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terça-feira, 7 de março de 2017

ASSIMILAÇÃO NEOCOLONIAL SEM PRECEDENTES!...


Martinho Júnior, Luanda 

1- Angola, que de acordo com Margareth Anstee ficou "órfã da guerra fria”, teve de se adaptar como pôde ao capitalismo neoliberal, cujas portas internacionais foram escancaradas com a"glasnost" anunciada em Bicesse a partir de 1990!...

O quadro fotográfico dessa “glasnost” imposta a partir do exterior a Angola, tirando partido do colapso dos aliados do Movimento de Libertação em África à excepção de Cuba, (ela própria no entanto remetida ao período especial), está exposto na galeria dos intervenientes em Bicesse como mais tarde nos Açores!

Em Bicesse fez-se pelas artérias neoliberais o que o Alvor não havia conseguido antes em prol dos interesses capitalistas da hegemonia unipolar!

Nos Açores um pré-aviso de guerra pairou como uma espada de Dâmocles, sobre a cabeça dos incautos, com o anúncio do Iraque como a próxima vítima do choque neoliberal logo a seguir!

Angola foi o “prato servido a frio” em Bicesse e, tal como o anfitrião Portugal, colocado também em flácida quarentena por via dos Açores!...

Por isso Angola sofreu o choque (entre 1992 e 2002) e agora continua a sofrer a terapia neoliberal, uma vez que Portugal, (entenda-se: os sucessivos governos portugueses e os interesses coligados ou da própria burguesia portuguesa), desempenhou um papel essencial nos "bons serviços" de tudo o que foi feito "a cavalo" desde 25 de Novembro de 1975 até os dias de hoje, Bicesse e Açores incluídos!...

Angola "por osmose" passou a ser portanto o que a inteligência económica portuguesa quis e pôde em múltiplos vectores de actividade e só não foi mais por que houve alguns factores internos de resistência, pouco conhecidos e marginalizados por uns ou por outros, que sobreviveram como“camelos” na travessia de mais de 30 anos de deserto!...

Em Portugal durante esse período e até muito recentemente, o PCP isoladamente, foi o único a fazer a leitura identificada com ambos os povos. 

2- Quer em Angola, quer em Portugal muito poucos abordaram minimamente o que toca às afectações neoliberais nos respectivos processos nacionais e regionais, que se reflectiram com tónicas específicas no âmbito do atraente rótulo de “relacionamento bilateral”:

- Em Portugal por que a entrada na União Europeia, a manutenção da presença na NATO, a relativa dependência aos Estados Unidos (visível por exemplo no que diz respeito aos contenciosos dos Açores) e por fim o crescimento da dívida, foram sempre factores inibidores de fundo; esses factores influenciaram duma forma ou de outra no espectro sócio-político português e nos seus“bons ofícios” onde quer que fosse desde o 25 de Novembro de 1975;

- Em Angola por que, sem aliados socialistas e face aos riscos que se apresentavam “no terreno” no seguimento do fim do “apartheid” (por exemplo o neocolonialismo que prevalecia no então Zaíre sob a égide de Mobutu e a estrita aliança do “sistema diamantífero” do corrupto Mobutu com Savimbi tendo por detrás o “lobby” dos minerais com Maurice Tempelsman à cabeça), o que se apresentava era uma autêntica “luta pela sobrevivência” dos remanescentes do próprio Movimento de Libertação em África, agravada pelos encargos de reconstrução nacional muito ampla que havia (e continua a haver) que fazer!

A projecção dos relacionamentos “bilaterais” acabou por ser feita, mais ou menos veladamente, acima dos poderes em Portugal e em Angola, sobretudo pela aristocracia financeira mundial, tornando determinantes as ementas que estão a ser rotuladas de “bilaterais”!


Essas ementas de feição do domínio acima dos poderes de Portugal e de Angola, escondem deliberadamente os impactos em termos de ingerência e de manipulação, em função dos termos do capitalismo neoliberal com que está a ser construída a globalização conforme ao capricho egoísta dos 1%, eliminando ou neutralizando toda a possível concorrência num quadro exclusivista de hegemonia unipolar, que condiciona e afecta até as capacidades dos serviços de inteligência em Portugal como em Angola, reflectindo-se por outro lado nas sucessivas “crises bancárias”, na influência por via dum “soft power” tornado omnipresente, na persistência da acção dos serviços de inteligência e nos ambientes humanos adjacentes em curso.

Poder e instrumentos de poder em ambos os países, estão subordinados à hegemonia unipolar nos termos do “relacionamento bilateral”, um factor de análise extremamente sensível que os “analistas”, por causa também desses interesses dominantes, há muito deixaram de abordar, ficando-se pelo tronco, pelos ramos e pelas folhas da árvore, cujas raízes estão a ser tornadas invisíveis… até ao dia em que as ropturas nos e com os bancos deixam pelo menos uma parte delas expostas!

3- Os “relacionamentos bilaterais” condicionados pela hegemonia unipolar instrumentalizando o contexto por via dos mais diversos canais reitores (sobretudo a União Europeia, a NATO, a Alemanha e os Estados Unidos), tiveram no Acordo de Bicesse, assinado em Maio de 1991, conforme tenho vindo a considerar, a “porta externa” da pressão que provocou a “glasnost angolana”!

“Providencialmente” a Rússia de então estava, com a regência de Gorbatchev e Boris Ieltsin, atingida em cheio também plena crise de capitalismo neoliberal emanado pela hegemonia unipolar, explorando a vitória sobre o socialismo e a implosão!

Portugal foi a plataforma lançada pela hegemonia unipolar no sentido de suprir as necessidades de Angola “órfã da guerra fria” em termos de políticas de reconstrução, reconciliação e desenvolvimento (“soft power” instrumentalizado), até por que sua economia fragilizada se propiciava a um alargado “jogo de cintura” em direcção a África, um “jogo de cintura” capaz até de ser feito numa maior ou menor sintonia com a própria China, muito para além das conexões possíveis por via das redes confluentes de Macau e um pouco de Hong Kong!

“Agarrada” por via do Euro à União Europeia, com uma dívida que não será paga, essa plataforma servil está mais que garantida na sua longevidade, pois está quase ao nível da “órfã” Angola, cujas potencialidades ficavam “à mercê”, prontas a explorar.

A hegemonia unipolar podia assim “dar a volta” a Angola por Portugal, ou até pela China (com ou sem o concurso de Macau ou Hong Kong), neste caso apesar das intenções multipolares expressas pelo quadro dos BRICS!

Esse expediente só podia ser levado avante com o MPLA e por isso, os instrumentos neocoloniais gerados pela hegemonia unipolar no tempo da “guerra fria”, que continuavam “no terreno” em África, ou se iriam “adaptar”… ou sofreriam as contingências, conforme se verificou!

Tudo isso se passou num contexto e numa conjuntura de capitalismo neoliberal emergente após a implosão do socialismo no continente euroasiático, desde o início da década de 90 do século passado, em Portugal quanto em Angola, pelo que é a partir daí e levando muito a sério o carácter do domínio no âmbito da hegemonia unipolar, que os analistas honestos devem começar a equacionar os relacionamentos bilaterais que se querem saudáveis entre Portugal e Angola, sujeitando a particular crítica desses relacionamentos entre os anos de 1990 e 2017!

A gestão do camarada José Eduardo dos Santos num ambiente tão adverso (evitando empregar a palavra hostil), ao longo de mais de 30 anos, tem a seu favor a arte de governar em conjunturas tão difíceis e a necessidade de se atravessar um longo período que apanhava Angola post Guerra Fria numa posição muito fragilizada a nível interno, regional, continental e internacional, pelo que as sucessivas iniciativas em direcção à paz foram incontornáveis, tal como as políticas de reconstrução, reconciliação e reinserção social, ainda que com o risco das filtragens “soft power” nas quais se inscreve o relacionamento com Portugal.

Ao contrário do que está a acontecer correntemente em 2017 com o contexto e a conjuntura internacional que além do mais começa a ser outra (o ambiente multipolar, apesar de tudo, está a ter mais potencialidades e capacidades nos tabuleiros da globalização) a “assimilação neocolonial sem precedentes” sustentada entre 1990 e 2017 já não tem mais razão de ser, pelo menos com os impactos que têm tido até ao início deste ano!

É nesse sentido que Angola deve rever os contenciosos com Portugal, com particular incidência no que diz respeito à Educação! 

Roteiro fotográfico do quadro de subserviência portuguesa no âmbito do capitalismo neoliberal: Bicesse (Maio de 1991) e Açores (16 de Março de 2003).

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