terça-feira, 21 de agosto de 2018

SOB O OLHAR SILENCIOSO DE ANTÓNIO AGOSTINHO NETO – IV

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Martinho Júnior | Luanda

COMPASSO QUARTO DE QUATRO PEQUENOS COMPASSOS DE DECIFRAGEM HISTÓRICA

O MPLA na universidade da vida de António Agostinho Neto, permitiu assim ao esclarecido e vanguardista dirigente António Agostinho Neto, assumir o comando da estratégia forjada em plena luta armada, por que, com consciência crítica e dialética, estava apto a saber optar, saber como ir, quando ir, com quem ir, assim como saber traçar quer os objectivos tácticos, quer os estratégicos, respondendo antecipadamente ao caminho do porvir!

Precisamente desse modo António Agostinho Neto, comandante, dirigente, estratega e audacioso profeta, avaliava também o peso específico da aprendizagem dos seus companheiros de luta, como avaliava o momento das hesitações, derivas e até traições de alguns deles, sabendo o que isso significava, inclusive em função dos processos de inteligência inimiga (colonial, do “apartheid”, ou neocolonial) por detrás e acima das tramas, dos traumas e de suas cabeças.

António Agostinho Neto respondeu por exemplo, com a clarividência dum sábio ao momento histórico do “Vitória ou Morte”, que sendo táctico foi também estratégico, por se tornar tão decisivo para a afirmação das opções quando em 1965 o Che inaugurava a informal linha da frente em luta contra a internacional fascista, colonialista e neocolonialista na África Austral!

Os Programas Mínimo e Máximo do MPLA têm muito que ver com essa vontade esclarecida, pertinaz e indómita, capaz de discernir com tanta clarividência entre a estratégia e a tática do movimento de libertação, como entre o que é da civilização e o que à barbárie pertence, nesse e com esse caminho de libertação fluindo tão sujeito a riscos, armadilhas e penosas provas.

No cadinho dessa vontade foi portanto possível avaliar e definir o momento táctico, entre as estratégias sequenciais do Programa Mínimo e do Programa Maior, que António Agostinho Neto, apoiado pelos revolucionários e progressistas de todo o mundo e seus mais fieis companheiros de luta, fez coincidir com o momento da independência nacional de Angola a 11 de Novembro de 1974 e com o socialismo emergente que, por amor ao seu povo e estreita identidade para com ele, quis dar ignição.

Esse socialismo forjado na luta, entre o fragor das guerras que em nome da libertação de África haveriam que ser travadas, foi vitorioso nelas e deveria ter a sua justa oportunidade histórica que lhe tem sido diminuída com a vulnerabilidade patenteada pelo socialismo de outros, à excepção de Cuba, enquanto lógica com sentido de vida e na paz!

A bandeira da independência e do socialismo de Angola, foi erguida por todas essas mãos confluentes dos seus companheiros de luta, combatentes e aliados e por mim próprio, juntando a elas as minhas modestas mãos!

É essa a bandeira que continua a flutuar nos mastros mais altos de todo o país e sobre a fortaleza de São Miguel, hoje tornada Museu Militar, ainda que a oportunidade da paz com socialismo tivesse sido tão vilipendiada pelo processo histórico global contemporâneo!

Com as minhas mãos limpas, o meu coração ardente de combatente fiel e a cabeça fria da sua inteligência e de sua clarividência estratégica e tática, sou testemunho vivo e protagonista dessas tantas tão heroicas quão clarividentes vontades reunidas no e em torno do movimento de libertação em África, do MPLA e de António Agostinho Neto.


À distância de pouco mais de 40 anos, nenhum deserto ardente pôde incinerar esse santuário sagrado que reside na memória dos seus companheiros, na minha memória e na densidade dos ensinamentos de António Agostinho Neto, cultivado aberta ou secretamente mesmo sob o terrível sopro do capitalismo neoliberal que se abateu sobre Angola como sobre o mundo, finda a aliança com aqueles socialistas que deixaram de o ser, sabendo que não pode deixar de ser uma aliança com aqueles que o continuam a ser!

A hipocrisia e o cinismo social-democrata na sua pequenez e nos conteúdos mesquinhos de sua vassalagem ao império da hegemonia unipolar, à barbárie reprodutora de caos, terrorismo, desigualdades, injustiças sociais e opressão, não me poderão alguma vez confundir “contra as cordas”, nem por isso me podem assimilar, nem vencer os que se assumindo ideologicamente imprescindíveis em seus santuários vitais, em Angola só o poderão assim ser na corrente que António Agostinho Neto um dia em África deu à ignição!

Não podem vencer aqueles que com o povo despertam em cada 100 anos, quando se desperta o povo do outro lado do Atlântico sul, o povo bolivariano e de Marti nas Américas!

A libertação de África das trevas para que foi lançada, quando ela é uma via socialista inerente à lógica com sentido de vida, é uma profícua inspiração renascentista para o berço de toda a humanidade e um factor decisivo para a preservação da espécie e do respeito devido à Mãe Terra!

O sinal aberto ao despertar não se vai apagar, por que está entranhável à ânsia de liberdade e avidez de futuro dos povos!

O pensamento estratégico e táctico de António Agostinho Neto, a sua memória e os seus ensinamentos, Fukuyama algum pode assim alguma vez apagar!

Ao não se honrar o passado e a nossa história, ao não se evocarem a memória e os ensinamentos de António Agostinho Neto, ao se perder da clarividência socialista para se implantar a hipocrisia e o cinismo social-democrata, ou uma metamorfose elitista de última geração, quanto Angola, quanto África tem perdido de sua identidade, dignidade e coerência histórica e antropológica, quanto tem perdido de força anímica capaz de ampla mobilização, para levar por diante a longa luta contra o subdesenvolvimento?

Martinho Júnior - Luanda, 11 de Agosto de 2018

Fotos:
- Conferência histórica alusiva aos 55 anos do MPLA, no dia 7 de Dezembro de 2011; intervenção do camarada comandante Dibala, um dos comandantes de coluna que assinou a proclamação das FAPLA e apoiaram fielmente António Agostinho Neto na Conferência de Lusaka, quando o império fazia mais um esforço para neutralizar o MPLA na África Austral (Exercício Alcora); foto tirada por mim nesse evento;
- Estátua que evoca António Agostinho Neto, na Praça Nobre da cidade do Huambo; foto por mim tirada a 17 de Junho de 2011.

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