quinta-feira, 27 de março de 2025

Angola | Variações Sobre Paz e Mais – Artur Queiroz

<> Artur Queiroz*, Luanda ---

Paz na boca da UNITA é terrorismo. E uma pitada de traição. Em 1974, os Media dos independentistas brancos apresentavam Savimbi como o “Muata da Paz”. Ele assumiu até ao dia em que lhe foi dada a missão de tomar a cidade do Huambo e matar milhares de pessoas só porque não tinham o cartão da UNITA. Depois o Roque da Nova Iorque deu-lhe a “Casa Branca” e ele aderiu ao regime racista de Pretória. A paz dos supremacistas brancos é mesmo só para brancos. Savimbi e seus sicários ficaram reduzidos ao papel de matadores. Sabem quem mataram cobardemente? O Comandante Joaquim Kapango.

A UNITA tomou a cidade do Huambo pela força das armas. Milhares de civis refugiaram-se no quartel do Regimento de Infantaria e ficaram sob a protecção da tropa portuguesa. Quando Lisboa criou a ponte aérea a partir da capital do Planalto Central, o comando português foi retirando as pessoas mais expostas do campo de refugiados. 

Um dos retirados foi o repórter, cronista e poeta Ernesto Lara Filho. O avião seguiu para Lisboa mas fez escala em Luanda e ele fugiu. Passou a integrar a Redacção do Diário de Luanda, onde durante três meses escreveu uma crónica diária sob o título genérico “Diário de um Prisioneiro de Guerra no Huambo”. Numa dessas crónicas, descreveu as suas conversas com o Comandante Kapango, na época representante do Bureau Político do MPLA no Huambo.

O Comandante Kapango teve tratamento especial. Foi retirado do quartel do Regimento de Infantaria num blindado e levado até à escada do avião, sob forte escolta militar. Uma vez embarcado o dirigente do MPLA, a tropa portuguesa retirou-se e deixou campo aberto aos sicários da UNITA, que entraram no avião e o raptaram. Depois foi fuzilado. A paz da UNITA no seu lado mais cruel e assassino. 

Na época, o Bureau Político do MPLA era constituído por pouco mais de uma dezena de magníficos. São aqueles que conduziram a Luta Armada do Povo Angolano até à Independência Nacional. Derrotaram o colonialismo. Após o 25 de Abril 1974 derrotaram uma coligação internacional comandada pelos EUA, na Guerra da Transição. Quando os angolanos pensavam que iam desfrutar da paz, após a queda do regime colonialista e fascista de Lisboa, de novo a guerra. 

A paz regressou quando os esquadrões da morte dos independentistas brancos foram derrotados em Lunda. Aconteceu a Cimeira de Mombaça e depois o Acordo de Alvor. A paz estava no bom caminho. Agostinho Neto, Comandante em Chefe das Forças Armada Populares de Libertação de Angola (FAPLA) deu o sinal para a paz justa e permanente, com este comunicado:

“A todas as unidades das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), a todas as brigadas de defensores do povo do MPLA, a todos os militantes do MPLA, em nome do Comité Central e do Bureau Politico do MPLA, do Conselho Supremo de Defesa, Estado Maior General das Forças Armadas de Libertação de Angola: 

Em conformidade com o artigo sexto, do Acordo entre o Estado Português e os Movimentos de Libertação de Angola, de 15 de Janeiro de 1975, declaro o cessar-fogo geral das forças militares e militarizadas do MPLA em todo o território de Angola. A partir desta data será considerado ilícito qualquer acto de recurso à força, que não seja determinado pelas autoridades competentes, com vista a impedir a violência interna ou a agressão externa. 

Todos os militantes do MPLA devem, no entanto, manter-se nos seus postos e redobrar a vigilância para que qualquer acto de provocação não possa pôr em causa as conquistas que o nosso povo realizou, durante a guerra de libertação nacional. Cumpra-se. 

A Vitória É Certa. O presidente do MPLA e Comandante em Chefe das FAPLA Agostinho Neto”.

Holden Roberto não fez o mesmo apesar de lhe ser solicitado. Pelo contrário. Deu cobertura à invasão do Norte de Angola pelas tropas de Mobutu e matilhas de mercenários. Levou para Luanda mais de 7.000 militares zairenses que distribuiu pelas delegações da FNLA e da delegação de Daniel Chipenda. Jonas Savimbi não tinha forças armadas. Entregou todos os seus combatentes à PIDE e à tropa portuguesa. Alugou a UNITA aos independentistas brancos e ao regime racista da África do Sul. Variações da paz. 

O primeiro Bureau Político do MPLA, eleito no último trimestre de 1974, é constituído pelo Fundadores da Nação Angolana. O Comandante Xietu é um Fundador da Nação Angolana. Mas na hierarquia informativa da TPA vale menos do que a inauguração de uma fábrica de óleo alimentar. Hoje mesmo, o noticiário das 13 horas abriu com outras notícias. Mesmo existindo um comunicado do Presidente da República a lamentando a morte de um Fundador da Nação Angolana. Uma lástima. No canal público de televisão não sabem que há uma hierarquização da informação. 

No Palácio da Cidade Alta a sabedoria também não abunda. Se morre um Fundador da Nação, a Presidência da República tem que decretar Luto Nacional. Nada. É tudo tratado à superfície. E o alinhamento das notícias nos Media públicos faz-se por alturas, como nas formaturas da tropa. Importante é noticiar que o Presidente visitou, o Presidente regressou, o Presidente conduziu uma viatura numa estrada com 39 quilómetros em Saurimo, o Presidente inaugurou, o Presidente nomeou, o Presidente exonerou. 

Se ainda existem jornalistas da Agenda capazes de criar um plano de edição na perspectiva da previsão do acontecimento, informo que do primeiro Bureau Político do MPLA, o dos Fundadores da Nação, ainda estão vivos o General Ndalu e Lopo do Nacimento. Não se façam esquecidos nem os ponham no final de noticiários que começam com o regresso do Presidente da República, depois de uma viagem a Adis Abeba.

A Federação Russa desencadeou uma operação especial para desarmar e denazificar a Ucrânia. Em Paris encerrou hoje uma cimeira de países europeus mais o Canadá onde decidiram armar a Ucrânia. França e Reino Unido vão mandar militares. Uma declaração de guerra  a Moscovo em nome da paz. Os belicistas e colonialistas vestindo pele de pacifistas. França e Reino Unido são países colonialistas. Querem fazer com a Federação Russa o mesmo que fizeram com o Iraque, a Líbia ou a Síria. Roubaram os fundos soberanos e estão a roubar o petróleo e gás. Vem aí a guerra.   

* Jornalista

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