quarta-feira, 2 de abril de 2025

Portugal | MONTENEGRO: ENTRE O SER E O PARECER

Liliana Valente, coordenadora de política | Expresso (curto)

Bom dia

Começo por lhe fazer um convite: hoje, às 14h00, "Junte-se à Conversa" com David Dinis e Micael Pereira para falar sobre "As investigações sobre Montenegro". Inscreva-se aqui.

Numa reunião com autarcas do PSD esta semana em Coimbra, um spin doctor de uma agência de comunicação partilhou esta lição: “As pessoas votam em valores e identidade e não em racionalidades. As eleições não são ganhas por factos, mas por emoções”. O foco era mesmo no “storytelling”. Contar uma história. Quem contar a melhor história, ganha.

É aqui que vamos andando, nesta campanha que parece que dura há mais de um ano (o Governo de Luís Montenegro tomou posse há exatamente um ano). Certo que tudo se precipitou com a notícia do Expresso de que a Solverde pagava uma avença mensal de 4500 euros à empresa familiar de Montenegro (foi há um mês, lembra-se? Parece uma eternidade), mas todas as semanas temos sabido novos dados.

Na última sexta-feira, o Expresso contou-lhe, com base em documentos, que há um inquérito a correr no DIAP do Porto sobre a maior obra pública de Espinho e que o antigo escritório de Montenegro era um dos denunciados. Também escrevemos que o primeiro-ministro, enquanto advogado da câmara, deu um parecer favorável à empresa de construção dessa obra.

Numa primeira reação a esta notícia, o primeiro-ministro disse, na sexta-feira: “Não tenho conhecimento de nenhuma investigação e nem sei a que parecer é que se está a referir. Eu não fiz nenhum parecer sobre obras. Eu, enquanto advogado, intervim em resposta a solicitações de clientes.” Montenegro não respondeu exatamente à pergunta, mas um bocadinho ao lado. Claro que não fez um parecer sobre obras, fez um parecer sobre um contrato. O parecer existe (não a uma obra, mas ao contrato) e saiu da própria caixa de email de Luís Montenegro.

Ontem ao final da tarde, o primeiro-ministro fez sair um comunicado em que recusa ter beneficiado a construtora civil no tal parecer quando era advogado da SP&M. O gabinete de Luís Montenegro atira ao que considera ser “mais uma flagrante e inconcebível campanha de desinformação e manipulação de factos, a que aderem inexplicável e levianamente muitos intervenientes políticos e mediáticos”. E dá a conhecer o resultado de uma auditoria do Tribunal de Contas, segundo a qual “não foram obtidos indícios de prática de qualquer infração”, sem se conhecer ainda a auditoria.

Também sem nunca referir diretamente que notícias considera desinformação e manipulação, termina o comunicado a considerar “abusivo” qualquer relação entre o seu parecer e o fornecimento de betão à obra da sua casa.

Horas depois, o secretário-geral do PS seria entrevistado na SIC Notíciase questionado sobre o porquê de considerar este caso “o mais grave” desde o início da crise política, Pedro Nuno Santos referiu que há um “padrão de comportamento” de Montenegro em que as “explicações têm de ser tiradas a ferros” e que o facto de haver uma investigação judicial “não é uma brincadeira. É uma questão séria".

Como escreve o Vítor Matos, neste seu Índice do Citacionismo, a campanha já está na rua com um choque de narrativas: "A "narrativa" do Governo é uma falácia para nos iludir com a verdade, o ataque de Pedro Nuno não é de captação, é um jogo para desmobilizar eleitores da AD, a declaração de Ventura sobre Le Pen é ao contrário do que disse há dois meses e o almirante incorre em humilde e soberba".

O Procurador Geral da República, Amadeu Guerra, esteve ontem num simpósio sobre Inteligência Artificial. Mas sobre uma investigação de que ninguém sabia e que continua no DIAP do Porto, entrou mudo e saiu calado.

Por fim, gostaria de partilhar consigo, caro leitor, uma preocupação que tem vindo a aumentar com algumas das conversas que vou tendo sobre as notícias das últimas semanas. Parece-me haver excessiva resistência ao escrutínio e qualquer notícia, mesmo com a maior base factual, provoca reação de antagonismo. Já nada se distingue, parece que já ninguém quer saber. Como escreveu Paulo Baldaia aqui no Expresso, “o que assusta não é tanto o que está a acontecer, é mais o que não queremos saber".

E há muito que não sabemos.

OUTRAS NOTÍCIAS

Saiu a acusação sobre o triplo homicídio do bairro do Vale, na Penha de França. O Rui Gustavo conta-nos que o Ministério Público duvida da tese da doença mental do homicida. Foi almoçar já armado, entrou na barbearia e matou as três pessoas com tiros na cabeça

O segredo mais mal guardado dos últimos meses: o ministro Pedro Duarte anuncia que é candidato à Câmara do Porto

Um caso inquietante, que devia sobressaltar cada um de nós. O Hugo Franco conta-lhe que o juiz de instrução justifica porque não impôs prisão preventiva aos três jovens suspeitos de violação em Loures

António Pires de Lima: “Os políticos, se querem obter o respeito dos portugueses, devem dar o exemplo”

O “marinheiro de silício” e a “salsicha voadora”: Gouveia e Melo defende que robotização da Defesa “aumenta a produtividade da economia”

Donald Trump anunciou o “dia da libertação” mas não é claro o que vai fazer porque a administração ainda está a “aperfeiçoar” a decisão

Israel intensifica combates, colonatos e causa “a maior deslocação de palestinianos desde 1967”: o cessar-fogo nunca chegou à Cisjordânia

Entretanto, a campanha eleitoral está na rua

No PS, que aprova esta quarta-feira as listas de candidatos. Houve problemas em Aveiro, mas também José Luís Carneiro foi preterido em Braga. Os socialistas estão a preparar o programa eleitoral. Ontem foi dia de debate sobre ética e democracia e foi o mote para Pedro Nuno Santos dizer que “a forma de atuar" de Montenegro “tem consequências na governação e na confiança dos cidadãos na política e na democracia”. E à tarde sobre justiça, com os socialistas a garantirem que nãoquerem queimar pontes para entendimentos com o PSD. Já sobre segurança, o socialista disse que somos um país seguro, mas que devíamos ter mais “músculo” para combater a insegurança.

O Livre queixou-se à ERC contra Luís Montenegreo e contra as televisões sobre os debates televisivos, uma vez que Luís Montenegro tem a intenção de delegar em Nuno Melo a representação da AD no debate com o porta-voz do Livre, Rui Tavares

FRASES

“Parece que há uma guerra entre o Ministério Público e o Ministério da Justiça”

Amadeu Guerra, Procurador-Geral da República

"Acho que os debates podem ser decisivos. Primeiro, porque são variados, segundo, porque são mais próximos das eleições. E terceiro, se houver uma proximidade grande entre as alternativas governativas, aí são verdadeiramente decisivos”

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República

“O modelo proposto coloca o Livre em situação de desigualdade e desvantagem face aos restantes partidos”

Rui Tavares, do Livre

Para ouvir

Expresso da manhã. Quem conhece o Miguel Prado, o editor de economia do Expresso, sabe que ele tem uma paixão por energia. É com ele que o Paulo Baldaia fala esta quarta-feira no Expresso da manhã sobre eleticidade.

Sobre o SignalGate, que está a assolar a administração de Donald Trump, recomendo-lhe o podcast da Atlantic com o diretor como convidado, Jeffrey Goldberg, em que conta a história como foi adicionado a um grupo de Signal com vários membros da administração norte-americana e ficou a saber, por antecipação, dos ataques aos Houtis, no Iémen.

O que ando a ver

Na última semana fiquei viciada no SignalGate. Li artigos, entrevistas, ouvi audições no Senado, li artigos de opinião. Fiquei fascinada. Uma das maiores cachas jornalísticas de sempre ser conseguida por acaso (acreditem, dava tanto jeito ser assim tão fácil) é, para um jornalista, um misto de inveja e satisfação. Perante a falta de tempo que uma crise política me traz, dediquei-me nos tempos livres e antes de adormecer, a um passatempo que gosto bastante e a que recorro quando estou a precisar de admirar uma boa dose de inteligência de forma lúdica: rever “The West Wing". A decêndia e a inteligência daquela série nunca passam de moda. E ensina. Ensina muito. Quem nos dera voltar aqueles tempos.

Por hoje é tudo, muito obrigado por ter estado desse lado. Para o essencial do dia, vá passando em expresso.pt

Ler o Expresso

Sem comentários:

Mais lidas da semana