sábado, 14 de dezembro de 2019

O Brexit vem mesmo aí. O que é que isso significa para os portugueses?


São cerca de 400 mil os portugueses que vivem no Reino Unido e têm, pelo menos, até ao final de 2020 para pedir o estatuto de residente. Se o Acordo de Saída for aprovado, como se espera, não há motivo para dramas, afirmam os governantes.

Uma das primeiras reações portuguesas à vitória do conservador Boris Johnson nas eleições britânicas de quinta-feira foi a do primeiro-ministro António Costa que, à saída do primeiro dia de trabalhos do Conselho Europeu, em Bruxelas, já de madrugada, sublinhava que a vitória clara de Johnson irá permitir "assegurar algo que era fundamental: é que, havendo Brexit, que seja um Brexit ordenado, devidamente acordado, e, portanto, que todos os cenários negativos que se tinham perspetivado de um Brexit caótico possam ser evitados". De outra forma, "as consequências, quer para os direitos dos cidadãos, quer para as empresas seriam extremamente negativas", disse, pelo que a aprovação do Acordo de Saída "obviamente é uma boa notícia".

Essa é também a convicção do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que considera que este resultado "vai permitir um acordo para uma saída ordenada do nosso aliado de tantos séculos da União Europeia", o que permitirá proteger os interesses dos portugueses residentes no Reino Unido, assim como dos cidadãos britânicos que residem em Portugal, e também as empresas dos dois países e da União Europeia, "para um futuro relacionamento profícuo e no interesse comum".


O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, não tem dúvidas de Portugal está pronto para o Brexit no início do próximo ano, mas lembra que haverá um período de transição "em que praticamente tudo estará na mesma" até ao fim de 2020. "Esse período de transição tem a utilidade de dar tempo e espaço para que se negoceie um novo acordo com o Reino Unido", permitindo ainda que os portugueses residentes no Reino Unido, os britânicos residentes em Portugal, as empresas e os operadores turísticos se preparem para o que aí vem.

Em declarações à TSF, Augusto Santos Silva afirmou que a Europa está em condições de apresentar um novo acordo nos primeiros dias de fevereiro. Seguir-se-ão "dez meses intensos de negociação". "Acho que vamos conseguir chegar a um acordo razoável, um acordo de livre comércio, um acordo com alguma linha regulamentar e também um acordo, muitíssimo importante, na área chave da segurança e defesa" para que a saída do Reino Unido não signifique uma abandonar dos compromissos do país na defesa coletiva no Atlântico Norte.

Tudo na mesma até ao final de 2020, pelo menos

Recorde-se que a 17 de outubro as equipas negociadoras da Comissão Europeia e do Reino Unido concluíram um Acordo de Saída que foi, nesse mesmo dia, endossado pelo Conselho Europeu, mas que nunca chegou a ser apreciado pelo Parlamento Britânico, devido a vários entraves colocados pela oposição. Porém, após estas eleições, o Brexit é agora uma decisão "irrefutável e indiscutível", afirmou Johnson no discurso da vitória já na sexta-feira de manhã. E tudo indica que esse Acordo, com alguns ajustes, será finalmente ser aprovado.

O Reino Unido deixará de ser membro da União Europeia no dia do Brexit - o que pode acontecer já a 31 de janeiro - no entanto, os direitos e deveres dos cidadãos portugueses (e dos outros cidadãos europeus) no Reino Unido permanecem os mesmos durante o período de transição. Assim, mesmo na eventualidade da saída do Reino Unido da União Europeia vir a ocorrer sem acordo ("no deal"), pelo menos até 31 de dezembro de 2020 não haverá grandes diferenças a assinalar para os cidadãos comuns.

O Acordo de Saída não só protege todos os cidadãos europeus que estejam a residir legalmente no Reino Unido e os britânicos que residam num país da UE como também os "trabalhadores transfronteiriços". Serão ainda negociadas condições especiais de entrada e permanência para fins como investigação, estudo, estágios e intercâmbio entre jovens.

Para se considerar que "residem legalmente" num país, os cidadãos devem já ter adquirido o direito de residência permanente ou, caso ainda não vivam lá há cinco anos, um título provisório de residência. Embora não esteja atualizada, porque foi elaborada em novembro de 2018, a lista de perguntas e respostas elaborada pela Comissão Europeia pode ser uma ajuda.

O que devem fazer os portugueses que já estão no Reino Unido?

A primeira recomendação a todos os portugueses que residam no Reino Unido é que façam a sua inscrição consular. Também é importante que tenham os seus documentos válidos (Cartão de Cidadão e Passaporte). "Guarde toda a documentação relativa à residência neste país e verifique junto dos serviços da Segurança Social (DWP) e Autoridade Fiscal (HMRC) se os seus dados pessoais se encontram atualizados", aconselham os consulados portugueses em Manchester e em Londres.

Maria João Caetano | Diário de Notícias - 13 Dezembro 2019 — 22:26

Imagem: Mural de Banksy sobre a União Europeia, entretanto retirado do edifício onde estava, em Dover / © EPA/ Neill Hall

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