quinta-feira, 12 de maio de 2022

Angola | A MÉDICA DESAPARECIDA E AS CASAS DO POVO

Artur Queiroz*, Luanda

Primeiro Angola. Acima de Deus estão os angolanos. O Club K, voz da UNITA mas que também pode ser alugada por tudo quanto é banditismo político, decidiu reescrever a história e publicou um material falso sobre a Grande Batalha de Luanda (segunda fase) em 1975, quando as e os luandenses expulsaram as tropas de Mobutu que se escudavam atrás da FNLA, movimento signatário do Acordo de Alvor, presente no Governo de Transição e no Colégio Presidencial.

Eis a memória desses acontecimentos sangrentos que vivi como repórter. As minhas reportagens foram publicadas no Diário de Luanda e no jornal Vitória Certa, na época órgão do MPLA, produzido pelo seu Departamento de Informação e Propaganda (DIP) dirigido transitoriamente pela dupla Carlos Rocha (Dilolwa) e Lúcio Lara, ambos membros do bureau político. Depois da Grande Batalha de Luanda entregaram a pasta. 

A FNLA adquiriu um prédio de sete andares na Avenida Brasil e ali abriu a sua sede central. As instalações eram guardadas por militares zairenses, apresentados como combatentes do Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA). Os representantes das actividades económicas aderiram em peso ao movimento de Holden Roberto. E ofereceram instalações em todos os bairros suburbanos e na cidade de asfalto, para a abertura das Casas do Povo, comités de acção do partido. 

Todos os dias chegavam ao aeroporto de Luanda aviões de Mobutu cheios de tropa zairense. O almirante Rosa Coutinho, presidente da Junta Governativa de Angola, foi alertado para a invasão e não permitiu mais desembarques. Mas milhares de militares já estavam aquartelados na sede central da FNLA, nas Casas do Povo e em grandes armazéns espalhados pela cidade e subúrbios. O comando ficou instalado na fábrica de borracha no Cazenga, entretanto paralisada, por abandono dos proprietários.

As tropas zairenses criaram postos de controlo em todos os bairros suburbanos, na Avenida Brasil e ruas limítrofes. Quem não tinha cartão de membro da FNLA não passava. Muitos eram presos. E desses, a maior parte desaparecia. A situação tornou-se insustentável. A revolta dos luandenses tinha de acontecer. Aconteceu. As primeiras Casas do Povo atacadas estavam localizadas no Marçal e no Rangel. Quando as tropas zairenses bateram em retirada, foi possível entrar nas instalações. Eu entrei. Lá estava uma área de tortura e um cárcere, ainda com prisioneiros. Cada sala de torturas tinha uma cadeira eléctrica rudimentar.

Os musseques já tinham moradias e prédios mas não existia saneamento básico. Os esgotos de cada edifício drenavam para fossas. Um soldado zairense capturado informou que os prisioneiros eram despejados nas fossas! Indescritível. Foram retirados corpos já em decomposição mas alguns ainda reconhecíveis. E quase todos froam identificados pelos familiares. 

Os repórteres fotográficos da época registaram esses horrores. Carlos Guimarães (Piriquito) ainda está vivo. Mas recordo outros que fotografaram tudo: Lucas de Sousa, António Gouveia e Augusto Bernardo (Diário de Luanda), Alfredo Saraiva ou Bernardo Sobrinho. Alguns sei que faleceram.

Nos frigoríficos de cada Casa do Povo libertada estavam corações, fígados e garrafas de sangue. O militar zairense capturado informou que o pessoal que guardava as instalações da FNLA acreditava que se comesse as vísceras do inimigo e bebesse o sangue, tornava-se imortal. Outros militares zairenses, capturados na Fortaleza de São Pedro da Barra, onde se refugiaram depois de abandonarem o posto de comando na fábrica de borracha do Cazenga, confirmaram esses hábitos de consumir corações e fígados humanos, beber o sangue do inimigo para se tornarem invencíveis. Um apontamento. A épica operação contra o comando central do ELNA no Cazenga foi comandada por aquele que hoje é o General Zé Maria.

As reportagens destes acontecimentos estão publicadas nas centrais do Diário de Luanda. O jornal Vitória Certa, a cuja redacção eu pertencia, fez um número especial. Dezenas de fotografias publicadas! Já agora, eis os autores desse trabalho histórico: Carlos Guimarães, António Gouveia e Augusto Bernardo (Piriquito), imagens, mais Hélder Neto, Bobela Mota, Rui de Carvalho, Luís Filipe Colaço e eu. Uma informação desnecessária: Ninguém recebia escudos, dólares, francos ou outra qualquer moeda. Habitualmente, ainda pagávamos!

O respeito que devo a alguns camaradas que hoje brincam com as tragédias que reportámos nas Casas do Povo da FNLA, leva-me a não lhes responder. Mas o texto publicado no Club K obriga-me a repor a verdade dos factos. De uma vez por todas.

Uma médica da Maternidade de Luanda terá desaparecido antes de rebentar a segunda fase da Grande Batalha de Luanda (a primeira foi contra os esquadrões da morte dos colonos, em 1974)). Enquadramento. O ministro da Saúde do Governo de Transição era Samuel Abrigada que se envolveu em casos de polícia gravíssimos. Vários médicos denunciaram esse comportamento criminoso. 

Exemplos concretos. O ministro da FNLA Samuel Abrigada importava material de guerra com o rótulo de medicamentos e equipamentos médicos. João Serra e eu publicámos várias reportagens com provas evidentíssimas deste crime. A parte portuguesa no Governo de Transição, que tinha a responsabilidade da ordem pública e defesa da lei, fechava os olhos. Técnicas e técnicos de saúde denunciaram, dando a cara, o comportamento da tutela. 

Uma tal Leonor Figueiredo já escreveu dois livros sobre Sita Vales, uma jovem que apareceu em Angola em meados de 1975 e foi colocada como funcionária do Departamento de Organização de Massas (DOM) do MPLA, nas instalações da Vila Alice. Politicamente nunca foi mais do que isso. Só me interessa essa parte. Mas ganhou protagonismo por ter sido namorada de Nito Alves e depois companheira de José Van-Dúnem. A escriba deve receber à palavra. Mistura ficção com aldrabices primárias mas isso é lá com ela. 

Um pasquim português chamado “Correio da Manha”, entrevistou a criadora da personagem Sita Vales  a propósito de um livro que escreveu sobre Angola. À pergunta qual a história que conta no livro que mais a impressionou? A velhota taralhouca respondeu: “A da médica, porque ela desmentiu um boato, a imprensa do MPLA publicou uma notícia a dizer que tinham sido encontrados órgãos humanos numa das delegações da FNLA. Isso era mentira, porque tinham roubado esses órgãos do teatro anatómico da Maternidade de Luanda, onde essa médica trabalhava. Foi ela que desmentiu o boato contra a FNLA. E isso levou a que a tivessem raptado. Ela é uma das desaparecidas. É preciso explicar o porquê”.

Primeira aldrabice. Não foi a “imprensa do MPLA” que publicou os horrores das Casas do Povo da FNLA. Foi toda a comunicação social angolana e enviados especiais dos Media internacionais.

Segunda aldrabice. Nenhuma médica desmentiu, fosse o que fosse. Até porque os factos mais graves tinham a ver com os cárceres privados, as salas de tortura e as vítimas atiradas para as fossas, algumas ainda vivas! Os corações e as garrafas de sangue humano foram factos laterais.

Terceira aldrabice. A Maternidade de Luanda (junto ao Hospital Militar) não tinha teatro anatómico. Isso só existia no Hospital de São Paulo, universitário, (hoje Américo Boavida) e no Hospital Maria Pia. Por que motivo uma médica anestesista da maternidade (a Casa de Saíde Doutor Jaime Novais ainda não tinha sido transformada em maternidade), havia de desmentir um boato lançado contra a FNLA? E lá existiam dezenas de corações e fígados, como foram encontrados em todas as Casas do Povo?

Uma teoria e não mais do que isso. A UNITA e a FNLA abandonaram o Governo de Transição e o Colégio Presidencial, quando milhares de militares zairenses foram expulsos de Luanda. Antes dessas confrontações, já Samuel Abrigada tinha fugido de Angola porque técnicos de saúde denunciaram publicamente que não recebiam os seus salários há dois meses. 

A Polícia Judiciária (parte portuguesa) foi investigar e os agentes descobriram que o ministro tinha roubado milhares de contos dos fundos do seu ministério. Foi para a Alemanha onde ficou a viver dos rendimentos. A médica desaparecida pode ter denunciado o ministro e pagou com a vida essa ousadia. O MPLA ia matar a médica porquê? Facto indesmentível: Ninguém desmentiu as nossas reportagens nas Casas do Povo da FNLA. Porque não havia nada para desmentir. Consultem a imprensa da época e confirmam que não houve qualquer desmentido.

O que vão encontrar (no Diário de Luanda) são os bonecos do Mbambi (Cabral Duarte) com argumentos meus, que glosavam o roubo do dinheiro pelo Samuel Abrigada, os casos de canibalismo das tropas zairenses e o “poder pipilar” do Galo Negro, quando Jonas Savimbi entrou em Angola com as tropas invasoras sul-africanas e aos microfones do Rádio Clube da Huíla ameaçou os jornalistas de morte! Até nomeou o meu nome. Como é público e notório, o chefe do poder pipilar (nós éramos do Poder Popular) não me matou. Ainda que não esteja a sentir-me nada bem.

O MPLA só tem a ver com estes factos isto: O seu jornal, Vitória Certa, dedicou um número inteiro ao acontecimento porque existiam centenas de fotos e era preciso divukgar esse material, para as angolanas e os angolanos saberem com quem estavam metidos. Penso que o Santocas, na época fez uma música glosando o tema do roubo de milhões do ministro Samuel Abrigada. Nenhuma médica desmentiu o roubo.

*Jornalista

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