sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Angola | UNITA TRAFICOU TRÊS MIL TONELADAS DE MARFIM

LEITURAS DE FÉRIAS

Artur Queiroz*, Luanda

Traficantes de droga, marfim, diamantes e madeira preciosa criaram um esquema mafioso na Jamba. Políticos portugueses, militares sul-africanos de alta patente, comerciantes e industriais, agentes de serviços secretos beneficiaram da guerra suja da UNITA. Joaquim Augusto, piloto e dono do avião que caiu no acampamento militar de Savimbi, com João Soares a bordo, recebeu da UNITA três mil toneladas de marfim. O coronel Ian Breytenbach denunciou os mafiosos e foi saneado. Um jovem tenente foi afastado dos campos de batalha por “fadiga de guerra” quando descobriu num armazém da Inteligência Militar sul-africana, em Caprivi, caixas com dentes de elefante e chifres de rinoceronte.

A imagem de Savimbi foi vendida aos governos ocidentais como um democrata que combatia russos e cubanos em Angola. Mas a realidade era outra:

 “Informei um oficial de inteligência de alto nível, que trabalhava com a UNITA, de tudo o que sabia. Exigi que acabassem imediatamente com o tráfico de marfim e de droga entre a Zâmbia, Jamba e Joanesburgo”, conta Breytenbach. Mas exigiu mais: 

“Vejam-se livres da máfia portuguesa e tomem imediatamente medidas porque estão a dizimar as manadas de elefantes e rinocerontes”. 


O coronel Breytenbach pediu para passar à reserva porque queria gerir o parque natural de Caprivi, na Namíbia ainda ocupada. Iniciou funções mas por pouco tempo. A máfia de traficantes de droga, marfim e diamantes mexeu os cordelinhos em Pretória e ele foi despedido sem qualquer justificação. O coronel conta como foi saneado:

“Alistair Macdonald mandou-me uma mensagem onde me informava que tinha sido demitido a pedido das Forças de Defesa e Segurança da África do Sul”.

Ian Breytenbach reagiu e escreveu uma carta ao comandante supremo das SADF. Este tomou a decisão de manter o coronel no cargo. Mas alguns dias depois um brigadeiro da Inteligência Militar foi à Namíbia e pôs mesmo Breytenbach fora de combate. O contrabando e o tráfico davam milhões e ele estava a deitar tudo a perder, com os seus princípios de ambientalista.

O mesmo aconteceu a um jovem tenente que em 1987 e 1988 foi combater no Cuando Cubango integrado nas forças que faziam operações contra as posições das FAPLA. O coronel Ian Breytenbach conta como foi saneado: 

“O jovem tenente informou-me que ao regressar de uma operação em Angola, estava sem mantimentos para a sua tropa. Foi ao Rundu abastecer-se num armazém da Inteligência Militar. Abriu uma caixa e estava cheia de dentes de elefante. Abriu outra e outra, a mesma coisa. Todas as caixas do armazém, em vez de víveres, estavam cheias de marfim”.

As caixas iam ser trocadas por outras cheias de víveres, mas os camiões estavam atrasados.

Ian Breytenbach prossegue o relato:

 “Como um bom soldado, decidiu comunicar o facto ao seu comandante. Ele ouviu o relato, ficou irritado, fechou a porta do gabinete e começou a ameaçar o jovem dizendo que ia ter problemas graves na vida se divulgasse a sua descoberta. Poucos dias depois o oficial foi recambiado para a África do Sul sob o pretexto de sofrer de fadiga de guerra”.

Os turistas da Jamba entravam e saíam a uma velocidade estonteante. Chegavam de bolsas vazias e partiam com as malas cheias. A ambição levou ao fim dos negócios de uma forma fortuita. No dia 7 de Outubro de 1989 o jornal “Whindhoek Observer” publicou uma notícia de primeira página que pôs a nu a rede mafiosa:

“A frota aérea civil do país, considerável à luz da sua pequena população, perdeu um bimotor pressurizado, Cessna 340 com a matrícula 3D-A-F-C, quando se despenhou logo após a descolagem, no Sul de Angola, perto da sede da UNITA. O filho do Presidente da República Portuguesa estava a bordo e sofreu ferimentos graves”.

O avião estava registado na Suazilândia e era propriedade de Joaquim da Silva Augusto, um homem muito rico, proprietário do grupo J&C. O jornal da Namíbia referiu que “não se sabe quem autorizou um voo civil a cruzar a fronteira para a base da UNITA em Angola”.

No dia seguinte, a Imprensa sul-africana dava este detalhe importante:

“Caiu o avião do proprietário de um grande império de negócios e de um armazém de reabastecimento das guerrilhas da UNITA”.


As notícias tinham origem numa agência que despachou: 

“O avião do senhor Augusto foi forçado a aterrar, logo após a descolagem, por causa da excessiva carga de marfim que transportava, além dos passageiros João Soares (Partido Socialista Português), Rui Gomes da Silva (deputado do PSD de Portugal), Nogueira de Brito (deputado do CDS de Portugal) e Gepperth Rainer, alemão, da Fundação Hans Seidel”.

O jornal da Namíbia “Whindhoek Observer” voltou à carga no dia seguinte e deu um pormenor importante:

“Não foi permitido o contacto dos jornalistas com os feridos, incluindo o senhor Augusto. Um pedido deste jornal para entrevistar o senhor Augusto foi recusado pelo ministro das Relações Exteriores, o senhor Roelof ‘Pik’ Botha, que também determinou a proibição de contactos com os deputados portugueses”.

A imprensa sul-africana e namibiana destapou ainda mais os negócios mafiosos e noticiou que um camião do comerciante Augusto, piloto e proprietário do avião que se despenhou na Jamba, foi apanhado pela polícia, carregado de marfim. Barnard Hennie, advogado do abastecedor da UNITA, confirmou à imprensa que “o camião apreendido com uma carga de marfim avaliada em 3,5 milhões de rands é propriedade do senhor Augusto mas ele não tem culpa que andem a usar os seus camiões para fins ilegais”.

Augusto levava na sua frota alimentos para a UNITA e os camiões regressavam carregados de marfim e madeira de girassonde. Os diamantes e a droga viajavam de avião. 

Joaquim da Silva Augusto era considerado um dos homens mais ricos da África do Sul. Tinha uma cadeia de supermercados e um grande armazém no Rundu, ponto de partida para os abastecimentos logísticos à UNITA. A derrota dos nazis de Pretória no Triângulo do Tumpo pôs fim ao tráfico e o milionário acabou por ir ao fundo com o regime de apartheid. 

Um jornal sul-africano deu uma notícia sobre o acidente aéreo que pode explicar o que estava em jogo. O título da notícia: “milionário ligado a um grande crime”. O milionário é Joaquim Augusto e o crime, tráfico de marfim. A notícia refere: 

“O desastre ocorreu no Sul de Angola, local que é estritamente vigiado e não é permitida a entrada a nenhum repórter. Um porta-voz do império de negócios do senhor Augusto foi tratado de forma violenta e hostil, quando tentou aproximar-se do local do acidente”.

Em Pretória, os deputados portugueses João Soares (Partido Socialista Português), Rui Gomes da Silva (PSD) e Nogueira de Brito (CDS), Joaquim Augusto e Gepperth Rainer foram internados num hospital militar, numa ala onde apenas podia entrar pessoal autorizado pelos serviços secretos. Uma enfermeira portuguesa contou ao Jornal de Angola o que sucedeu: 

“Eu e meu marido soubemos que o nosso amigo Joaquim Silva teve um acidente grave e estava no meu hospital. Fui imediatamente para lá.  Só nesse momento soube que também estava internado João Soares, filho de Mário Soares. No dia seguinte recebeu a visita da mãe e da esposa. Eu pus-me à disposição deles”. 

Os deputados portugueses foram internados num hospital militar numa ala controlada pelos serviços secretos. João Soares diz que o Jornal de Angola o acusou de tráfico de marfim e de diamantes. Mas quem falou em tráfico e em “crime grave” foi a imprensa do apartheid.

Óscar Cardoso, inspector da PIDE, fundador dos Flechas e oficial de ligação com a UNITA no Leste de Angola, depois do 25 de Abril de 1974 adquiriu a nacionalidade sul-africana e era coronel da Força Aérea, em serviço na Inteligência Militar. Manteve as mesmas funções de oficial de ligação à UNITA. Numa entrevista que me concedeu, conta a sua versão do acidente aéreo:

“A Jamba era mais para mostrar a organização da UNITA e eu trabalhava como operacional. Ali estavam todos seguros, os aviões da Força Aérea Angolana não tinham capacidade de ir lá bombardear e regressar às suas bases. Os portugueses iam para tratar de negócios. Os diamantes e o marfim fizeram muitos amigos à UNITA. O avião era de um grande amigo meu, Joaquim Silva Augusto, comerciante no Rundu. Ele como piloto não era grande coisa. Carregaram os porões com pontas de marfim e com diamantes. Levantaram voo, mas o Augusto não conseguiu aguentar o aparelho no ar. Foi terrível, ficaram todos em mau estado. Foram transportados para o Hospital Verwoerd, onde a minha mulher era enfermeira. Só sabíamos que o Augusto estava gravemente ferido. A minha mulher foi imediatamente para o hospital, mas não encontrou o Augusto, estava a fazer exames de Raios X. Os outros tinham os olhos negros, estavam irreconhecíveis”.

Óscar Cardoso recuou no tempo e conta o que aconteceu na Frente Leste, nos anos 60 e 70:

“O pessoal da PIDE e do comando da Zona Militar Leste começou a estabelecer contactos com Savimbi e os seus oficiais. Logo nos primeiros contactos verificámos que Jonas Savimbi tinha muito gosto em trabalhar connosco. O general Bettencourt Rodrigues, um militar extraordinário, deu luz verde e a UNITA passou a combater ao lado das tropas portuguesas. O Savimbi estava cheio de vontade para combater as forças do MPLA e nós fizemos-lhe a vontade. Ele combatia os guerrilheiros do MPLA e nós dávamos em troca armas, apoio logístico e médico. Savimbi esteve várias vezes internado no Hospital do Luso (Luena). Ele tinha problemas de saúde que se agravaram mais tarde. Recebeu tratamento várias vezes no Hospital Verwoerd da África do Sul que tinha uma área secreta, destinada exclusivamente ao pessoal da UNITA”. 

Savimbi, grande chefe guerrilheiro. UNITA um movimento de libertação que lutava ao lado dos opressores, ocupantes e invasores!

Óscar Cardoso desfaz uma dúvida que me atormentava. Armamento capturado à UNITA era de origem soviética. Como foi parar às mãos das tropas especiais ao serviço do regime de apartheid? O coronel da Foça Aérea sul-africana conta tudo:

“A África do Sul não podia arrisca por isso montámos um esquema perfeito. Comprávamos armas de origem soviética à Hungria e a UNITA dizia que aquele material era apreendido às FAPLA nos combates. Todas as armas eram soviéticas. Entregávamos o material em Omungwelume, no Marco 14. Ali era o centro logístico. No Rundu tínhamos o grande aeroporto onde chegavam os aviões húngaros carregados de material. Nesta altura, também estava activo o Batalhão Búfalo, treinado pelo meu amigo Jan Breytenbach, um grande militar sul-africano. E tínhamos Flechas do Cuando Cubango. Hoje vivem algures na África do Sul, abandonados por todos”.

João Soares publicou um livro muito interessante intitulado “Notas Convenientes e Inconvenientes” onde fala da sua ligação à UNITA, uma organização que alugou as suas armas ao regime colonial e sobretudo aos Flechas da PIDE. Esta amizade nasceu depois do 25 de Abril de 1974, quando já se conheciam as cartas que Savimbi trocou com os generais Luz Cunha, chefe náximo, e Bettentourt Rodrigues, comandante das tropas portuguesas na Região Militar Leste, com quartel-general na cidade do Luso (Luena). Por isso, afinidades políticas com um socialista, não existem. 

Escreve Soares (Filho):

 “Esta minha primeira viagem à Jamba, em meados dos anos 80, nasce da edição de um livro de poemas de Savimbi, algum tempo antes. Era, como várias vezes tive oportunidade de o referir, um livro de poemas bastante maus que, em condições editoriais normais, eu não teria editado”. 

Os poemas eram maus, escreve João Soares. Um editor é homem de cultura e jamais promove má literatura. Por isso ele explica porque lesou a cultura de Língua Portuguesa. Foi uma questão “de direitos fundamentais na minha própria pátria”. Uma vez que “a situação que se desenhava, quando aceitei editar o tal livro de poemas, era que o representante da UNITA, o meu amigo Alcides Sakala, não conseguia encontrar editor, pois todos aqueles que tinham sido contactados tinham recusado a edição, por terem, ou estarem na expectativa de virem a ter, negócios com o poder de Luanda”.

Os poemas são maus. Logo, um editor que se preza, não os edita. Mas João Soares acha que os seus colegas editores estavam a rejeitar o livro porque queriam fazer negócios “com o poder em Luanda”, que na época só tinha negócios com editoras de livros escolares. Acontece que essas, na época, não tinham literatura no seu catálogo. O vírus da mentira propagado pela UNITA é mortífero. 

Um turista da Jamba, António Maria Pereira, era editor e dos bons. Aliás estava especializado em editar obras de dissidentes aldrabões como Armando Valladares, um impostor cubano. Nem ele quis publicar os “maus poemas” de Savimbi. João Soares publicou. Mas a justificação que dá, é igual à qualidade dos poemas do seu grande amigo Savimbi.

O inspector da PIDE Óscar Cardoso, como oficial das forças militares sul-africanas onde era perito em inteligência militar, reuniu com os oficiais angolanos quando foram iniciadas conversações entre Angola e África do Sul. Recordou esse tempo na entrevista que me concedeu:

“Do lado angolano estava gente com muito valor. Retirámos as nossas forças para além do paralelo determinado. Mas a guerra através da UNITA continuou até à Batalha do Cuito Cuanavale. Foi a batalha final. Os angolanos saíram vitoriosos. Tenho de reconhecer que foram heroicos, bateram-se pela pátria deles, como ninguém. São os vencedores”.

Todas as angolanas, todos os angolanos têm de saber que os Heróis das FAPLA e depois das FAA foram os vencedores da Guerra pela Soberania Nacional e a Integridade Territorial. Se não me levarem a mal, lembro que o comandante em chefe foi o Presidente José Eduardo dos Santos.

Estou de férias. Deixem-me descansar.

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