segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Portugal | DESESPERADOS QUE NOS DÃO ESPERANÇA -- Vida Justa

Paula Ferreira* | Jornal de Notícias | opinião

"Há pessoas que têm de contar quantas batatas vão comprar, quantos medicamentos compram ou não. Pessoas que não tomam o pequeno-almoço para dar aos filhos e que, se almoçam, não jantam". O relato foi feito ao JN, durante o protesto denominado Vida Justa, por um dos participantes. A pobreza, tradicionalmente escondida e envergonhada, começa a sair à rua. Estes cidadãos não reclamam mais salário, menos horas de trabalho ou a diminuição da idade da reforma. Pedem o elementar: salários mais justos. O básico, o que muitos portugueses, apesar de não serem ricos, não conseguem alcançar. Querem poder comer e alimentar os filhos. Um direito, dir-se-ia, anacrónico, na abastada sociedade de consumo do século XXI.

Um paradoxo, este, o do nosso tempo. Todos os dias somos inundados com as virtudes da inteligência artificial, uma enorme evolução que deveria conduzir à libertação do ser humano, proporcionando-lhe tempo e desamarrando-o do trabalho. Infelizmente, não é a isso que assistimos. Em paralelo à evolução tecnológica, cresce a precariedade e um exército de pessoas sem acesso aos bens básicos para sobreviver. É este o "caráter contraditório da sociedade moderna", de que falava Herbert Marcuse.

No sábado, Portugal pode ter vivido um momento inicial, de rutura. Os que menos podem, os invisíveis da sociedade, os que vivem nos bairros periféricos das grandes cidades, onde falta quase tudo, menos a violência, deram a cara ao sair à rua exigindo condições para uma vida mais justa - que salários de 700 euros não permitem de maneira alguma. Será "exigir o impossível"?

Vivemos numa sociedade contraditória, as grandes empresas apresentam obscenos lucros de milhões e, ainda assim, aumentam os preços sem clemência; tecnocratas, muito bem pagos, saem de empresas após terem endireitado as contas usando sempre a mesma fórmula: à custa de cortes nos salários dos outros e despedimentos. O vulcão aparentemente adormecido começa, enfim, a despertar nos desesperados que nos dão esperança.

*Editora-executiva-adjunta

Sem comentários:

Mais lidas da semana