sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Portugal: FALAR CLARO

 


Eduardo Oliveira Silva – i online, opinião, às 03:00 horas
 
É fundamental saber o que pensa o Presidente da República
 
Depois de ter visto a gigantesca manifestação inorgânica e transversal, depois de ter observado a demonstração enquadrada pelo PCP/CGTP, depois de ter reunido e ouvido o Conselho de Estado, depois de ter conversado em privado com o governo, depois de ter recebido os parceiros sociais, depois de ter inclusivamente acolhido em Belém os chefes militares, depois de ter pleno conhecimento da acrescida e pesadíssima austeridade a que os portugueses ficaram sujeitos na sequência do falhanço do processo de ajustamento, depois de ter verificado a dimensão do assalto aos bolsos da cidadania que o governo decretou, é essencial que o Presidente Cavaco Silva se dirija ao país neste 5 de Outubro em linguagem clara e perceptível.
 
Passando por cima do facto tristemente elucidativo de o Presidente não discursar da varanda da Câmara de Lisboa por questões de segurança, Cavaco tem a estrita obrigação ética de falar de forma clara e corajosa, até porque há não muito tempo ele próprio sublinhou que a carga fiscal estava a atingir o limite. Então o que dirá agora?
 
Sendo economista, ainda por cima, é fundamental perceber que leitura retira o Presidente deste assalto fiscal que asfixia empresas e famílias, impossibilitando-as definitivamente de fazerem frente aos seus encargos e dívidas, porque é nisso que vai resultar o arrastão tributário.
 
Como o governo ignorou essa consequência, talvez tenha de ser o Presidente a explicar a matéria, para evitar o que agora parece inevitável: vamos a caminho da Grécia e, se ficarmos fora do euro, podemos acabar pior porque não temos o mesmo potencial turístico.
 
Ao contrário de Sampaio, cuja verdadeira intenção chegava a nunca se perceber, Cavaco tem um discurso que só se torna claro e óbvio passado algum tempo. Não tem a capacidade premonitória de Mário Soares nem assume as rupturas drásticas que Eanes proclamava, é certo. Mas agora é tempo de o ouvir falar claro sobre se concorda ou discorda da rota estabelecida e quais as eventuais alternativas que aponta. Em rigor, o chefe de Estado não pode ignorar que há uma enorme mentira colada a estas medidas porque elas não substituem a TSU. Elas são as que estavam previstas para além da TSU, que os portugueses vetaram saindo à rua em massa. A prova é que pela boca do próprio ministro das Finanças se ficou a saber que a ideia subsiste.
 
Se é certo que há uma parlamentarização do regime, porque só na Assembleia se pode exercer verdadeiramente o direito à crítica e à oposição política, como foi o caso ontem com as moções de censura do PCP e do BE, não é menos certo que há momentos em que o chefe de Estado (mesmo considerando as condicionantes externas que o limitam a ele e até ao governo) deve usar o seu peso, pessoal, institucional e político, para intervir, dando cobertura ou rompendo. Hoje é um desses momentos-chave em que não se admitem meios-termos. Ou apoia ou discorda. Falar claro é obrigação. A bem da democracia que não propriamente da República, porque hoje em dia as monarquias não têm menos consistência nesse aspecto concreto e tem de se reconhecer que na maioria delas se vive bem melhor que nas repúblicas, sobretudo as do Sul da Europa.
 
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Nota PG: Este artigo de opinião foi escrito e publicado antes dos vergonhosos incidentes na comemoração dos 102 anos da Implantação da República. E agora qual será a opinião do articulista e dos portugueses perante um PR que cobardemente foge às questões primordiais e urgentes que devem ser abordadas e resolvidas em prol dos mais elevados interesses nacionais?
 

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