segunda-feira, 31 de março de 2025

Portugal | COMPADRIO NOS NEGÓCIOS -- Cãndida Almeida

Cândida Almeida*, opinião | Jornal de Notícias

Um prestigiado jornalista escreveu, na semana passada, um artigo de opinião intitulado “O Estado é coisa deles”, sobre as ligações perigosas dos políticos com a sua clientela partidária. Diz que “os partidos de poder converteram-se em máquinas de interesses, de distribuição de empreguismo político e verdadeira patrimonialização do Estado”. Esta percepção é perigosa, a democracia é alicerçada na existência de partidos políticos, liberdade, igualdade, justiça, segurança e paz social. Exige comportamentos éticos de elevado padrão moral, transparência e dedicação à res publica. Não é necessária uma actuação ilícita por parte dos políticos para que os cidadãos se afastem do exercício de cidadania activa. Basta a convicção de uma cultura antiética do poder para que a maioria da população, um pouco acriticamente, pense e expresse opinião que eles, os políticos, são todos iguais. Opina, ainda, que o problema “é estrutural e ameaça transformar-se num verdadeiro cancro para a democracia…”. Acredito que o problema não é, ainda, estrutural, mas é urgente evitar que se transforme numa cilada da extrema-direita e lance para o abismo todas as conquistas de Abril. Independentemente do vencedor das próximas eleições, devem os responsáveis priorizar a tomada de decisões capazes de prevenir os compadrios familiares e partidários. Acredito que esta situação é, ainda, minoritária e que, genericamente, esses negócios obscuros e opacos não representam toda a vida política portuguesa. Importa impedir o nepotismo e endogamia, para que alerta o jornalista. É no âmbito da luta contra a corrupção e crimes afins que a solução tem de ser encontrada. Proibir, com sanções graves, até à perda de mandato, os responsáveis pelas negociatas no poder central e local, com amigos, familiares e companheiros de partido. Proibir as demissões de altos dirigentes do Estado por razões meramente partidárias, bem como impedir as nomeações sem qualquer critério de mérito ou de necessidade, ressalvadas as devidas válvulas de segurança para os casos ou situações extraordinárias. Impedir os ajustes directos entre os responsáveis do poder local ou do poder central com privados com os quais mantêm relações afectivas, de amizade ou de clubismo partidário. A ser autêntico o número de nomeações indicadas naquele texto, importa reflectir e prevenir ocorrências como essas. Talvez assim se possa estancar a indiferença dos cidadãos pelo exercício de cidadania; talvez voltem a motivar-se e a participar na vida política do país; talvez se afastem as falsas miragens que a extrema-direita lhes aponta e com as quais os cativa. Ser político, na república, é servir o país e não servir-se dele para fins meramente egoístas ou partidários. Penso que a CRP ainda tem um sufrágio esmagadoramente positivo, em cujos normativos nos revemos e cremos solidificar. Embora reconheça o mal que se tem feito, ainda é tempo de inverter o caminho percorrido.

*A autora escreve segundo a antiga ortografia

* Ex-diretora do DCIAP

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