domingo, 21 de março de 2021

“Diálogo estratégico” entre a Itália e a Arábia Saudita

Manlio Dinucci*

Na qualidade de maior comprador de armas do mundo, a Arábia Saudita suscita todas as ganâncias. Todos se esquecem da realidade desta terrível ditadura obscurantista. O dinheiro não tem odor.

em suscitado críticas o facto de Matteo Renzi, recebido em Riade por Sua Alteza Real, o Príncipe Mohammed bin Salman, ter elogiado a Arábia Saudita. Sem críticas, mas com um consenso substancial, quando o mesmo Renzi, como Primeiro Ministro e Secretário do Partido Democrata, se deslocou a Riade, em Novembro de 2015, para consolidar as relações entre os dois países. Contudo, nessa altura, a Arábia Saudita era essencialmente a mesma e já tinha começado a guerra contra o Iémen. A visita inseria-se na política tradicional da Itália de relações amigáveis com a Arábia Saudita e com as outras monarquias do Golfo. Basta recordar Emma Bonino que, na qualidade de Ministra dos Negócios Estrangeiros no Governo Letta, declarou em 2013 que "a Itália e a Arábia Saudita têm realmente muito em comum e há razões profundas para reforçar os nossos laços".

Na mesma linha insere-se a visita que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luigi Di Maio, fez à Arábia Saudita a 10 de Janeiro (mais de duas semanas antes de Renzi). Não só se encontrou com o Príncipe Mohammed bin Salman, exaltando "o constante fortalecimento das relações de amizade e cooperação", mas também realizou um acto oficial muito mais importante: assinou com o Ministro dos Negócios Estrangeiros saudita, Príncipe Faisal bin Farhan, um memorando de entendimento sobre "diálogo estratégico" entre a Itália e a Arábia Saudita. Este acto, muito mais grave do que a declaração de Renzi sobre o "novo Renascimento" da Arábia Saudita, não suscitou críticas em Itália e passou praticamente despercebido.

O novo acordo liga ainda mais estreitamente a Itália a uma monarquia absoluta, na qual o soberano detém o poder político e económico, legislativo, executivo e judicial. Está actualmente nas mãos do Príncipe Mohammed bin Salman, que tomou o poder através de um acto de força no seio da família dominante. Na Arábia Saudita não há parlamento, apenas um conselho consultivo nomeado pelo governante. Os partidos políticos e os sindicatos são ilegais. O sistema judicial é baseado na lei corânica, administrada por tribunais religiosos. São frequentes as sentenças de decapitação ou corte de mãos, efectuadas em público. Os opositores e críticos são presos, torturados e assassinados. O jornalista Jamal Khashoggi foi morto no consulado saudita em Istambul e o seu corpo desmembrado para o fazer desaparecer. Cerca de 10 milhões de imigrantes, metade da mão-de-obra da Arábia Saudita, vivem em condições de super-exploração e escravatura: por alegadas violações das leis de imigração, mais de 4 milhões foram presos em 3 anos.

O acordo sobre "diálogo estratégico" reforça os laços do complexo militar-industrial italiano com a Arábia Saudita, um dos maiores compradores de armas. Enquanto o governo italiano revoga a venda de bombas à Arábia Saudita como medida contra a guerra que faz massacres no Iémen, a Leonardo, a maior indústria bélica italiana, está a ajudar a Arábia Saudita a utilizar aviões de combate Eurofighter Typhoon para bombardear o Iémen. A Riad adquiriu 72 deles ao consórcio na qual a Leonardo tem uma participação industrial de 36 por cento. O Eurofighter Typhoon, certifica a mesma indústria, é de “combat proven" tendo já sido "testado em operações na Líbia, Iraque e Síria", aos quais se junta o Iémen. A própria Leonardo documenta que "há mais de 40 anos que fornecemos os sistemas de aviónica e de comunicação do Typhoon e Tornado operados pela Real Força Aérea Saudita" e "oferecemos à Real Força Aérea Saudita aviões não tripulados e soluções de ‘target acquisition’" (ou seja, drones para identificar alvos para bombardeamentos). A me-sma Leonardo especifica também, que "temos pessoal nas bases militares do Reino". Ao mesmo tempo, a empresa pública italiana Fincantieri está a construir nos Estados Unidos, quatro navios de guerra do tipo mais avançado (Multi-Mission Surface Combatants) destinados à Arábia Saudita, com base numa "encomenda multibilionária". Existem portanto bases sólidas para o desenvolvimento do "diálogo estratégico" entre a Itália e a Arábia Saudita.

Manlio Dinucci* | Voltairenet.org | Tradução Maria Luísa de Vasconcellos | FonteIl Manifesto (Itália)

*Geógrafo e geopolítico. Últimas publicações : Laboratorio di geografia, Zanichelli 2014 ; Diario di viaggio, Zanichelli 2017 ; L’arte della guerra / Annali della strategia Usa/Nato 1990-2016, Zambon 2016; Guerra nucleare. Il giorno prima. Da Hiroshima a oggi: chi e come ci porta alla catastrofe, Zambon 2017; Diario di guerra. Escalation verso la catastrofe (2016 - 2018), Asterios Editores 2018.

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