domingo, 24 de junho de 2018

SUBMARINO REPUBLICANO ANCORADO NA PRISÃO – I

Martinho Júnior | Luanda
  
1- Longe vão os tempos da administração republicana de Ronald Reagan, todavia, desde então, a fermentação do capitalismo neoliberal não deixou de ocorrer, agora com uma outra “maturidade”, temperada por um exercício que já leva três décadas de múltiplas experiências e práticas “laboratoriais”, em “estado de globalização”!

Se antes (desde 11 de Setembro de 1973 no Chile) o deslumbramento se limitava aos iluminados da escola de Chicago, com o “mestre”Milton Friedman à cabeça, as elites intelectuais ao serviço da aristocracia financeira mundial desde 1985 que não se coibiram de se ir reforçando de doutrinas que se complementam numa amálgama que vai sendo aplicada onde quer que seus interesses e conveniências se façam sentir, particularmente quando os “alvos” são ricos de matérias-primas e mão-de-obra barata e não possuam elites garantidamente agenciadas no governo de turno.

Assim vimos desfilar Leo Strauss, Gene Sharp, George Soros, Francis Fukuyama, cada um respondendo aos quesitos filosóficos e práticos indispensáveis ao domínio e seus instrumentos, de que é emanação sempre com alinhamento republicano “in”, como o agora detido Paul Manafort.

2- Se Frank Charles Carlucci em Portugal foi indispensável para a aristocracia financeira mundial instrumentalizar o “Arco de Governação” (ele foi um intermediário entre Henry Kissinger e o general Spínola, no âmbito do Le Cercle – http://moversandshakersofthesmom.blogspot.com/2008/09/frank-c-carlucci-iii.html), graças aos seus privilegiados laços com os fundamentos e a decorrência do golpe do 25 de Novembro de 1975 (os spinolistas sem Spínola), entre eles Mário Soares, Paul Manafort, o submarino republicano de Ronald Reagan, com uma experiência de dez anos antes dessa “essencial conexão”, foi uma das “pontes” para a deriva neoliberal em Portugal e em África, “behind the scenes”.

Nessa deriva, um dos mais consumados alinhamentos foi entre os clãs de Soares e o de Savimbi, cuja “vitalidade” sobreviveu ao fim do “apartheid” não por acaso: aproveitou o que de clandestino foi possível do Exercício Alcora na África do Sul, em Angola e no Zaíre de Mobutu para, entre inspectores da PIDE/DGS “refugiados” em Pretória e agentes saídos do colonialismo, criar os fundamentos do choque neoliberal, no âmbito da Iª Guerra Mundial Africana, ou seja, da “guerra dos diamantes de sangue” que, tão bem se aplicou a partir dos ganhos de Bicesse (31 de Maio de 1991).

Foi para isso que também serviu o general Charles Alan “Pop” Frazier, um dos estrategas do Exercício Alcora e um dos principais membros do Le Cercle na África do Sul (https://www.news24.com/Columnists/GuestColumn/declassified-apartheid-profits-le-cercle-the-phantom-profiteers-20171026).

É evidente que, desalojado o “perigo vermelho” do “Arco de Governação” em Portugal e com as transformações da superestrutura ideológica do estado angolano, a terapia neoliberal tinha todas as condições de ser alimentada depois desse choque, em múltiplos expedientes que se entrelaçaram: desde as parcerias público-privadas, até aos mais íntimos processos de “neo” assimilação.

O submarino republicano Paul Manafort, agora detido por mal parada correlação de forças sócio-políticas entre democratas e republicanos nos Estados Unidos (https://observador.pt/2018/06/15/ex-diretor-da-campanha-de-trump-paul-manafort-preso-enquanto-espera-julgamento/), em função dos resíduos das tensões com base nas campanhas presidenciais de Donad Trump e de“Killary” Clinton, bem pode evocar seus “bons ofícios”, “patrióticos” ofícios de pelo menos quatro décadas, por dentro das mais sensíveis nervuras republicanas, mas não pode escapar de ser uma pedra potencial a sacrificar, ou um trampolim para o sacrifício de outras mais (até para a aristocracia financeira mundial a coisa está difícil e o monstro parece começar a estar a devorar alguns dos seus mais dilectos filhos).

Se a visão protecionista do “excêntrico” republicano Donald Trump é uma anomalia para com um neoliberalismo que promoveu a hegemonia unipolar global a ponto de minar todos os emergentes agora despertos e bem vivos depois da lástima que foi uma travessia de deserto, as correntes que ganharam força ao serviço da aristocracia financeira mundial nas três últimas décadas parecem querer domar os excessos do seu próprio “efeito boomerang” próximas das articulações do poder em concorrência à Casa Branca.

3- A “residência na Terra” para estes fiéis servidores da cor do silêncio do império da hegemonia unipolar, está a ser atravancada e os fiéis servidores até parece que se vão acotovelando face à história e à “justiça”, no rescaldo dos seus tão “bons ofícios”!

À falta de espaço, sinais há que também vai faltando o oxigénio para alguns corredores de fundo, ainda que sejam submarinos, habituados a todo o tipo de escafandros e de meio ignotos, meio escondidos ancoradouros.

Em Portugal, alguns dos vínculos do submarino republicano têm vindo a espaços à tona da informação pública.


…“Os homens de Reagan, the best that money can buy.

Corria o ano de 1985 quando Paul Manafort pôs o pé pela primeira vez em Portugal. Na televisão passava a novela A Sucessora (ainda faltavam dois anos para Roque Santeiro) e nas rádios ouvia-se Dunas, dos GNR, enquanto o país recuperava de um resgate do FMI imposto por um governo de bloco central, liderado por Mário Soares.

O primeiro-ministro finalizaria também nesse mesmo ano a adesão de Portugal à CEE — como os próprios GNR tinham pedido em tempos –, e colocava em marcha a preparação da sua candidatura às presidenciais do ano seguinte, naquela que viria provavelmente a ser a campanha mais apaixonada de que há memória no nosso país.

Mas antes disso, ainda na primavera de 1985, Manafort chegaria a Lisboa com o objetivo de prestar assistência a essa candidatura presidencial de Mário Soares, segundo o relato de Rui Mateus, fundador do PS caído em desgraça.

O próprio Soares confirmaria mais tarde que Manafort, acompanhado do seu sócio Lee Atwater, esteve em São Bento e na sua casa de Nafarros. Mas os relatos dos dois homens diferem quanto ao grau de envolvimento dos consultores norte-americanos, como ambos se lhes referem.

Contactado pelo Observador, o próprio Paul Manafort declinou comentar o tema, através do seu assistente. No entanto, o seu antigo sócio Charles Black não teve problemas em confirmar que Manafort teve de facto uma ligação a Portugal: Fizemos trabalho de consultoria política para o partido do senhor Soares numa das vossas eleições, no passado, confirmou por e-mail o consultor que auxiliou as campanhas dos presidentes Ford, Reagan, Bush pai e Bush filho e que mais recentemente colaborou com John McCain na sua tentativa presidencial.

O Paul é que tratou de todo o trabalho, eu não estive envolvido. Por isso, não sei pormenores.

Mas vamos por partes.

O que dizem os relatos de Rui Mateus e de Mário Soares?

Mateus, fundador do PS e antigo colaborador de Soares, mais conhecido pelo seu envolvimento no caso do Fax de Macau, publicou em 1996 o polémico livro Contos Proibidos, onde colocava Soares em causa em vários episódios.

Nele, Mateus — cujo paradeiro atual é desconhecido –, refere várias vezes o nome de Manafort, frequentemente apelidado de homem do Reagan.

O primeiro episódio que escreve refere-se à chegada de Manafort na tal primavera de 1985, a propósito das eleições presidenciais:

[Soares] Dir-me-ia para falar com o Carlucci sobre a questão falada no Hotel Madison durante a visita oficial aos EUA, quando este lhe sugerira o recurso a apoio técnico de uma empresa especializada em eleições.

Carlucci, com quem aliás mantinha contactos regulares, dir-me-ia que sim, que se lembrava e que me iria pôr em contacto com uns homens do Reagan que eram the best that money can buy.

Lee Atwater telefonar-me-ia poucos dias depois e combinou-se organizar uma visita a Portugal para, em contacto com Soares, discutirem o assunto. 

Lee Atwater e Paul Manafort, dois dos proprietários da empresa de Relações Públicas Black, Manafort, Stone & Kelly chegariam a Lisboa num voo da TWA às 7h30 de domingo, dia 3 de Março. Na parte da tarde eu próprio os iria buscar ao hotel Meridien para depois os levar a uma longa conversa com Mário Soares, na sua casa de Nafarros.

O próprio Mário Soares confirmaria esta parte da história à jornalista Maria João Avillez, dizendo que a indicação dos dois nomes partiu de facto do antigo embaixador norte-americano Frank Carlucci:

É exacto, isso sim, que Carlucci me indicou dois nomes de americanos, com larga experiência nessas matérias, e que ele dizia serem grandes especialistas em impor a imagem dos candidatos…, confirmou o antigo Presidente.”
  
Continua

Martinho Júnior - Luanda, 16 de Junho de 2018

Imagens:
Há 40 anos Paul Manaford “estreou-se” com a administração republicana do Presidente Ford;
Paul Manafort com os Presidentes republicanos Ronald Reagan e George Bush (pai), impulsionando a globalização neoliberal;
Paul Manafort ao serviço da candidatura republicana de Donald Trump;
Acusação contra Paul Manafort;
Twitter de Donald Trump sobre a corrente situação do ancoramento do submarino.

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