sábado, 7 de abril de 2012

O RIO NÍGER E A DICOTOMIA MALI/AZAWAD - I



Martinho Júnior, Luanda

1 – O grande rio Níger é o terceiro maior de África, com 4.180 km e, tal como os outros seus pares, é ainda hoje insuficientemente conhecido em relação à sua imensa bacia, que corresponde a cerca de 7,5% da área total de África, com 2.200.000 km2 (“The Níger River basin” – http://www.fao.org/docrep/w4347e/w4347e08.gif).

Nasce na fronteira entre a Guiné Conacry e a Serra Leoa, iniciando um percurso com direcção sudoeste – nordeste que entra pelo Mali onde acaba por fazer um arco, ganhando depois a direcção noroeste – sudeste, passando pelo Níger e desaguando no Atlântico (Golfo da Guiné), num enorme delta que abrange uma região baixa na costa sul da Nigéria.

O seu curso, autêntica corrente de vida que anima a África Ocidental, influencia ainda em países como a Costa do Marfim, a Argélia e o Benim, onde nascem e têm seu curso parcial alguns dos tributários e linhas de água subterrâneas.

O rio Níger é um dos factores mais importantes de contraste ambiental com o Sahara e o Sahel, cuja área conjunta está estimada em cerca de mais de 7.000.000 km2 e por isso responsável, sob o ponto de vista antropológico, pela sedentarização das comunidades humanas, face à nomadização que existe na enorme superfície do deserto quente que lhe fica imediatamente a norte, tal como na luta entre ambientes mais favoráveis à vida e outros que só podem ser habitat de culturas humanas que estão permanentemente vocacionadas para a sobrevivência em condições extremas (“Rio Níger” – http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_N%C3%ADger).

2 – No Mali, país interior sem acesso ao mar onde um rio como o Níger se tornou essencial para a vida, há vários fenómenos que interessa salientar:

Na asa sudoeste do território ele rege a cobertura florestal, bem como as possibilidades agrícolas e de criação de gado que permitem uma relativa fixação das populações e a sedentarização, pois apesar de ir perdendo água, a areia (a desertificação) tem nele um obstáculo de progressão em direcção sul.

O Níger tem um delta interior precisamente na região do estrangulamento territorial, entre as duas asas que constituem a configuração do país, perdendo aí muita água devido à ampla superfície em exposição ao sol e ao efeito da areia quente do deserto, pelo que ele vence esse obstáculo com muito menos caudal que no curso inicial.

Na região inicial dentro do Mali, estão as cidades de Bamako (capital), de Ségou e de Mopti, esta última situada junto ao delta interior do Níger e precisamente no estrangulamento do Mali, entre a asa territorial do sudoeste (1/3 da área total do país) e a asa territorial do nordeste (2/3 da área total do país).

No circuito entre Mopti, Tombuctu e Gao, o rio descreve o arco de mudança de direcção, ganhando alguma água subterrânea que lhe chega até do sul da Argélia, pelo que é um rio com um caudal muito menor que no circuito inicial, o que entra pelo Níger.

As suas margens têm, nesse arco, muito menos vegetação, fazendo-se sentir muito mais a presença do deserto Sahara / Sahel.

À medida que o rio corre depois da direcção noroeste (em Gao) e até ao delta na Nigéria (situado a sudeste de Gao), o rio recupera caudal, até por que possui uma bacia muito maior de fluxos à superfície e no subsolo, aumentando a cobertura vegetal.

3 – Desse modo ao longo dos séculos, no que é hoje o Mali, as comunidades foram-se fixando, fazendo sobretudo o aproveitamento da bacia do Níger até ao delta interior.

Segundo as estimativas demográficas, mais de 90% da população habita na asa sudoeste do Mali, coincidindo com a percentagem sedentária (“Mali – Wikipedia” – http://pt.wikipedia.org/wiki/Mali; http://en.wikipedia.org/wiki/Mali):

“Em julho de 2009, a população do Mali foi estimada em 13 milhões, com crescimento anual de 2,7%.


Mais de 90% da população vive no sul, especialmente em Bamako, que tem mais de 1 milhão de habitantes”.

Nessa asa, é evidente que as comunidades tuaregues são praticamente inexistentes e as que existam perdem-se numa população de outras etnias tornadas dominantes.

“A população do Mali abrange um número de grupos étnicos da África Negra, dos quais a maioria tem concordâncias histórico-culturais, linguísticas, religiosas.

De longe, o bambara é o maior grupo étnico, correspondente a 36,5% da população.

Em grupo, o bambara, o soninke, o khassonké e malinka, a maior parte do grupo mandê, representa 50% da população do Mali.

Outros grupos importantes são o peul (17%), o voltaic (12%), o songaic (6%), o tuaregue e o moor (10%).

Historicamente, Mali tem tido boas relações interétnicas, mas existem tensões entre os songhais e tuaregues”.

Mapa: Bacia do Rio Níger

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