quarta-feira, 26 de junho de 2019

Bachelet: Sanções econômicas impostas pelos EUA agravam crise na Venezuela


Primeira vez que um organismo internacional reconhece publicamente que os Estados Unidos também influenciaram a situação atual do país

Todas as partes envolvidas no conflito político venezuelano estão violando direitos humanos. Essa foi uma das constatações da alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, após três dias de visita oficial na Venezuela. Em seu informe preliminar, dirigido à imprensa internacional, Bachelet apresentou um resumo das informações que colheu nos encontros que manteve com funcionários do governo, líderes opositores, assim como com as vítimas da violência política da oposição e também familiares de políticos opositores presos.

Michelle Bachelet afirmou que o bloqueio econômico contra a Venezuela está agravando a crise que o país vive. “Me preocupa que as sanções impostas este ano pelos Estados Unidos às exportações de petróleo e ao comércio de ouro exacerbem e agravem a crise econômica preexistente”. É a primeira vez que um organismo internacional reconhece publicamente que os Estados Unidos também influenciaram a situação atual do país.

A alta comissária disse ter falado com pessoas de todas vertentes políticas e classes sociais durante sua visita à Venezuela e que todos contaram como a situação  deteriorou de maneira extraordinária, incluindo o direito à alimentação, água, saúde, educação e outros direitos econômicos e sociais.

"O governo lançou projetos em um esforço para garantir o acesso universal a programas sociais, para os quais dedicou 75% do orçamento nacional. Porém, também ouvi testemunhos de muitos que, apesar de terem um emprego, não têm recursos suficientes para comprar medicamentos e garantir alimentos suficientes ou outras necessidades", disse.

A crise econômica precisa de soluções urgente, diz a alta comissionada, e que para isso contará com as agências da ONU já estão atuando no país. “As causas dessa imensa crise econômica, que piorou depois de 2013, são diversas e eu falei com o Estado venezuelano sobre a necessidade de solucioná-la urgentemente, com o apoio das agências das Nações Unidas, que tem reforçado sua presença na Venezuela", pontua.


Escutar as vítimas

A alta comissária da ONU reforçou a necessidade escutar às vítimas do conflito político e falou sobre os excessos cometidos pelas forças militares do governo, em conversa com familiares de vítimas. “Um pai se mostrou muito orgulhoso dos troféus e medalhas que seu filho tinha ganhado, jogando basquete, antes de ser assassinado nos protestos de 2017. Uma mãe relatou o assassinado de seu filho de 14 anos durante as manifestações de 30 de abril desse ano [data da tentativa de golpe de Estado organizado pela oposição]”, disse a chilena.

E também falou sobre chavistas, vítimas da violência opositora. “Também conheci vítimas da violência contra partidários do governo. Escutei o testemunho da mãe de um jovem que foi queimado vivo nos protestos de 2017 e passou 15 dias agonizando no hospital antes de morrer. Uma jovem me contou como seu pai, dirigente camponês, foi assassinado por defender o direito a terra”, disse Bachelet, ao afirmar que esses foram apenas alguns exemplos entre tantas histórias que escutou.

Michelle Bachelet indicou ainda que o governo aceitou que sua equipe tenha acesso aos centros de detenção e que possa monitorar as condições de detenção e falar com os detentos. Ela afirmou que espera que sua avaliação e assistência ajudem a fortalecer o acesso à justiça na Venezuela.

Relatório final

A alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos informou que apresentará o relatório final sobre a situação humanitária e dos direitos humanos na Venezuela no dia 5 de julho, e que conterá com muito mais informações e análises objetivas, além de recomendações sobre como avançar.

Em sua declaração final, antes de partir, Bachelet fez um chamado ao diálogo entre os políticos de todas as vertentes ideológicas, para juntos encontrarem uma maneira de enfrentar os desafios e o sofrimento do povo venezuelano. "Para isso, todas as vozes devem ser incluídas. Manter posições arraigadas em qualquer um dos dois lados só agravará a crise e os venezuelanos não podem permitir que a situação no país se deteriore ainda mais", ressaltou. Disse ainda que “não abandonará” a Venezuela.

Ela também reconheceu a institucionalidade do governo Nicolás Maduro e se referiu ao líder opositor Juan Guaidó como “presidente da Assembleia Nacional”, sem mencionar o fato de autoproclamar presidente interino da Venezuela. Veja aqui sua declaração completa, em espanhol e inglês.

FANIA RODRIGUES | Brasil de Fato | Edição: Pedro Ribeiro Nogueira | em Opera Mundi

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