sexta-feira, 23 de março de 2018

Crianças guineenses faltam à escola para realizar ritual de circuncisão

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Associação da Guiné-Bissau denuncia que "centenas de crianças" estão a faltar às aulas para ir às barracas de circuncisão e pede ao Estado para agir. Responsável por circuncisão diz que ritual "não pode" ser adiado.

Centenas de crianças estão a sair das suas casas para realizar o ritual de circuncisão. Ao invés de ir à escola, seguem o caminho das barracas, locais no mato onde o ritual é realizado.

Segundo a Associação de Amigos da Criança (AMIC) da Guiné-Bissau, há pelo menos dois locais nos arredores de Bissau onde estão a ser realizadas circuncisões, alegadamente sem a autorização do Governo.

Fernando Cá, administrador da AMIC, diz não compreender como, em plena época das aulas, as autoridades ficam em silêncio ao ver passar nas ruas de Bissau crianças que vão para as barracas perto do mar, acompanhadas de familiares e amigos.

"Apesar de estarmos num país em que o Governo é fraco, antes de praticar qualquer coisa dessa natureza, os pretendentes têm de ter autorização prévia da entidade competente. Neste momento, na barraca já há cerca de 400 a 500 crianças, que obviamente abandonaram a escola e foram para o ritual", afirma.

Ritual "não pode" ser adiado

Em entrevista à DW África, um dos responsáveis pela circuncisão garante que informou as autoridades. Lufundam Cá diz que não pode adiar o ritual.

"Tudo isso tem a ver com Irã, a força divina. Quando chega o ano de praticar o fanado [ritual da circuncisão], não podes adiar. Realizamos sempre a circuncisão de fevereiro até maio, antes da época das chuvas. Fui ao Ministério do Interior dar conhecimento às autoridades do país", justifica.

Lufundam Cá frisa que nunca forçou as crianças a sair de casa dos pais: "Nunca peguei ninguém na mão para levar à barraca. Peço-lhes apenas os números dos telefones dos pais, para informar. Não sei se vão à escola ou se são analfabetos como eu. Acho que os pais é que devem controlar seus filhos em casa. Mas quem vier até aqui, não posso fazer nada", adverte.

Cá cita a lei da barraca, que prescreve que, uma vez no local, as crianças têm de fazer o ritual da circuncisão.

A AMIC observa, no entanto, que é preciso que o Governo crie leis sobre o período de realização do ritual, a fim de evitar faltas na escolas. A associação pede ainda o envolvimento das autoridades na problemática da circuncisão, tal como fez em relação à questão da excisão genital feminina, oficialmente criminalizada na Guiné-Bissau desde 2011.

Contactado pela DW África, o Governo não quis comentar o assunto.  

Braima Darame (Bissau), Agência Lusa | Deutsche Welle
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