sábado, 8 de julho de 2017

Portugal | TANQUE DESGOVERNADO

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Pedro Ivo Carvalho * | Jornal de Notícias | opinião

Tudo se torna mais custoso de engolir quando não conseguimos conceber, no vasto oceano da nossa imaginação, algo que se assemelhe à realidade. Portugal vive neste estado permanente de esquizofrenia concetual, tamanha a confusão entre o que parece inventado e o que acaba confirmado. Em Pedrógão, em Tancos, em tantas outras capitulações coletivas perante o nosso fado (franzir o sobrolho e encolher os ombros enquanto lê esta passagem), perpassa um adormecimento desculpabilizante que nos serve de amparo. Até à próxima vez. Porque há sempre uma próxima vez.

Inspirado no furto de material de guerra do paiol mais famoso da Europa ocidental, o jornal espanhol "El País" ridicularizou as nossas Forças Armadas (aliás, desarmadas). Foi uma comoção geral disfarçada de vergonha. Como se aquela comédia não nos soasse igualmente negra em bom português: um buraco numa vedação, um paiol carregado de armas letais atrás de uma porta, a videovigilância em coma há dois anos e os militares que fazem as rondas sem munições nas armas em parte incerta. Difícil, difícil era não ser assaltado.

Eles, quem quer que eles sejam, levaram o que lhes coube nos braços. Foi um trabalhinho bem feito. Pistas? Uma rede internacional de tráfico de armas. Um grupo com ligações ao mapa dos terroristas. Lemos e ouvimos para todos os gostos. Só pode ter sido um "inside job", como nas séries televisivas. Terão sido os tropas que juraram bandeira a ajudar os malfeitores? As altas patentes militares contorceram-se, o ministro da Defesa condescendeu. O grau de sofisticação do furto é atordoante. "Muito profissional". Mas depois voltamos atrás na fita: cortaram uma rede, não havia ninguém a vigiar durante horas a fio, a videovigilância estava desligada. Muito profissional em quê?

Quanto mais se tenta travar este tanque desgovernado, mais ele se precipita na nossa direção. A Procuradoria-Geral da República tinha aberto um inquérito após ter recebido informações de que estava a ser preparado um assalto a uma instalação militar. E o que fez com ele? Aparentemente, nada. Não comunicou o facto ao Ministério da Defesa nem à Força Aérea, à Marinha ou ao Exército.

Apurem-se as responsabilidades, promovam-se as exonerações sacrificiais, mas não se perca a oportunidade de fazer evoluir a discussão para outro patamar, o que verdadeiramente importa: para que servem as nossas Forças Armadas? Que papel lhes está reservado e que papel lhes deveria estar reservado? Não será o cúmulo da inação a que agora assistimos resultado também de um efetivo demasiado longo e perdido? De patentes redundantes? De benefícios tidos como inegociáveis? Da pura e simples falta de sentido estratégico? Se quem é pago para nos defender não consegue defender-se a si próprio, é suposto esperarmos o quê?

* Subdiretor

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