segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

UMA LONGA LUTA EM ÁFRICA – V

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NO BERÇO DAS GLORIOSAS FAPLA

 Martinho Júnior, Luanda

9 – A Zâmbia, em meados da década de 70 do século XX, haveria de tornar-se num ponto nevrálgico para a luta de libertação levada a cabo pelo MPLA sob a clarividente e patriótica direcção de António Agostinho Neto.

Não era por acaso que Lusaka era a capital africana sensivelmente a meio caminho entre Brazzaville e Dar es Salam, de onde se distendiam as correntes progressistas da Tricontinental voltadas a sul, testadas nos embates com a internacional fascista que tinham o “apartheid” como seu fulcro principal, socorrendo-se sempre de governos títeres filtrados pelas inteligências da NATO, França incluída.

Com a mudança do esforço para a Frente Leste (IIIª e IVº Regiões Político Militares), o MPLA manteria mesmo assim esforços a norte, na direcção da IIª e da Iª Regiões Militares, a partir duma retaguarda como o Congo post Abade Fulbert Youlou, com capital em Brazzaville, inestimável componente progressista cujo território lhe servia de rectaguarda na mesma altura em que se havia instalado a IIª coluna do Che!

A inteligência francesa e as redes de Jacques Foccart haviam perdido em Brazzaville e isso levou à queda do Abade Fulbert Youlou, bem como de Tshombé no Katanga, algo que havia de alterar o quadro a oeste do grande Congo!

Progressistas congoleses, angolanos e cubanos haviam de tornar possível essa rectaguarda, apesar de conjunturas refractárias que favoreceram a eclosão da “revolta activa”, uma corrente de oposição ao Presidente Agostinho Neto que pouca influência teve directamente no corpo de guerrilheiros e na conduta da luta armada no terreno.

Na Zâmbia a situação era contudo bem diferente da do Congo: ali perante tantas indecisões africanas, vulneráveis ao neocolonialismo de então, as linhas de inteligência dos campos progressista e internacional fascista, cruzavam nas ruas de Lusaka, no miolo da complexa sociedade zambiana, nos campos sócio-político (inclusive nos instrumentos de poder onde era visível a olho nu o papel britânico), económico e diplomático.

O MPLA tinha imensas limitações em Lusaka, mas nas províncias ocidentais da Zâmbia, fora dos olhos e dos instrumentos de poder do estado zambiano sob a égide do Presidente Keneth Kaunda, havia um desafogo que providenciava maior capacidade de manobra e mobilização humana das rectaguardas que catapultavam a guerrilha para dentro de Angola.

Em 1973 na Zâmbia, a linha internacional fascista juntou esforços de forma conjugada para tentar obstruir ou vergar a Luta de Libertação do MPLA e da FRELIMO, procurando a todo o transe neutralizar a direcção até então indomável do Presidente Agostinho Neto.

O colonialismo português fez mão das seguintes linhas de conduta, entre outras, no que a Angola dizia respeito:

- Reorganizou com alguns resultados, coerciva ou persuasivamente, as populações angolanas nas áreas de projecção do MPLA, implantando as “sanzalas da paz” num enquadramento de “acção psicológica”, “contra subversão” e “contra propaganda”, com vista a inibir os contactos das comunidades com a guerrilha do MPLA;

- Recrutou Savimbi, no quadro da Operação Madeira, de modo a que ele se opusesse à progressão das guerrilhas do MPLA em direcção à geoestratégica região central das grandes nascentes, no amplo planalto do Bié;

- Delineou ofensivas militares que implicaram intervenções mais poderosas que antes (operações Sirocco, por exemplo), com muito maior capacidade de manobra (as SADF deram uma ajuda a partir de 1968 no Cuando Cubango) e introduzindo o emprego de desfolhantes sobre as áreas libertadas do MPLA;

- Organizou ofensivas de inteligência no âmbito da plataforma Alcora, conduzidas, por exemplo, por via de Jorge Jardim ou explorando contactos do Caminho de Ferro de Benguela, enredando particularmente o Presidente Kenneth Kaunda e explorando a capacidade dos enlaces da inteligência económica dos colonialistas portugueses com outras componentes de inteligência, sobretudo as determinadas pela presença do “lobby” dos minerais na região, dominadoras do“copperbelt” zambiano.

A “ementa” dos procedimentos de inteligência da internacional fascista contra o MPLA correspondia ao que tradicionalmente o imperialismo forjava amiúde em África: divisionismo, tribalismo, regionalismo, etno-nacionalismo, agenciamentos nas elites africanas em função dos interesses neocoloniais (como ocorria na “FrançAfrique”)… uma “ementa” que no MPLA pôde influenciar na Frente Leste uma parte do corpo de guerrilha de origem camponesa (cerca de 2.000 homens), face às vicissitudes da luta armada e sua expressão elástica, mas poucos comandantes de coluna e esquadrão arrastou.

No Congresso de Lusaka (de 18 a 22 de Agosto de 1974), sob as condições especiais em que ele se realizou (condições impostas pelo governo zambiano), os comandantes de coluna e de esquadrão do Exército Popular de Libertação de Angola apareceram fardados, com as devidas patentes, desarmados mas unidos no apoio firme ao Presidente Agostinho Neto, fruto naturalmente das experiências históricas já acumuladas e dum longo trabalho ideológico, cívico, organizativo e disciplinar interno protagonizado no seguimento do esforço de “Vitória é Certa”…

Foi assim, nesse caudal de confrontações ideológicas e enfrentando a acção concertada de várias inteligências integradas na internacional fascista, que nasceram as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola!

As FAPLA, como o MPLA, estavam imunes sob a direcção do Presidente António Agostinho Neto, em relação aos mais diversos expedientes das inteligências do campo da internacional fascista, inclusive dos expedientes de inteligência económica e do seu providencialmente adstrito “soft power”, aglutinado em torno do “lobby” dos minerais!

A trajectória de Daniel Chipenda haveria de o comprovar como um factor vulnerável estimulado pela internacional fascista no quadro de suas projectadas influências em África.

Daniel Chipenda não era um comandante guerrilheiro e ao dar a cara pela Revolta do Leste assumindo a sua direcção num momento em que a passos largos se aproximava a derradeira batalha pela independência e soberania de Angola no cumprimento do Programa Mínimo do MLA, conduziu essa facção no trânsito pela FNLA, rumo à constituição do Batalhão 32, (“Batalhão Búfalo”), uma unidade militar que recebeu efectivos mais diversos de proveniência lusófona (inclusive são-tomenses), integrando os esforços das South Africa Defences Forces.

Esses efectivos tiveram instrução secreta em MPupa e integrariam a “Task Force” da Operação Savana levada a cabo pelas SADF em estreita coordenação com a CIA (Operação “Iafeature”) com o governo zairense, com a FNLA e com a UNITA.

10 – Sob a direcção clarividente do Presidente António Agostinho Neto e integrando as linhas de inteligência progressistas arquitectadas em África, apostadas na Luta contra o colonialismo português, contra o “apartheid” e contra uma variada “ementa” de suas sequelas, o MPLA e as FAPLA assumiram a continuidade da libertação do continente “de Argel ao Cabo da Boa Esperança” do lado oeste da Linha da Frente (a leste assumiu-o com uma geometria mais variável de procedimentos a FRELIMO, em Moçambique)!

Primeiro foi garantida a independência e a soberania num quadro progressista que serviria de base à constituição da Linha da Frente, ou seja a deslocação na direcção sul (Luanda e Maputo), da linha de partida entre Brazzaville e Dar es Salam.

Esse passo teve também que ver com a esclarecida ajuda internacionalista cubana em África, desde a passagem do Che em 1965.

Depois foi garantida a continuidade da luta contra o “apartheid”, tornando-se Angola na “trincheira firme da Revolução em África”, ainda que os espaços neocolonizados fossem extensivos às suas fronteiras, conforme o Zaíre de Mobutu e a vulnerabilidade da Zâmbia.

O MPLA, as FAPLA e os seus aliados (particularmente Cuba), estiveram à altura dos desafios e foram exemplares sob o ponto de vista geoestratégico, obtendo-se sucessivamente as independências da Namíbia (com a SWAPO em vantagem) e do Zimbabwe (emergindo a ZANU- PF sob direcção de Robert Mugabe), assim como o colapso do regime do “apartheid”…

Esse exemplo perdura até hoje inscrito na história contemporânea das regiões austral e central do continente africano e deve ser melhor aproveitado no sentido da SADC priorizar todos os processos viáveis de integração num quadro de alargada luta contra o subdesenvolvimento, o que está a tardar acontecer.

De facto essa integração, para além das iniciativas de diversificar a economia angolana, torna-se urgente face à expansão da mancha neocolonial em África, na direcção sul e a partir do Sahara e do Sahel, desde o Senegal à Somália, algo que já se manifesta na própria textura dominante na União Africana!

É evidente também que essa integração não pode perder de vista as actividades das inteligências económicas das potências interessadas nos investimentos, tendo em conta os dilemas africanos correntes, ou seja: por um lado a necessidade e a aspiração de desenvolvimento em África, por outro a sujeição à devassa das inteligências dos investidores, sobretudo na tentativa de que África seja continuamente reduzida à “expressão tradicional” de mero fornecedor de matérias-primas e numa posição de completa dependência, ou vassalagem, em função dessa perspectiva eminentemente neocolonial de relacionamento com o continente-berço da humanidade!

Elementos da internacional fascista filtrados pelas inteligências suas componentes:

O abade Fulbert Youlou (Congo, Brazzaville) e Moisés Tshombé (Katanga), desfilando na então Elizabethville (http://libeafrica4.blogs.liberation.fr/2015/03/18/le-barbouze-africain-de-foccart/);

O Presidente Mobutu do Zaíre e o homem-chave da célula africana da Presidência Francesa, Jacques Foccart (http://www.ivoirebusiness.net/articles/fran%C3%A7afrique-jacques-foccart-lhomme-de-lombre-%C3%A0-la-lumi%C3%A8re-de-ses-archives );

Prova da ambiguidade portuguesa post 25 de Novembro de 1975: visita dos Botha à Madeira em 1986 (https://www.publico.pt/2013/12/09/mundo/noticia/mandela-mandela-gritou-mario-viegas-na-recepcao-oficial-aos-botha-na-madeira-1615639);

Prova da “filtragem” de Daniel Chipenda e da Revolta do Leste, transforada em Batalhão Búfalo (https://www.facebook.com/WarInAngola/photos/a.958170037550382.1073741838.167528979947829/1053168324717219/?type=3&theater);

Outra prova dessa “filtragem” elaborada no âmbito da internacional fascista: a constituição das forças que integraram a Operação Savana das SADF contra Angola (https://www.facebook.com/WarInAngola/photos/a.958170037550382.1073741838.167528979947829/1053168324717219/?type=3&theater)

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