sábado, 29 de novembro de 2014

EUA: ONTEM OHIO, HOJE MISSOURI




O incidente de Ferguson teve um papel catalisador para o crescimento das manifestações e tornou-se símbolo da violência contra negros nos Estados Unidos.

Tomaz Paoliello* - Carta Maior

Em junho de 1970 foi lançada nos Estados Unidos a faixa Ohio, de Crosby, Stills, Nash & Young. O grupo entrou em estúdio para gravar a música de Neil Young escrita menos de um mês antes. A pressa era justificada, a canção havia sido concebida como reação ao horror do assassinato de quatro jovens estudantes da Universidade de Kent pelas forças da Guarda Nacional de Ohio, no dia 4 de maio. As cenas de soldados armados com baionetas marchando contra estudantes desarmados, e as imagens dos corpos mortos estendidos no campus se tornaram inspiração para o compositor e símbolos dos movimentos contra a Guerra do Vietnã. 

Ao longo dos últimos meses, uma série de protestos se espalharam pelos Estados Unidos após o assassinato de um jovem negro, Michael Brown, por Darren Wilson, um policial branco. O assassinato é parte de um fenômeno maior de crescente repressão policial violenta voltada a pobres e minorias. De acordo com estatísticas recentes, na cidade de Nova York, onde a população de negros e hispânicos é de aproximadamente 50%, os casos de mortes por violência policial são de aproximadamente 90% para os mesmos grupos. O incidente de Ferguson teve um papel catalisador para o crescimento das manifestações e tornou-se símbolo da continuada violência contra negros no país. O julgamento que inocentou o policial, mais cedo essa semana, reacendeu a onda de protestos que se iniciaram em agosto. As imagens que tomaram os noticiários em todo o mundo são assustadoras: ainda com a lembrança do corpo de Brown estendido na rua, vemos manifestantes defrontados com soldados armados para combate em zonas de guerra. Young nunca pareceu tão atual.

A letra da música do grupo Crosby, Stills, Nash & Young convoca não apenas universitários para as manifestações contra a Guerra no Vietnã. Os músicos acreditavam que seu sucesso poderia ajudar a amplificar a voz dos estudantes  que pediam o final da guerra, movimento que crescia com os que se juntaram para gritar também por liberdade de manifestação e fim da repressão policial armada. De fato, a repercussão do massacre de Kent levou a uma greve de estudantes por todo o país, e enormes protestos tomaram as ruas de grandes cidades como Nova York e Washington. A canção foi banida das grandes rádios norte-americanas por sua menção explícita ao presidente Richard Nixon, mas ganhou grande repercussão nas pequenas rádios universitárias. O chamado a lutar por todos e não apenas por si mesmo foi ouvido, e isso precisa ser feito novamente.

A dupla face da Guarda Nacional

A Guarda Nacional é um corpo particular dentro do aparelho repressivo americano. Organizadas em cada um dos 50 estados, elas servem dupla função – são utilizadas como forças de reserva do exército americano, sob o Departamento de Defesa, e são utilizadas como contingente adicional e emergencial para funções de segurança pública. Apesar das polícias norte-americanas serem, em grande medida, responsabilidade das municipalidades e condados, em eventos de maior magnitude a Guarda Nacional é chamada para apoio às forças locais.

As Guardas são formadas principalmente por voluntários, geralmente trabalhadores em outros empregos, e que servem apenas durante alguns períodos do ano. Apesar de serem utilizadas como forças de segurança pública, o treinamento e organização das guardas é majoritariamente militar. Seus uniformes, equipamento, táticas e procedimento são militarizados. Notícias recentes dão conta de que os homens da Guarda Nacional foram e são treinados pelos militares ou por empresas militares de segurança privada, e atuam nas guerras ao lado das forças regulares.

Durante a guerra do Vietnã a repressão proveniente das Guardas Nacionais aparecia com uma face adicional de controvérsia – no período, alistar-se na Guarda foi uma maneira de driblar o alistamento em unidades que se envolveriam em missões de combate. A maioria dos membros da Guarda Nacional nem sairia do território americano, e os que de fato foram enviados ao Vietnã ou ao Camboja raramente estiveram no front. As chamadas “unidades champanhe” foram formadas por filhos das famílias ricas e pessoas com conexões no governo.  A Guarda que havia se tornado símbolo da desigualdade de classe na sociedade americana tornou-se também a linha de frente da repressão aos movimentos sociais anti-guerra nos Estados Unidos.

Se a Guarda Nacional teve papel menor no palco da Guerra do Vietnã, tornou-se uma das principais fornecedoras de homens nos conflitos recentes no Afeganistão e no Iraque. Com o fim da conscrição, em 1973, uma das vitórias dos manifestantes anti-Vietnã, os Estados Unidos passaram a depender exclusivamente de voluntários e contratados privados. Dessa forma, a Guarda Nacional se tornou um dos maiores contingentes de soldados dos EUA na Guerra ao Terror, compondo quase metade do total de forças combatentes no Iraque e no Afeganistão. Esses homens, treinados para operações de contraterrorismo e contra-insurgência, são os mesmos que operam como “defensores da ordem” em protestos nos Estados Unidos. A ambiguidade de sua natureza se revela como um fenômeno mais generalizado de adoção de procedimentos militares para as forças de segurança pública. O massacre de Kent nos mostra que o fenômeno não é novo, mas a repressão às manifestações em Ferguson chama atenção ao importante crescimento desse tipo de solução para a segurança pública.

Circunstâncias diferentes, remédios iguais

O renovado vigor das manifestações em Ferguson, Missouri, como consequência do julgamento do policial responsável pela morte de Michael Brown, levou o atual governador do estado de Missouri, Jay Nixon, a convocar a Guarda Nacional para auxiliar o controle dos protestos. Essa velha conhecida dos movimentos sociais norte-americanos veio juntar-se a um contingente policial já amplamente militarizado, treinado por de empresas militares de segurança privada, e com equipamento excedente comprado das forças armadas. Em agosto, uma série de reportagens demonstrou espanto com transformação pela qual havia passado a polícia, cada vez mais parecida com tropas militares. Com a convocação da Guarda Nacional, a repressão policial militarizada se amplia em escala e em contingente.

Numa
sinistra coincidência histórica, um novo Nixon repete textualmente a denúncia de Neil Young. As imagens que chegam de Ferguson são dos “soldados de chumbo de Nixon” marchando contra manifestantes desarmados. As baionetas das imagens dos protestos em Kent deram lugar a moderno equipamento de combate, incluindo rifles e carros blindados, que lembram mais os cenários dos conflitos no Afeganistão e no Iraque. Ademais, o amplo processo de crescimento da repressão social por forças de segurança pública se dá dentro de um perigoso processo de despolitização, no qual pesam a eficiência e a capacidade de controle, e pouco importam direitos e liberdades. As palavras do governador sobre a necessidade de proteger “as pessoas e a propriedade” são de um cinismo avassalador ao constatarmos que as pessoas que devem ser protegidas evidentemente não são os manifestantes. É importante lembrar que  das quatro mortes em Kent pelas mãos da Guarda Nacional, duas foram de jovens que não faziam parte dos protestos.

A emoção do choro de David Crosby ao final da gravação de Ohio parece não ter se diluído com o tempo. Seu grito de “quantos mais?” parece ainda ecoar em cada episódio de violência policial. Os processos de militarização das polícias e da gestão urbana nos lembrarão por muito tempo dos tristes versos de Neil Young. Seja nos Estados Unidos, seja no Brasil, a luta é para que as vítimas, principalmente negros e pobres, não se tornem invisíveis. Nas palavras do próprio Young “como é que você pode fugir sabendo disso”?

*Professor de Relações Internacionais da PUC-SP


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