segunda-feira, 24 de abril de 2017

França. AS RUAS E AS URNAS

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Inês Cardoso* | Jornal de Notícias | opinião

Assim que as projeções deram como certa a passagem de Marine Le Pen à segunda volta das presidenciais francesas, grupos de manifestantes saíram à rua em Paris, Marselha e Estrasburgo. Os sinais de protesto são, contudo, em tudo diferentes dos que há 15 anos mostraram uma França unida contra a surpreendente passagem de Jean-Marie Le Pen à segunda votação.

Em 2002, o resultado do então líder da extrema-direita, escassas décimas acima de Lionel Jospin, deixou os franceses (e a Europa) de boca aberta e os jornais titularam a onda de choque que varreu o país. No 1.º de Maio que se seguiu, 500 mil franceses desfilaram pelas ruas de Paris e poucos dias depois Jacques Chirac foi eleito com 82% dos votos.

Quinze anos depois, a expressão eleitoral de Marine Le Pen está longe de constituir uma surpresa. A Frente Nacional solidificou o seu espaço, com um discurso que procura limpar os excessos iniciais. Sem que o extremismo, antieuropeísmo e xenofobia deixem de estar, inteiros, no programa apresentado aos eleitores.

Pela primeira vez desde o início da V República, a segunda volta não conta com candidatos oriundos dos partidos tradicionais. E os socialistas são particularmente punidos, sendo difícil perceber quanto da derrota de Benoît Hamon nasceu em François Hollande. Se Emmanuel Macron vencer, como indicam todas as sondagens, será o mais jovem presidente de sempre e o primeiro a chegar ao Eliseu sem antes ser eleito para outros cargos.

Os franceses deram um sinal vermelho aos partidos com tradição de poder mas, estranhamente, é difícil ver nessa mudança uma verdadeira frescura. Como falar de renovação se candidatos envolvidos em escândalos judiciais conseguem manter resultados tão fortes como os registados por Le Pen e Fillon?

Nas sondagens realizadas fora dos Estados Unidos, a popularidade de Donald Trump foi sempre interpretada com estranheza, com a Europa em peso a chumbar o seu estilo e as suas propostas. Mas não deixa de ser preocupante que, enquanto noutros países o exemplo vindo do outro lado do Atlântico travou movimentos populistas, em França Marine Le Pen tenha beneficiado dessa alavanca.

Por muito que se proteste nas ruas, é nas urnas que tudo se decide. E o voto em Le Pen não pode ser menosprezado, como não pode ignorar-se que Trump foi democraticamente eleito. À exceção de Mélenchon, os candidatos derrotados já se uniram à volta de Macron, contra a ameaça da extrema-direita. Mas a luta contra os extremismos e contra o medo é mais profunda e vai para além do dia 7 de maio. É nela que toda a Europa tem de se concentrar.

*Subdiretora

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