doutrina “soviética”:

O 1º, sob o Comando do GENERAL SAMY, com 4 a 5.000 homens.

O 2º, sob o Comando do GENERAL CHIMUCO, com 2 a 3.000 homens.

O armamento “tem origem da RÚSSIA, ÁFRICA DO SUL e PAÍSES ÁRABES, de onde conseguiu alguns bons números de peças de artilharia moderna do tipo SKUD”, estando ainda equipados com “armas ligeiras modernas com BMP – 1 e 2 para o desembarque e assalto”. 

Aparentemente esses dois regimentos teriam o reforço dos 6.000 homens que se encontram em SAUTAR, sob o Comando do Brigadeiro ABREU KAMORTEIRO, em reforço das acções no eixo MALANGE – LUANDA.

3) O documento continua depois a fazer a descrição da organização armada da UNITA, das suas dificuldades de mobilização e logística (em função segundo diz das sanções) e interpreta-as de forma muito valorativa, pois a situação é de tal ordem que SAVIMBI está a procurar a solução militar como forma de conseguir resultados que não consegue por outros meios.

O autor teve a lucidez de apontar algumas das deficiências de actuação das NOSSAS FROÇAS, em relação não só ao enquadramento proveniente da UNITA, mas também em relação aos “ex soldados da UNITA desmobilizados e os militantes da UNITA”. Deficiências de nossa actuação são aproveitadas como exemplo no sentido de afirmar que “a POLÍCIA veio exclusivamente para matar” e “se não lutarem acabarão por morrer”.

Em conclusão é sua opinião que “as acções militares do Governo podem ofuscar a vitória que o Governo tem já sobre a UNITA”, o que reforça a ideia que aquela organização armada está a ressentir-se muito da conjuntura imposta pelas sanções.

4) O documento enumera depois entre outros a “ubicação de alguns núcleos de COMANDOS MILITARES de FRENTES e seus respectivos COMANDANTES”, bem como o “QUADRO ORGÂNICO DO EMG” e o “QUADRO ORGÂNICO DO ACTUAL COMISSARIADO POLÍTICO MILITAR NACIONAL”.

IV. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

1) Se efectivamente SAVIMBI não encontra solução para as suas pretensões através do Acordo de LUSAKA, que lhe está a ser penalizador em função das sanções, diminuindo-lhe a capacidade logística e reduzindo as possibilidades de apoio no exterior apesar da imensa capacidade financeira que lhe advém da exploração dos diamantes, também é verdade que aumentam os riscos de ele, uma vez que se encontra em situação de desespero, ordenar acções visando os centros político-administrativos principais do País, assim como os dirigentes do Governo e do MPLA, principalmente o seu Presidente.

2) A actual situação na RDC é um dado novo que lhe vai permitir sair bastante do sufoco em que aparentemente se encontrava, ou mesmo criar condições para romper a prazo dilatado com o estrangulamento progressivo que estava a ser sujeito, tendo em conta as alianças que ele naturalmente encontrou, ou vai encontrar.

Ao mesmo tempo, estando a ser pressionado em relação aos diamantes, ele está a procurar mudar a situação de forma a procurar soluções na área dos petróleos.

Assim, havendo indefinições no campo estratégico que se reflectem no plano táctico-operativo, devemos aumentar o caudal de informação em relação à actuação da UNITA, melhorando a capacidade geral de INTELIGÊNCIA, de CONTRA INTELIGÊNCIA e do RECONHECIMENTO, como prioridades, de forma a melhor se fazerem as avaliações.

3) Isso não significa que haja uma mudança política-diplomática em relação à necessidade de se continuarem, ou mesmo acentuarem as pressões internas e através da COMUNIDADE INTERNACIONAL, principalmente nos Países vizinhos, muito pelo contrário.

O grau de exigência deve ser muito forte em relação aos ESTADOS constituintes da SADC, tendo em conta, em relação a muitos deles, as ligações históricas que a UNITA foi neles cultivando e que ela vai procurar mobilizar sempre, o que significa também dizer, que se ela estiver a actuar na RDC com expressão armada, seria importante dar-lhe um golpe militar onde ela estiver, seja com quem estiver, principalmente se ela participar com efectivos importantes, mas com o respaldo dos ESTADOS amigos no quadro da SADC.

A alternativa de nada fazermos, sob o ponto de vista militar, mas continuarmos com as pressões político-diplomáticas, pode contudo trazer maior capacidade de manobra, quando a situação se clarificar.

Um concerto para já com os Governos do RUANDA, BURUNDI e UGANDA pode ser bastante importante, se atendermos à influência que esses ESTADOS dos GRANDES LAGOS têm sobre o desenvolvimento da situação na RDC, restando avaliar se eles têm neste momento algum comprometimento com a UNITA, como algumas questões nos sugerem (principalmente a iniciativa da abertura prioritária da frente OESTE por parte dos rebeldes).

16-08-1998 12:25

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