quinta-feira, 26 de maio de 2011

Boletins de voto em Timor-Leste escolhem-se do monte nos correios, bastando dizer o nome





MSO - LUSA

Díli, 26 mai (Lusa) - Boletins de voto para as eleições legislativas de 05 de junho podem ser levantados nos correios de Timor-Leste por quem quiser, desde que saiba o nome de um ou mais eleitores portugueses, sem qualquer controlo.

Pelo menos dois boletins de voto foram levantados por uma pessoa que não detém a nacionalidade portuguesa e uma eleitora relatou à Lusa que teve de procurar o boletim que lhe estava destinado, num amontoado de envelopes postais.

Basta que alguém consiga fotocopiar o cartão de eleitor ou a certidão de recenseamento para poder votar em nome de outra pessoa e os boletins de voto são entregues nos correios de Timor-Leste a quem os for buscar.

A situação resulta do voto postal direto, aplicado em Timor-Leste, país que não tem sistema de distribuição postal ao domicílio, em vez do controlo do processo eleitoral nas instalações da embaixada, como sucedeu em anteriores atos eleitorais.

João Miranda já tem o seu boletim de voto, mas nem sequer foi aos correios: "Pedi a um amigo, ele deu o meu nome e de um familiar e fez o favor de trazer os nossos votos", conta à Lusa.

Joana Barros, uma eleitora portuguesa a residir em Díli, descreve à Lusa o levantamento do seu boletim de voto: "Quando eu fui aos correios buscar o meu boletim de voto, tinha umas cinco pilhas de boletins e eu tive de procurar o meu voto no meio de todos aqueles envelopes".

"Se eu fosse mazinha até podia desviar votos e votar vinte vezes que ninguém reparava", relata.

Joana Barros diz que a sua maior preocupação é não ter a certeza de que o voto conta: "Já enviei postais para Portugal que nunca chegam e mesmo quando chegam tanto podem demorar uma semana como um mês. Como o voto tem de chegar lá até dia 15, não tenho essa garantia".

A encarregada da secção consular, Sílvia Inácio, admitiu à Lusa que "os correios de Timor-Leste ainda enfrentam dificuldades, o que pode causar perturbações", mas salienta que "está a ser seguida a Lei Eleitoral da Assembleia da República, que prevê que os eleitores recenseados no estrangeiro votem por correspondência".

Segundo explica, "foi pedida autorização para que o processo pudesse decorrer na Embaixada, mas, ao contrário de outros anos, não foi aberta essa exceção para Timor-Leste".

Paulo Ferreira vive e trabalha em Baucau e diz que o novo sistema "é péssimo", sobretudo para os muitos portugueses que estão nos distritos e não na capital.

"É difícil ir durante a semana a Díli, para apanhar os correios abertos, para poder votar", diz, lembrando que "a viagem é de mais de seis horas, ida e volta, por más estradas" e "pior estão os de distritos mais afastados".

A questão do envio dos boletins de voto para os eleitores residentes em Timor-Leste foi o pretexto para trocas de acusações entre o PS e o PSD, com os socialistas a acusarem os sociais-democratas de inviabilizarem o voto daqueles eleitores por terem recusado o envio do material eleitoral por mala diplomática.

Apesar do consenso alcançado na Comissão Nacional de Eleições, quanto ao envio por mala diplomática, recorrendo a práticas anteriores, o mandatário nacional do PSD recorreu da decisão para o Tribunal Constitucional, levando a CNE a optar por manter o que está previsto na lei: envio por via postal para os cerca de 250 eleitores inscritos em Timor-Leste.

Sem comentários:

Mais lidas da semana