Paulo
Baldaia – Diário de Notícias, opinião
Julgando
impossível vencer a guerra, a geringonça faz guerrilha a Carlos Costa. Pelo
Bloco e pelo PCP o processo de destituição do governador do Banco de Portugal
já estava iniciado, já estava até concluído. A avaliar pela forma como Carlos
César e João Galamba reagiram à reportagem da SIC, os socialistas também têm
esse desejo secreto. Quando se ouve o presidente do PS dizer que o partido
"está a refletir" sobre as condições que Carlos Costa tem para
continuar governador pode traduzir-se por: "É para queimar em lume
brando."
Dessa
guerrilha que a esquerda parlamentar montou para diminuir o governador faz
igualmente parte a água na fervura colocada pelo primeiro-ministro. António
Costa, chefe do governo, lembra que ninguém esqueceu o que António Costa, secretário-geral
do PS, disse sobre a recondução de Carlos Costa, mas conforma-se quanto à
alegada impossibilidade de o substituir, porque o governador "tem um
estatuto próprio de inamovibilidade e [está] sujeito à fiscalização própria do
sistema de supervisão europeu". A política está sempre a precisar de
tradução, desta vez deve ler-se: "Sem a proteção europeia, Carlos Costa já
estava na rua."
A
pertença à moeda única, que no início do século nos iludiu com o crédito
barato, não para de nos apresentar faturas. A começar pelo facto de o crédito
já não ser barato e a acabar na perda total de soberania para resolvermos o que
se passa cá em casa. É evidente que, a partir de Frankfurt, Mario Draghi e o
Banco Central Europeu têm muito mais poder em relação ao Banco de Portugal do
que a maioria de esquerda formada no Parlamento português. A eles
interessa-lhes pouco estar a discutir o que é ou não é uma falha grave em
Lisboa e menos ainda lhes interessa o que António Costa, Catarina Martins e
Jerónimo de Sousa pensam de Carlos Costa. Para o BCE interessam muito pouco as
responsabilidades próprias, importam muito mais as resoluções alheias.
Impedidos
de fazer o que pensam ser o mais acertado (substituir o governador), a maioria
e o governo não fazem a vida fácil a Carlos Costa. É igualmente uma tática de
guerrilha a forma como boicotam a formação da administração do banco central,
pedindo mulheres quando lhe apresentam homens, exigindo economistas quando na
lista estão juristas, mostrando que o pequeno poder sabe condicionar uma
independência que, aos olhos do poder soberano que lhes foi dado pelo povo, é
manifestamente exagerada.
A
impossibilidade de defesa eficaz
O
mandato de Carlos Costa à frente do Banco de Portugal está a ser mais
escrutinado do que os mandatos todos juntos dos governadores anteriores e o que
vamos sabendo não pode deixar-nos satisfeitos. No desastre que foi o sistema
financeiro nesta década, o bolso dos contribuintes é um poço sem fundo e o
regulador chega sempre atrasado.
O
excelente trabalho jornalístico de Pedro Coelho na SIC deixa Carlos Costa em
muito maus lençóis. O governador talvez soubesse demais para ter feito tão
pouco, há pelo menos muito mais explicações para dar aos portugueses. Lesados
fomos todos, os que compraram gato por lebre com a "ASAE" financeira
a ver o bicho sair do gatil; os banqueiros que avisaram o regulador de que o
cão estava a ser pago com o pelo do cão e os contribuintes convidados para um
almoço grátis mas que ainda não deixaram de pagar. Perante o que vimos e ouvimos
podemos ficar com a sensação de que só há falha grave se um governador for
apanhado a levar para casa um camião carregado de barras de ouro retiradas da
caixa-forte.
A
complexidade do sistema financeiro ajudará a explicar muitas das incongruências
que a reportagem da SIC revelou, as regras e o código de silêncio impostos ao
regulador ajudarão igualmente a explicar por que razão não nos disse Carlos
Costa da missa a metade. A resposta que o Banco de Portugal deu à pergunta de
Pedro Coelho sobre o facto de não ter reagido prontamente perante os avisos que
chegavam do Dubai é esclarecedora sobre a forma como funciona o sistema: cada
um trata do seu quintal. Tanto esconjuramos as praças financeiras, os paraísos
e as offshores e, afinal, parece que eles estavam mais preocupados com o nosso
dinheiro do que nós próprios.
Tudo
isto se passou num tempo em que, como lembrou Hélder Bataglia em processo
judicial, "não se dizia não ao Dr. Ricardo Salgado". E, no entanto, o
primeiro a fazê-lo foi precisamente o governador do Banco de Portugal. Terá
sido tarde e a más horas, mas foi o primeiro a fazê-lo. É também uma das
ironias desta história, os que hoje se mostram tão afoitos a pedir
responsabilidades a Carlos Costa encontram mil desculpas para não discutir a
sua própria responsabilidade. Do BES para os governos e dos governos para o BES
houve sempre uma porta giratória, mas ninguém sabia. Se nos tentam convencer de
que tudo foi feito por um só homem, prefiro acreditar na tese de Ricardo
Salgado: "Foi obra do diabo!"
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